CAPA DO LIVRO
HISTRIA, LINGUAGENS, TEMAS: ESCRITA E ENSINO DA HISTRIA

Ariel Jos Pires
Edgar vila Gandra
Flamarion Loba da Costa
Raphael Nunes Nicoletti Sebrian
(organizadores)

UNICENTRO
PARAN pg.1

FOLHA DE ROSTO
HISTRIA, LINGUAGENS, TEMAS: ESCRITA E ENSINO
DA HISTRIA

Contribuies cientficas da XIV Semana de Histria
da Universidade Estadual do Centro-Oeste,
campus de Guarapuava. pg.2

Ariel Jos Pires
Edgar vila Gandra
Flamarion Laba da Costa
Raphael Nunes Nicoletti Sebrian
(organizadores)

HISTORIA, LINGUAGENS, TEMAS: ESCRITA E ENSINO
DA HISTRIA

Contribuies cientficas
da XIV Semana de Histria da
Universidade Estadual do Centro-Oeste,
campus de Guarapuava.

UNICENTRO
     Editora   pg. 3

XIV Semana de Histria
HISTRIA, LINGUAGENS, TEMAS: ESCRITA E ENSINO DA HISTRIA
Promoo
Departamento de Histria,
Centro de Cincias Humanas, Letras e
Artes do Campus de Guarapuava
Apoio
Fundao Araucria
Comisso Organizadora
Coordenao Geral                     Comisso Cientfica
Ariel Jos Pires                  Edgar vila Gandra
Edgar vila Gandra               Raphael Nunes Nicoletti Sebrian
Flamarion Laba da Costa
Raphael Nunes Nicoletti Sebrian

FICHA CATALOGRFICA
Catalogao na publicao
Fabiano de Queiroz Juc - CRB 9/1249
Biblioteca Central da UNICENTRO - Campus Guarapuava

S471     HISTRIA, linguagens, temas: escrita e ensino da Histria/
		[organizado por] Ariel Jos Pires et al. - - Guarapuava:
		Unicentro, 2006
		182 p.

		Contribuies cientficas da XIV Semana de Histria da
	Universidade estadual do Centro-Oeste, campus de Guarapuava

		ISBN 85-89346-32-3

		1. Histria - Seminrios. 2. Histria - Ensino, l. Ttulo.
CDD 20a ed. 907

Notas: O contedo dos artigos destes anais  de inteira responsabilidade dos
seus respectivos autores. pg.4
APRESENTAO
Histria, linguagens e temas: escrita e ensino da histria  fruto do empenho dos professores do departamento de Histria da Universidade Estadual do Centro-Oeste  UNICENTRO, em Guarapuava, Paran, e pode ser considerado como, mais que um resultado de esforos individuais, uma complementao mtua. Os textos e suas abordagens, eivados de mltiplos estilos bem, refletem o leque de interesses e motivaes que cada um dos autores deixou aflorar ao longo da semana em que se desenrolou o evento do mesmo nome.
Este trabalho demonstra como atingir mltiplos objetivos. Na verdade, so textos multidisciplinares em cincias humanas que apresentam resultados de pesquisas em que se destacam, alm da cincia Histria, as contribuies  Sociologia,  Educao e  Literatura, abrindo mais espaos para estudos conjuntos, como sugere o ttulo.
Ariel Jos Pires
Coordenador do Evento
SUMRIO
Artigos
11 QuestIonamentos sobre a escrita da histria no presente: Exemplos na historiografia francesa
Helenice Rodrigues da Silva, UFPR
25 Histria, historiadores e imagem: Algumas notas introdutrias
Carlos Alberto Sampaio Barbosa, UNESP/Assis
59 Biografias histricas: O que h de novo?
Benito Bisso Schmidt, UFRGS
71 Dilogos entre histria e literatura: A cidade como palco da modernidade 	Nncia Ceclia Ribas Borges Teixeira, Mrcia Terezinha Tembil, UNICENTRO
87 Textos jornalsticos e o fio da histria da construo da via frrea em Guarapuava
Zeloi Martins dos Santos, UNICENTRO
101  O problema do ensino de histria: Perspectivas, limites, competncias
Edgar vila Gandra, Manuel Moreira da Silva, UNICENTRO
121  Imperialismo Yankee: Aspectos da Repercusso da Interveno Norte-americana na Nicargua (1926-1927)
Raphael Nunes Nicoletti Sebrian, UNICENTRO
137 Antonio Lustosa de Oliveira: O Desafio de uma Biografia
Walderez Pohl da Silva, UNICENTRO
155  Os Professores de Histria no Peloto de Fuzilamento ou um Elogio a Paulo Freire
Cerize Aparecida Nascimento Gomes, UNICENTRO
163  Olhando Fronteiras: Estratgias para uma Identidade Braslica no Sculo XIX
Jorge Nei Neves, UFPR

Resumos
175  Olhando Fronteiras: Estratgias para uma Identidade Braslica no Sculo XIX
Jorge Nei Neves, UFPR
175 Imperialismo Yankee: Aspectos da Repercusso da Interveno Norte-americana na Nicargua (1926-1927)
Raphael Nunes Nicoletti Sebrian
176  Guarapuava: A Cidade e Progresso no Olhar de Antonio Lustosa de Oliveira, O Joo do Planalto
Walderez Pohl da Silva, UNICENTRO
pg.5
176 "Histria do Paran": Um Ensaio Historiogrfico
Gislaine Ferreira
Liliane da Costa Freitag
177 O Discurso Poltico da lgreja Catlica nas Dcadas de 1930/40 Atravs da Fala de Alceu Amoroso Lima (Tristo De Athayde)
Flamarion Laba da Costa
178  Classificao e Leitura do Arquivo Pessoal do Prezado Senhor Jesuino Marcondes.
Zeloi Aparecida Martins dos Santos
178  Kaingangs e Colonos: Interpretaes e Verses do Conflito na Vila da Pitanga (1923)
Grazieli Eurich
179  Moralmente Falando: O Discurso e a Prtica do "Sentido De Respeito na Sociedade Guarapuavana (1963)
Maurcio de Fraga Alves Maria
179  Germanidade e Ao Poltica no Centro Sul do Paran: Teuto-brasileiros na Cidade de Imbituva (1937 -1945)
Guilherme Maier
180  Os Professores de Histria no Peloto de Fuzilamento Memrias do Museu da Pmpr: Representaes da Mulher-policial
Rosemeri Moreira
181  O Futebol Brasileiro na Dcada de 90 em Questo
Cesar Zimny
182  Os Novos Signos do Sistema Capitalista
Eliane Alves
Eliane de Ftima Bueno
Maria Elvina Mendes
182 Fogo e gua: A Importncia da Natureza para o Desenvolvimento das civilizaes
Ivon Eduardo Faria Pacheco pg.8
ARTIGOS pg.9
QUESTIONAMENTOS SOBRE A ESCRITA DA HlSTRIA NO PRESENTE: EXEMPLOS NA HISTORIOGRAFIA FRANCESA
 Helenice Rodrigues da Silva, UFPR
Aps um longo reino inscrito na longa durao, a disciplina histria na Frana retorna-se aos imperativos do presente, concedendo espaos  reflexo sobre o tempo histrico e sobre a prpria lgica da ao. .Abandonando sua excessiva preocupao com a metodologia, a disciplina volta-se, a partir do final dos anos 1980, para uma perspectiva mais interpretativa incorporando os rastros deixados na memta coletiva pelos acontecimentos1.
Portanto, questionar sobre a escrita da histria no presente, pressupe levar em conta, por um lado, as mutaes terico-metodolgicas, dessas ltimas duas dcadas, que incidiram diretamente na maneira de se fazer histria, por outro lado, as transformaes ocorridas na prpria conjuntura histrica (a queda do muro de Berlim, por exemplo) que exigiram uma nova abordagem da temporalidade. A partir de ento, o acontecimento, o poltico, em suma, a historicidade passam a fazer parte do territrio do historiador, preocupado em restituir os atores, as redes e as contingncias. Procuraremos mostrar, assim, a indissociabilidade do "fazer histria" (a narrativa) e do "fazer a histria"2 (a ao narrada), a partir de questionamentos sobre o tempo presente.

A histria entre o discurso e a ao
"O que fabrica o historiador quando faz histria? [...] O que produz?". Essas interrogaes de Michel de Certeau em relao  "operao histrica"3  o carter discursivo ou narrativo da histria, as relaes do pg.11 produto e da produo histrica a um lugar particular de enunciao, por exemplo -, contriburam, sem dvida, para fazer avanar o debate epistemolgico sobre a disciplina. Publicada em plena era estruturalista e em plena fase da chamada nouvelle histoire, cujo interesse voltava-se para os novos objetos antropolgicos, para a utilizao dos mtodos seriais e quantitativos e para a problemtica da "histria imvel" e das "mentalidades", "A escrita da histria" (l975), problematizando a relao do historiador com o seu tempo, passou praticamente despercebida junto  corporao dos historiadores franceses.
Ora, se os questionamentos metodolgicos marcaram os 50 anos do triunfo dos Annales, as preocupaes com a epistemologia s reapareceram com o seu declnio e com as mudanas de paradigmas tericos. Data, ento, do final dos anos 1980 a chamada "guinada crtica"4 (tambm designada hermenutica e/ou historiogrfica) que prope refletir sobre a identidade da disciplina histria.Face ao constato de crise das cincias sociais, a revista Annales publica uma srie de artigos visando a elaborar uma crtica interna, questionar sobre o estatuto da disciplina e sugerir novos mtodos e abordagens, adaptados aos novos paradigmas emergentes.
A ruptura com os modelos tericos anteriores (estruturalismo, marxismo, funcionalismo), que moldaram os Annales, favorece a aproximao da histria com a filosofia. Buscando uma abordagem mais reflexiva, uma reintegrao do sujeito no processo da construo histrica e uma valorizao do mtodo hermenutico, a "guinada crtica" enfatiza o carter
1 O trabalho de Pierre Nora sobre os "lugares da memria", concebido durante os 	anos 80,  o exemplo mais visvel.
2 Na lngua francesa, a diferena  bem ntida entre o "faire l'histoire" (escrever a histria) e o 	"faire histoire" (sofrer a histria).
3 Esse texto de Michel de Certeau foi publicado na coletnea Faire de l'histoire, dirigida por 	Jacques Le Goff e Pierre Nora, Paris: Gallimard, 1974. Em portugus, ele constitui o captulo II 	de A escrita da histria. Rio de Janeiro: Forense, 1982.
4 Ver Franois Dosse, A histria  prova do tempo  da histria em migalhas ao resgate do sentido. So Paulo: UNESP, 2001 e Histria e Cincias Sociais, Bauru: EDUSC, 2004.
 plural das abordagens histricas. Como todas as cincias humanas, a histria  uma interpretao.
Questionando o estatuto da disciplina, refletindo sobre os regimes de historicidade (a articulao entre as diversas temporalidades), enfim, buscando dar um sentido  histria, a "guinada critica"5 pretendeu participar, segundo Franois Dosse, de um "processo de humanizao" das cincias pg.12 humanas e de uma "reconverso pragmtica" (que visa a valorizar os atores e as aes)6.
Desse modo, os trabalhos de Michel de Certeau (sobre a operao histrica, a questo da alteridade), de Paul Ricoeur (sobre o tempo e a narrativa, a memria) e de Reinhardt Koselleck (sobre a semntica dos tempos histricos) passaram a inspirar diretamente a nova escrita da histria, abrindo espaos para se pensar a construo narrativa do discurso do historiador. Essa nova perspectiva  interpretativa e historiogrfca - se traduziu: por um lado, por uma revalorizao do tempo e do ator e por outro lado, por uma interrogao de conceitos e de noes empregados pelos historiadores. Atravs da epistemologia, a "guinada crtica" possibilitou o aparecimento de um espao reflexivo, prprio aos historiadores. Deixando de lado os emprstimos tericos e conceituais oriundos das cincias sociais, a disciplina se interessou, a partir do final dos anos 80, pelos "regimes de historicidade" (articulao dos tempos histricos), pressupondo a reabilitao de noes, como: a curta durao, a memria e o acontecimento o que favoreceu novas abordagens, como por exemplo, a histria poltica, a histria dos conceitos, a histria simblica. Essa renovao metodolgica e epistemolgica, pressionada, igualmente, pelas historiografas estrangeiras (americana, italiana e alem) permitiu a adoo de novos mtodos da pesquisa: as escalas de anlise (a micro-histria, por exemplo), a valorizao dos atores individuais (o gnero biogrfico passa a ser trabalhado) e a ateno pela forma discursiva da histria.
Na "Escrita da histria", Michel de Certeau j insistia sobre a prtica histrica como prtica de escrita. Reconhecer o carter polissmico da noo de histria, que designa, ao mesmo tempo, ao narrada (dinmica dos acontecimentos) e a narrativa (discurso), no significava valorizar e/ou retomar  histria narrativa praticada pela escola metdica, do final do sculo XIX. Pelo contrrio, nesse livro Certeau chamava a ateno dos historiadores para o carter discursivo da disciplina. Alis, Paul Veyne, em Como se escreve a histria (l 973), j afirmava, em plena vaga do quantitativismo, que "a histria  uma narrativa dos acontecimentos, todo o resto  consequncia disto".
O ato de fazer histria e o fato de narrar histrias, segundo Michel de Certeau, concede  disciplina uma vertente ficcional e uma vertente cientfica. Essa ltima resulta da insero da histria ao corpo social. A interrogao historiogrfca permite, portanto, situar o discurso histrico na contemporaneidade de sua produo.

5 Sob o ttulo de  Toumant critique  ("Guinada crtica"), a revista dos Annales publica, a partir dos nmeros de janeiro/fevereiro de 1988 (essa expresso s aparece no nmero de maro/abril de 88), anlises crticas sobre a historiografia francesa. O verdadeiro nmero da "guinada crtica" , no entanto, o de novembro/dezembro de 1989.
6 Cf. Franois Dosse. O imprio do sentido  a humanizao das cincias humanas. Bauru: EDUSC, 2003. pg.13

Ao contrrio de uma "histria imvel", da longa durao, que privilegia as regularidades, os invariantes, ou seja, a continuidade (tal como ela foi praticada pela "terceira gerao" dos Annales), a histria na sua prpria dinmica, como bem mostrou Michel Foucault (em "As palavras e as coisas")  marcada por rupturas e por descontinuidades. Prpria  idia mesma de contingncia, o acontecimento instaura essa idia de ruptura.
Paralelamente  "guinada crtica", a renovao da histria poltica na Frana (no incio dos anos 1980), contribuiu igualmente para se pensar a idia de historicidade e do tempo curto. A fragmentao da histria dos Annales (a histria em migalhas) contribuiu, certamente, para o retorno a uma maior contextualizao, ou seja, para uma reabilitao do acontecimento, do poltico e do presente.

A nova relao da histria com o tempo presente
Como sabemos, atravs das lies de um Benedetto Croce e de um Marc Bloch, toda histria  uma histria disfarada do presente, em outras palavras, toda historiografia contm a marca do contemporneo. As questes que so colocadas ao historiador, no momento de sua escrita, determinam, conseqentemente, os procedimentos analticos utilizados no tratamento de seu objeto e de suas fontes. A idia do contemporneo, portanto,  uma marca impressa em toda a escrita da histria. Referimos, frequentemente, s expresses de senso comum, como por exemplo "cada gerao escreve a sua histria", para melhor acentuarmos a relao do historiador com o seu tempo.
Ora, a transmisso da memria histrica opera-se tanto pela prpria disciplina, como por meio da instituio escolar ou, ainda, pelo vis das chamadas geraes. A memria , portanto, transmitida, mas tambm adquirida por meio de uma experincia pessoal. Assim, a histria, vivenciada no mesmo tempo e espao, forje, como constata Eric Hobsbawam, a viso dos acontecimentos.
"Para mim, dir esse autor, [o] 30 de janeiro de 1933  parte do passado que ainda  parte do meu presente7. No entanto, se o passado pg.14 deixa rastros sobre o presente, o contemporneo (pressupondo as vises de mundo) no deve, em nenhuma hiptese, interferir na interpretao da histria. A leitura da alteridade do passado, segundo Hobsbawm, deve impedir o pecado do anacronismo por parte dos historiadores8.
A prtica historiogrfica resulta, como afirmamos no incio, tanto dos avanos metodolgicos e epistemolgicos das cincias humanas como tambm de mutaes da prpria conjuntura histrica. Nessas ltimas trs dcadas, os acontecimentos (de ordem diversa) alteraram radicalmente a histria mundial. Como ignorar a fora do poltico e do acontecimento, como fizeram os Annales, valorizando um tempo longo e uma histria imvel? A acelerao da prpria histria, nesse meio tempo, invalidava esse modelo, obrigando os historiadores a rever a noo de historicidade.
Forjado pelo historiador alemo Reinhardt Koselleck, os conceitos meta-histricos "espao de experincia" e "horizonte de expectativa", constitutivos do chamado "regime de historicidade", exprimem os fundamentos temporais da disciplina. Baseado tradicionalmente na articulao do passado ao futuro, o regime de historicidade parece, no entanto, questionvel nessas ltimas dcadas. Nesses tempos atuais, marcados pela falncia do "horizonte de expectativa", ou seja, pela imprevisibilidade mesmo de um devir histrico, o presente se transforma em objeto de uma prtica histrica. Em um livro publicado recentemente sobre os regimes de historicidade, Franois Hartog designa de "presentismo" essa nova experincia do indivduo com o presente histrico9 assim como a inquietante obsesso das sociedades avanadas pelo presente.
7 Eric Hobsbawm, Sobre histria. So Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.245.
8 Ibidem, p.248.
9 Franois Hartog. Rgimes d'historicit - prsentisme et expriences du temps. Paris: Seuil, 2003.
A rpida acelerao do processo histrico  as grandes mutaes histrico-poltico das ltimas dcadas -,  explicam, segundo Hartog, a evoluo de nossa percepo do tempo histrico.
Se at 1789, o passado forneceu uma explicao do mundo, aps a Revoluo francesa, a concepo do devir inspirou uma nova concepo da histria. Colocando em prtica a idia de transformao social e poltica, a revoluo projetou a esperana em um "futuro radioso". A prpria noo pg.15 de progresso, fundada nas filosofias da histria (notadamente no marxismo), foi responsvel pela crena no devir das naes e da humanidade. Prometendo um "futuro radioso", as filosofias da histria tendiam a conceber o presente como um tempo derrisrio. Ora, os acontecimentos trgicos do sculo XX: a Grande guerra, a ascenso do fascismo e do nazismo, a Segunda guerra e, sobretudo, o genocdio dos judeus, abalaram inexoravelmente a crena na idia do progresso que subtendia a idia do devir e da "emancipao do homem.
A concepo do progresso do mundo moderno tornou-se incompatvel com a realidade: a destruio de milhares de pessoas pela mquina de guerra industrial. No entanto, foi com o final das ideologias do progresso, ou seja, com o desmoronamento do regime comunista em 1989, que a crena no futuro da histria parece ter atingido o seu fim. A queda do muro de Berlim tomou-se, assim, um marco dos novos tempos histricos, desprovidos de certezas e de iluses.
Sem dvida, essas rupturas e mutaes histricas foram muito mais profundas nos pases europeus do que no continente latino-americano, que viveu nesses ltimos 25 anos, a passagem de regimes autoritrios a regimes democrticos. Se os pases da Europa ocidental conheceram o final de um ciclo histrico  os chamados "Trinta Gloriosos" de crescimento econmico ininterrupto (l947/75) -, os pases do leste europeu, por sua parte, viveram uma imensa esperana de mudanas, a partir do desmoronamento do sistema comunista. Para o filsofo poltico Claude Lefort,

[...] o acontecimento selava o fracasso do empreendimento totalitrio que, sob  duas verses 	diferentes [democracia/totalitarismo], e algumas vezes tidas por opostas, havia 	ameaado o estado 	do mundo durante a maior parte do sculo. Em 	1990, a humanidade se via liberada da ameaa de 	uma guerra nuclear [...]. A adeso tambm dos estados do leste ao modelo nico de democracia, 	nesse momento, exaltava as imaginaes. Alm disso, esse acontecimento criava condies, nos 	diferentes continentes, de um apaziguameno dos conflitos locais anteriores ativados pela rivalidade 	entre as duas superpotncias. A possibilidade se oferecia a uma ordem internacional fundada nos 	princpios do direito. Ora, o desmoronamento no tardou a se manifestar.  imagem da unio se 	sobreps a imagem de uma fragmentao10. pg.16

O retomo ao nacionalismo, em algumas regies do leste europeu, resultando em guerras civis (na antiga Iugoslvia e na Chechena, por exemplo) despertou o sentimento de um retomo aos sombrios anos 1930, onde a purificao tnica e os campos de concentrao evidenciavam, no "o final da histria" mas, pelo contrrio, a sobrevivncia das ideologias. Por outro lado, a derrota do comunismo no significou a vitria do capitalismo, pelo contrrio, o fim desse sistema possibilitou, sobretudo nos pases que o adotaram, uma maior transparncia dos vcios e das imperfeies do capitalismo. O neo-liberalismo, servindo de modelo s economias globalizadas e restringindo a ao dos Estados, fragilizou a sociedade, implantando, em todas as partes, as desigualdades sociais.
Ora, o sentimento presente de uma crise geral reside, sem dvida, na idia de um futuro opaco e imprevisvel, mas tambm, e sobretudo, de um presente pouco inteligvel. Nesse sentido, o acontecimento de 11 de setembro de 2001 marca uma nova fase desse presente onde tudo parece possvel. A partir de ento, o mundo parece viver o imediato de um cotidiano pontuado pelas ameaas do terrorismo e do fanatismo.
10 Traduo nossa. "L'imaginaire de Ia crise". Commentaire, n. 76,1996, p. 462.
A prpria imposio de medidas repressivas, visando a impedir novos ataques, constitui uma regresso dos valores democrticos nos Estados Unidos. Na opinio de Franois Hartog, o pensamento iminente da catstrofe seria a marca do que ele designa de obsesso pelo presente histrico. Um exemplo: face  degradao do meio ambiente, os Estados sentem-se obrigados a colocarem em prtica o princpio de preveno e de precauo, ou seja, eles devem situar, cada vez mais, suas aes polticas e ambientais no tempo presente.
No entanto, convm precisar que essa preocupao com o presente ("presentismo"), vivenciada, sobretudo, em forma de uma crise da conscincia Histrica,11 no se aplica  realidade total do planeta. Mesmo em um pas como os Estados Unidos, cuja sociedade mantm forte relao com o presente, a fora da religio e o carter messinico de sua cultura tendem a projetar essa nao em direo do futuro. A crena em uma misso histrica pode explicar a ambio americana de querer implantar a democracia em pg.17 regies onde reina a despotismo. Por outro lado, enquanto pas de imigrao, os Estados Unidos contribuem tambm para reforar a crena, junto a grande populao de migrantes (em busca de um futuro melhor), de ser um pas aberto ao devir. Pases emergentes, igualmente, em plena expanaso de suas economias (como a China e a ndia) apostam, evidentemente, na perspectiva de um tempo "a vir". 

A histria do tempo presente: um novo campo historiogrfico
Criado na Frana, em 1978, para abrigar os arquivos da Segunda guerra, o Institut d'histoire du Temps Prsent (laboratrio do Centro Nacional de Pesquisa Cientfica - CNRS) teve por misso a elaborao de uma epistemologia e de uma metodologia da histria do tempo curto. Distinta de uma histria contempornea, a histria do tempo presente pressupe uma relao direta entre o presente histrico e uma experincia de vida. A existncia de atores histricos, testemunhos dos acontecimentos mais recentes (em via de desaparecimento), constitui, portanto, uma fonte (subjetiva) para a escrita dessa histria.
Se do ponto de vista metodolgico, a histria oral oferece uma tcnica de anlise, outras fontes documentadas, controladas pelo historiador, asseguram uma maior objetividade na sua escrita. Ora, a inscrio da histria no tempo curto exige, mais do que nunca, um distanciamento e um maior rigor por parte do historiador. Ao contrrio do jornalista, que trabalha com o imediato e com a efervescncia do acontecimento, o historiador inscreve suas anlises no tempo longo;  no passado que ele procura a explicao e a origem dos acontecimentos. Praticada, notadamente, em pases que viveram as tragdias do sculo XX, a histria do tempo presente tem como principais suportes metodolgicos: a memria, a demanda social, o testemunho, a tica, o direito[...].
A dinmica da histria do tempo presente, longe de inscrever-se no tempo curto do acontecimento, busca, portanto, estabelecer uma dialtica, ou melhor, um dialogo com o passado. Reabilitando, assim, o acontecimento, esse campo historiogrfico se apropria da interpretao dessas "rupturas" contemporneas.
Com relao s objees usualmente feitas  histria do presente, seus especialistas insistem no fato de que nem a questo do distanciamento, nem a questo das fontes constituem verdadeiros empecilhos. Primeiro porque pg.18 a objetividade deve ser a primeira regra para se escrever toda histria, segundo porque a indisponibilidade de arquivos pblicos (geralmente interditos por um perodo de 30 anos) pode ser remediada por outros meios: arquivos privados, entrevistas, mdia e inmeras publicaes.
Na opinio de Franois Bedarida, ex-diretor do IHTP, a fragilidade maior dessa histria residiria na dificuldade "da interpretao de um futuro por parte do historiador que desconhece a concluso e o fim dessa histria do presente".12 
12 F. Bedarida, "L'histoire du temps prsent". Sciences Humaines, n. 18, septembre/octobre 1997, p.31.
Para esse historiador, essa objeo, que remete  apreenso do impacto de um acontecimento cuja sequncia  desconhecida, no  pertinente visto que toda construo histrica  uma construo provisria13. Em contrapartida, a objetividade e a liberdade de escrita necessitam ser a condio fundamental para a validade de um trabalho de histria do presente.
Uma parte importante da investigao da histria do tempo presente baseia-se na testemunha dos afores histricos. Praticado, j h vrias dcadas, o mtodo da histria oral deu margem a uma srie de deformaes. Com efeito, por trs dos "usos e abusos" desse mtodo, encontra-se a difcil e a problemtica dialtica memria/histria. Do ponto de vista metodolgico, a prtica da histria oral impe regras e habilidades por parte dos historiadores. Seletiva e frgil, como todas as memrias, as narrativas das testemunhas devem passar pelo crivo critico do historiador. Importante para a construo da histria de presente, a chamada testemunha ocular de um acontecimento confunde-se com os afores e os sobreviventes; seu testemunho  uma forma denarrativa visando a uma transmisso de informaes. A delimitao de seu territrio e a definio de seu estatuto, no entanto, nem sempre parecem inteligveis. Convm lembrar que a palavra testemunho possui trs acepes histrica, jurdica e filosfica14. Historicamente falando, uma testemunha, ator ou simples espectador, narra o que viu ou que escutou;  nesse sentido que falamos de um "testemunho ocular ou auditivo". Do ponto de vista jurdico, a testemunha, que presta um depoimento no tribunal, transforma-se em ator de um processo judicial15. Na concepo filosfica e tica, a testemunha se erige em porta-voz da verdade. Ora, na confrontao com o historiador essa postura pg.19 tica toma-se, muitas vezes, objeto de litgio. Em nome da objetividade, o contrato da verdade permanece uma questo central para o historiador. Como ocorre com as fontes, em geral, todas as informaes  sua disposio necessitam controle e verificao. Face s falsificaes e os revisionismos histricos atuais, a escrita da histria do presente exige um maior rigor e uma grande objetividade por parte dos historiadores.

Memria e histria: o passado do presente"
A escrita histrica dessas ltimas duas dcadas toma-se, portanto, tributria dessa nova relao da histria com a memria individual e coletiva. Atravs da reabilitao do presente acontecimento, do ator, o fenmeno da memria (da rememorao individual e das comemoraes coletivas) se imps como complemento de uma histria do presente. Esse fenmeno memorial explica-se, em um pas como a Frana, por duas razes. A primeira, o desaparecimento dos atores, vtimas das tragdias do sculo XX, justifica o relato de uma experincia vivida. Os sobreviventes das guerras, dos totalitarismos e dos genocdios constituem, portanto, os testemunhos privilegiados da histria do presente. Alis, o "dever de memria" nasceu da existncia de Auschwitz. A segunda, as mutaes conjunturais, acentuando incertezas no presente e no futuro (crises econmicas gerando desempregos, por exemplo), tendem a re-atualizar a memria de tempos gloriosos, pelo vis das comemoraes de datas histricas (por exemplo, o bicentenrio da Revoluo francesa).
Assim, nos ltimos 25 anos, a demanda social da memria provocou uma vaga de publicaes de memrias e de narrativas de vida, ameaando mesmo deformar as duas categorias antagnicas: a memria e a histria. Ora, como sabemos, a histria comea onde termina a tradio, ou seja, a memria. A passagem da memria de um acontecimento  escrita da histria se processa lentamente por meio da abertura de arquivos que garantem um maior controle das informaes.
12F. Bedarida, L'histoire du temps prsent. Sciences Humaines, n.18, septembre/octobre 1997, p.31.
13Ibidem, p.31.
14Ibidem, p.31.
15Nos anos 80 e 90, a Frana conheceu alguns processos judiciais contra antigos colaboradores e nazistas acusados de praticar crimes contra a humanidade, durante a Segunda guerra, exemplos: os processos contra Barbie, Touvier, Papon.

Embora a histria do tempo presente problematize a memria, buscando um dilogo, trata-se, na realidade, de pg.20 duas categorias distintas e mesmo antagnicas. Segundo Maurice Halbwachs, em seu livro "Os quadros sociais da memria", a memria coletiva seria da ordem dos afetos enquanto a histria seria indissocivel do conceito. A fragilidade da memria, o seu carter seletivo e fragmentado, obriga o historiador a confrontar as duas categorias em vista de uma maior objetividade da sua escrita.
O sentimento de perda engendra, portanto, um retorno s lembranas de um passado prximo que se exprime atravs do fenmeno da memria. Presente do passado, segundo a expresso de Santo Agostinho, a memria , portanto, uma inscrio no presente histrico, no significando, necessariamente, um mero "culto do passado". Nesses ltimos tempos, ao lado de uma memria individual, uma memria coletiva passa a reivindicar, em nome dos direitos humanos e dos reconhecimentos dos crimes contra a humanidade, reparos, reconhecimento e direitos junto aos poderes pblicos. Assim, as minorias (deixadas de lado durante sculos), exigem em funo de uma mesma "memria", reintegrar uma histria comum.  o caso, por exemplo, das comunidades indgenas e negras no Brasil, que buscam reconhecimentos e maiores direitos. As comemoraes de datas histricas fazem, alis, parte desse processo de retomo ao passado em funo, evidentemente, de interesses presentes.
As transformaes histrico-polticas, alterando as condies da vida social, levam, igualmente, a criaes de memrias de realidades desaparecidas. As memrias de certos grupos se constituem, geralmente, aps o desaparecimento de uma categoria social, por exemplo, a "memria camponesa" s surge, nos pases industrializados, com a ascenso da classe operria e o xodo rural, no final do sculo XIX.
Esses exemplos, atravs da memria, de reconfigurao do tempo histrico, ligando o passado ao presente pela memria, acentuam a importncia da idia de vestgios. So os rastros e as marcas deixados pelos acontecimentos, ou seja, os vestgios de uma memria coletiva, que constituem, alis, o objeto central dos "Lugares da memria", coletnea dirigida por Pierre Nora. Analisando os vestgios deixados no tempo, esse trabalho reconstitui as memrias materiais (os monumentos), tangveis e apreensveis e as memrias imateriais (valores e smbolos) portadoras de uma histria. pg.21
No trabalho com a memria (individual e/ou coletiva) cabe, portanto, ao historiador escutar, intervir e confrontar as provas histricas ao relato dos atores. No entanto, as dificuldades aparecem quando se trata de mediar situaes que traduzem os traumatismos da memria frente a determinados acontecimentos histricos, o holocausto judeu, por exemplo. Como interferir em narrativas dessa ordem? Como reagir frente  difcil tarefa de uma transmisso impossvel?
Ao mutismo de muitos anos, onde a memria da deportao (para os campos de concentrao) fazia ainda parte da esfera privada, se sobrepe uma etapa da libertao da palavra na esfera pblica, por volta dos anos 80. Nas primeiras dcadas do ps-guerra, o silncio dos sobreviventes deve-se, sobretudo,  incapacidade de escuta por parte da sociedade francesa. Assim, os relatos individuais, concomitante aos avanos historiogrfcos sobre a Segunda Guerra, produziu uma mirade de narrativas sobre a deportao e os campos de concentrao.
Sem dvida, a re-apropriao da memria do holocausto pela histria do presente obriga o historiador a se interessar pela prtica psicanaltica. Nesse trabalho de escuta e de mediao, a palavra do testemunho visa menos a informar do que a se liberar. Ora, nas anlises freudianas, o impedimento  tendncia compulsiva de um traumatismo por parte do paciente  feito atravs de um "trabalho de lembrana", cuja cura se d pelo ato da transferncia. Por sua vez, o "trabalho de luto", que ope  tendncia auto-destrutiva da melancolia, consiste no desprendimento (ou na aceitao) de um objeto perdido (de amor ou de dio)16.
Ora, os traumatismos da memria individual e coletiva em relao a determinados acontecimentos histricos, impedindo a sua transmisso, no se manifestam pelo esquecimento do acontecimento, mas pelo silncio dos sobreviventes. Prisioneiros dos "no ditos" e dos interditos, os testemunhos da deportao, por exemplo, refugiaram-se, por longo tempo, em uma memria da morte.
Conseqentemente, se os sobreviventes das tragdias da histria so incapazes de ultrapassar essa experincia, a narrao dessa ltima permite uma certa libertao psquica. A dificuldade, no entanto, surge no prprio ato da narrao. pg.22 A impossibilidade da transmisso da experincia dos campos de concentrao no interditaria a representao desse objeto? Rompendo definitivamente com o fator "a humanidade", os campos de concentrao transformaram o trabalho da memria em um eterno trabalho de luto.
Em suma, atravs desses exemplos descritos acima, tentamos pensar a historiografia do tempo presente, tributria dos contextos histricos e intelectuais recentes e direcionada ao estudo da memria. Pg.23

16 Helenice Rodrigues da Silva, "Rememorao/comemorao: as utilizaes sociais da memria. Revista brasileira de Histria, So Paulo, n.44, 2002.
HISTRIA, HISTORIADORES E IMAGEM: ALGUMAS NOTAS INTRODUTRIAS
Carlos Alberto Sampaio Barbosa, UNESP/Assis
Introduo

Primeiras notas metodolgicas
O objetivo deste texto1  fazer um balano provisrio e preliminar da relao entre histria, historiadores e imagem. A bibliografia sobre o tema no campo histrico j  relativamente vasta. Toma-se mais ampla se abarcarmos as anlises de outras reas do conhecimento tais como Histria da Arte, Antropologia Visual, Sociologia Visual e Estudos Visuais2. Um panorama abrangente no  nosso objetivo e transcende a capacidade do autor. A proposta ento  apresentar algumas problemticas que envolvem a utilizao da imagem como fonte histrica conjuntamente a um balano bibliogrfico, principalmente de textos produzidos ou traduzidos em portugus abarcando os vrios suportes imagtcos, mas enfocando especialmente a fotografia3.
A imagem ocupa cada vez mais um lugar de destaque nos estudos histricos culturais no Brasil. Devemos encorajar os pesquisadores, principalmente os jovens historiadores, a realizarem investigaes tendo a imagem como ngulo estratgico de observao da sociedade. Mas tambm devemos preveni-los dos perigos do trabalho com as imagens. Imprevistos e armadilhas no uso de imagens como fontes so-comuns. Assim, devemos nos voltar para os pressupostos tericos e metodolgicos da imagem e de sua utilizao no campo da histria.
Podemos afirmar que de maneira geral os historiadores ainda no perceberam seriamente o suficiente o quanto as imagens podem ser bem utilizadas como fontes. A predominncia das fontes textuais ainda perdura em nosso meio. Em muitos casos, as pesquisas que fazem uso das imagens como fontes histricas utilizam-nas como ilustrao ou apenas para confirmar concluses que chegaram por outros meios, ao invs de procurar atingir novas respostas. Como afirma o historiador ingls Raphael Samuel, em grande parte os historiadores ainda so "iletrados visuais"4
A imagem como fonte histrica demorou a ser aceita pelos historiadores. A escola positivista acreditava que o documento textual oficial possua um status privilegiado, pois segundo tais autores estas fontes desfrutavam de um estatuto de verdade a qual praticamente possibilitava um contato direto com o passado no contaminado por intermedirios. 

1 Este texto foi apresentado sob a forma de conferncia na XIV Semana de Histria da UNICENTRO/Guarapuava em 28 de maro de 2006. Foram feitas alteraes para o formado impresso.
2 Para um balano das outras reas do conhecimento veja: FELDMAN-BIANCO, Bela & LEITE, Miriam L. Moreira (orgs.). Desafios da imagem: fotografia, iconografia e vdeo nas cincias sociais. Campinas: Papirus, 1998; e o excelente artigo de MENESES, Ulpiano T. Bezerra de, "Fontes visuais, cultura visual. Balano provisrio, propostas cautelares". Revista Brasileira de Histria, So Paulo: Anpuh/Humanitas Publicaes, vol.23, n 45, 2003, p. 11-36.
3 Devo muito destas reflexes a dois cursos realizados durante o doutoramento na USP: o primeiro ministrado pelo professor Ulpiano T. Bezerra de Meneses intitulado Fontes visuais na pesquisa histrica no Departamento de Histria realizado no ano de 2001 e outro do professor Boris Kossoy Informao fotogrfica e conhecimento: Bases tericas e metodolgicas para o estudo das imagens, realizado no ano de 2000. As informaes e afirmaes so da minha inteira responsabilidade. pg.25
4 SAMUEL, Raphael. Theatres of memoryvol 1: past and present in contemporary culture. London: Verso, 1994.

J as imagens eram vistas como demasiadamente subjetivas e assim ficariam sob o encargo dos historiadores da arte. Hoje, entretanto, cada vez mais os historiadores percebem o quo valiosas como documento so as fontes visuais para algumas problemticas.
Contudo no devemos v-las como a panacia universal, elas so apropriadas para algumas problemticas e campos especficos. Elas permitem atingir o conhecimento de diversas experincias do passado; afinal elas foram objetos de devoo, de informao e fontes de prazer. Permitem tambm atingir certas dimenses da representao visual de sociedade passadas como a cultura, a religiosidade e a poltica que outras documentaes no atingem. pg.26
As imagens so mudas e traduzir seus testemunhos em palavras  muitas vezes difcil e perigoso. Seu uso sozinho  quase impossvel, afinal, como qualquer outro tipo de fonte, exige seu cruzamento com outros recursos. "Devemos salientar tambm que a critica historiogrfca da utilizao da imagem como fonte histrica no se encontra to bem estabelecida quanto a critica documental de textos, o que causa certos rudos, problemas de -contextos einterpretaes. Lembremos ainda que existe uma grande variedade de imagens: pinturas, vitrais, gravuras, esculturas, fotografias, filmes, histria em quadrinhos, propagandas. Isto dificulta ainda mais o trabalho do historiador. Afinal, devemos dominar minimamente cada uma dessas linguagens para utiliz-las. Ademais, elas ainda podem ser classificadas como de primeira mo, ou seja, feitas durante ou logo aps o evento ou de segunda mo, realizadas muito tempo aps e em lugares distantes.
As imagens ainda se inserem dentro do problema do que se convencionou chamar de Arte. O termo "arte" apenas comeou a ser usado no Ocidente no Renascimento. O seu entendimento atual, particularmente a partir do sculo XVIII, significa valores estticos de uma obra. Durante muito tempo, aqueles que mais trabalharam corri as imagens foram os Historiadores da Arte. Como dito antes, estes especialistas se preocuparam muito mais com a questo da autoria, da relao artista e arte do que com o potencial cognitivo das mesmas5.
Ao contrrio do historiador da Arte, que no est preocupado com as obras e autores considerados excepcionais, para o historiador, independentemente da qualidade esttica, qualquer imagem serve como fonte histrica. A imagem suscita ainda uma srie de questes que em muitos casos os historiadores evitam discutir, como: Qual a natureza da Imagem? A imagem constitui um sistema de comunicao? Como  imagem atua na vida social? Alm de envolver questes mais de fundo, como: percepo, cognio, iluso visual, imaginrio e realismo.
Em primeiro lugar, devemos lembrar que a percepo  algo construdo historicamente, ou seja,  culturalmente contextualizada. Por isso podemos falar de viso burguesa ou viso iluminista.  o que nos demonstra primorosamente Michel Baxandall,6 ao tratar sobre como se constituiu um "olhar renascentista", como a produo dos artistas italianos do sculo XV foi produzida por uma cultura e uma sociedade concreta atravs de um olhar especfico do Renascimento. Segundo esse autor, a principal tarefa do historiador seria recuperar este olhar particular de cada experincia histrica. 
A imagem visual no constitui um sistema de comunicao, mas podemos apenas falar que h um potencial comunicativo na imagem.

5 Veja uma excelente sntese sobre a relao da Histria e a Imagem no livro de BURKE, Peter. Eyewitnessing: the uses of images as histrical evidence. New York/Ithaca: Cornell University Press, 2001. Existe uma traduo para o portugus, Testemunha ocular: histria e imagem. Bauru: Edusc, 2004. pg.27
6 BAXANDALL, Michel. O olhar renascentista: pintura e experincia social na Itlia da renascena. Rio de Janeiro: Paz eTerra, 1991. pg.28
Cabe aos historiadores tratar da historicidade desta imagem, suas condies de produo, circulao e apropriao, at porque se assim no o fizermos, elas sero reificadas. Caso contrrio, ao invs dos valores se darem nas interelaes entre os homens, vo se dar entre as coisas, e as coisas no se inter-relacionam. Os seres humanos  que fazem circular e dinamizam os objetos. Para analisarmos as imagens temos, ento, que entend-las na sociedade e no fora ou acima dela. Isso pode parecer uma obviedade, mas no . Afinal, no ser apenas entendendo a produo material das imagens que vamos conhecer e compreend-las. Devemos investigar a produo social da imagem, pois esta instncia engloba a primeira, a produo material; depois devemos procurar entender como a imagem foi operacionalizada na sociedade, como ela circulou e como foi apropriada.
	Tambm no devemos cair em outro equvoco de buscar, pois no existe, um momento privilegiado das origens, visto a partir do apogeu do momento nico. Assim a imagem no ser entendida como uma coisa, mas como um enunciado, no como uma linguagem, mas como uma fala. Ento, quando falamos de apropriao estamos dentro do campo da Histria Cultural, ou seja, da histria das apropriaes culturais, que tambm  entendida como uma produo.
	Outro problema ser analisar as propostas para a interpretao da imagem. Normalmente, esses mtodos procuram o sentido universal da imagem. Tal concepo, em grande medida,  a-histrica. No existe um sentido universal da imagem. A imagem ao longo de sua existncia  apropriada por diferentes indivduos, grupos, classes sociais e governos e, ao longo da histria, recebem vrios sentidos.
	Outra questo diz respeito  inverso que vrios pesquisadores fazem ao definir a problemtica das investigaes a partir das fontes. As fontes no podem definir a problemtica de uma pesquisa, os documentos no produzem problemas histricos, o historiador deve definir a sua problemtica. Outro equvoco que ouvimos constantemente  que uma imagem vale por mil palavras. Grave engano, pois se no soubermos fazer as perguntas certas, as imagens sero mudas. Tambm no existe histria feita apenas com um tipo de fonte, isto  impossvel. Devemos nos cercar de vrios suportes documentais, principalmente quando trabalhamos com imagens.                                       
	Chegando a este ponto, cabe perguntar: podemos traduzir as imagens em palavras? Em parte sim, em outra no, as imagens so irremediavelmente mudas. Em geral as imagens no foram criadas, pelo menos em sua maioria, pensando nos historiadores do futuro. Seus produtores dialogavam com seus pares e possuam seus prprios cdigos e convenes de linguagem e devemos, portanto, dominar estes.
	Enfim, o melhor caminho  assumir a perspectiva de uma Histria que trabalha com uma dimenso visual da sociedade. Afinal, existe uma dimenso visual das relaes sociais quaisquer que sejam elas. Todo o nosso sistema de valores tem uma dimenso visual principalmente em nossa sociedade. Concordamos com o que afirma Pierre Francastel7 existe um pensamento plstico assim como existe um pensamento matemtico ou poltico. pg.29
	Ainda mais em nossa sociedade em que a importncia do olho transcendental. As relaes visuais nos ltimos anos tm adquirido uma importncia fundamental na nossa sociedade. Ento devemos pensar em como definir problemas ligados s uma histria visuai, pois vivemos numa sociedade logocntrica em que no se acredita que seja necessrio estudar para ver. No se aprende a ver na escola como se aprende a ler.
	7FRANCASTEL, Pierre. Realidade figurativa: elementos estruturais de sociologia da arte. So Paulo: Perspectiva, 1982. p. 3. 
Institucionalmente, no se pensa que precisamos aprender a ver e assim acabamos sendo dominados pela imagem.

Histria e imagem
	A princpio, queremos estabelecer algumas balizas temporais do uso da imagem como fonte de conhecimento. O potencial cognitivo da imagem s ser reconhecido no Renascimento, embora de forma muito frgil, sua efetiva utilizao sistemtica como fonte de conhecimento ocorre no sculo XVIII, na Histria da Arte. Na Antiguidade e na Idade Mdia a imagem no era utilizada como fonte de conhecimento, "dominava valor afetivo"8.
	Foi na Antigidade que nasceu uma tradio ocidental do uso das imagens. Mas a percepo da imagem com algum valor cognitivo de registro de acontecimento no era um padro. O potncia cognitivo, usado numa dimenso cognitiva, nunca definiu um padro na Antiguidade. Muito pelo contrrio, a imagem na Antiguidade possua uma carga negativa como o famoso mito da caverna em que Plato deixa claro sua viso negativa com respeito s imagens e aos seus autores. Ele inclusive no chamaria os produtores de imagens, 05 pintores, para a sua Repblica9.
	No perodo medieval, a imagem e as representaes foram instrumentos pedaggicos no convencimento, legitimao e difuso do cristianismo. A proibio pelo menos at o sculo VI nunca vigorou plenamente. O uso oficial, na funo de adeso, no foi o nico. Discutiu-se muito tambm se em lcito representar homens e santos ou se devamos proibir essas imagens. Os primeiros cristos no precisavam e no podiam us-las, pois eram perseguidos. Somente a partiir do sculo IV  que as imagens comeam a ser utilizadas amplamente. Sua aceitao vai se dar segundo vrios argumentos: o antropolgico e o histrico, o teolgico e o argumento funcional. No perodo da Reforma, teremos a destruio das imagens. No sculo XVIII, ocorreram as lutas iconoclsticas. Enquanto e o pg.30 telogos da reforma como Calvino e Cranach so contra as imagens, Lutero era mais flexvel.
	Vrias representaes construdas atravs de imagens nesse perodo penetraram em nosso imaginrio e permaneceram nos ltimos milnios chegando at ns. A caveira representando a morte, a imagem do Juzo Final, do purgatrio, do cu e do inferno, o demnio, a Mulher, a Virgem, o Menino Jesus e tantas outras discutidas e analisadas por autores como Philippe Aris, Jeati Delumeau e Michel Vovelle, alm de brasileiros como Joo Jos Reis, Laura de Mello e Souza e Ronaldo Vainfas10.
	 importante destacar que essas representaes produzidas na Europa atravessaram oceanos e foram amplamente utilizadas nas Amricas -durante a colonizao e no processo de evangelizaao. Essa incorporao deu origem a um dos movimentos mais originais de nosso continente, o Barroco e a mestiagem cultural com a mescla de elementos europeus a elementos nativos e africanos. A circulao e apropriaes de imagens foram impressionantes e encontramos a presena de elementos iconogrfcos flamengos em igrejas e imagens produzidas 
	
10ARIS, Philippe, O homem perante a morte. Lisboa: Edies Europa-Amrica, 1980; DELLUMEAU, Jean, O pecado e o medo: culpabilizao no Ocidente. Bauru; Edusc, 2003; VOVELLE, Michel Imagens e imaginrios na Histria: fantasmas e "certezas nas mentalidades desde a Idade Mdia at o sculo XX. So Paulo: tica, 1997; SOUZA, Laura de Mello e, O diabo e a Terra de Santa Cruz, Companhia das Letras, 1986; REIS, Joo Jos, A morte  uma festa; ritos fnebres  e revolta popular no Brasil do sculo XIX. So Paulo: Companhia das Letras, 1991 e VAINFAS, Ronaldo, Trpico dos pecados: moral, sexualidade e inquisio no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1989. Veja uma sntese em PAIVA, Eduardo Frana. Histria & Imagens. Belo Horizonte: Autntica, 2002.

por artistas (pintores e escultores) por toda a Amrica Espanhola (Peru, Equador, Bolvia, Mxico e Guatemala)11. 
Serge Gruzinski advoga a existncia de uma tradio de utilizao das imagens com fins polticos desde os primrdios da conquista do Mxico at a modernidade. O autor acredita numa ressonncia distante pg. 31 entre uma produo iconogrfica religiosa com fins pedaggicos didticos polticos utilizados para evangelizao e a "colonizao do imaginrio" desde o sculo XVI at a Escola Mexicana de Pintura - o chamado Muraliamo - e a Televisa no sculo XX12.
	Entre o Renascimento e a poca Moderna, sculos XVI a XVIII, temos um dos mais ricos e complexos momentos no que diz respeito  visualidade. Surge tambm nessa fase a Histria da Arte e esta no se contamina com a Histria. Os dois campos no entram em contato e permanecem como duas reas distintas. No Iluminismo, o grande marco foi a publicao da Enciclopdia em que os verbetes eram acompanhados de ilustraes. O grande volume de imagens buscava tornar visveis as explicaes verbais, procurava mostrar aquilo que se completa do texto e
assim aproximam-se ao uso atual. O prprio termo lluminismo estava associado com a idia de visualidade, era uma marca de compreenso da realidade. Esse perodo marcaria uma mudana da concepo logocntrica para uma "ocularcntrica".
	Na passagem da Histria Moderna para a Contempornea, outro momento importante foi a Revoluo Francesa. Nela encontramos uma forte percepo popular do tempo da histria enquanto mudana e ruptura. A imagem nesse perodo surgiu como um registro documental. A grande circulao de imagens serviu para fixar sentidos, sacralizar datas, eventos, figuras da revoluo e utilizada tambm para fixar significaes e interpretaes. Nesse sentido, a Revoluo Francesa foi um grande foco de produo imagtica, pois possibilitava a elaborao de uma conscincia histrica coletiva. As populaes possuam a conscincia de que viviam uma ruptura, dai que o registro dos fatos atravs principalmente das gravuras logo se transformou um ato simblico. Bronislaw Baczko j falou que "toda crise revolucionria,  um tempo quente na produo de imaginrios sociais" os imaginrios sociais so formados por representaes e principalmente por imagens.
	Cabe aqui falar um pouco dos conceitos de imaginrio social e representao e suas vinculaes com imagem, As revolues so movimentos coletivos por excelncia, e a linguagem dos smbolos  notvel pg. 32 para transmitir a utopia e a esperana. Assim, em momentos de crise poltica, o surgimento e a criao de imaginrios so destacados. At porque os imaginrios sociais ou colelivos so projees do eu coletivo ou individual sobre o outro, sendo assim uma forma de construo de identidades. Durante os perodos revolucionrios, os imaginrios sociais so referencias que designam as identidades elaborando uma construo de representaes dos papis e das posies sociais. A construo de identidades sociais faz parte do processo de demarcar territrios e fronteiras, "significa conservar e modelar as recordaes passadas, assim como projetar ate o futuro seus temores e esperanas".14    
	Os imaginrios sociais so lugares de conflitos, porque fazem parte do dispositivo de controle colelivo e do exerccio do poder. A procura pela legitimao  

11Eddy Stols, Conferncia proferida na UNESP/Assis em 2005.
12Veja  os trabalhos de GRUZINSKI, Serge. A colonizao do imaginrio: sociedades indgenas e ocidentalizao no Mxico espanhol sculos XVI  XVIII. So Paulo: Companhia das Letras, 2003; pensamento mestio. So Paulo: Companhia das Letras, 2001 e la guerra de Ias imgenes: de Cristbal Coln a "Blade Runner" (1492-2019). Mxico: fondo cultura econmica, 1995. 
13 BACZKD. Bronislaw. Los imaginarios sociales: memrias y esperanzas colectivas. Buenos Aires: NuevaVisin, 1991, p, 39.
14 Idem, p. 28.
do poder passa pela criao das representaes fundadoras de legitimidade. Como a sociedade no produz uma quantidade ilimitada de bens simblicos, surge da a necessidade de cooptao de produes simblicas. Recriando-as ou construindo uma nova leitura dessas produes. Devido  importncia dos smbolos, o poder institudo cria polticas e dispositivos de proteo e at de represso para conservar seu capital simblico. A funo dos imaginrios sociais consiste cm organizar e ordenar a sociedade. O Estado, por sua vez, procura controlar os meios de difuso e circulao simblicas na sociedade.
	Representao  a relao entre uma imagem presente que representa algo ausente. Essa imagem, ou representao de determinada realidade social,  percebida, interpretada por um grupo que cria uma apreciao do real. Mas, ao mesmo tempo, faz parte da realidade.15  A criao de representaes faz parte do processo de construo do imaginrio social. O imaginrio social aqui  entendido como constituinte do real, e no como oposio ao real; cuma condio do real, um elemento mobilizador de esperanas, amores, dios. No consideramos o imaginrio social como esttico ele  histrico, portanto, dinmico.16  Existem duas formas de gerao de imaginrios: a espontnea e a de transformao. Alguns desses imaginrios pg. 33 podem se transformarem idias-fora, mas para isso  necessrio que sejam capazes de tornarem-se aglutinadores do imaginrio coletivo. O imaginrio social est assentado nos smbolos, portanto no dominio das imagens.
	Assim, a  Revoluo Francesa ser um doa marcos na produo de imagens. Logo aps os acontecimentos de julho de 1789 se espalha pelas sociedades europeias uma construo imagtica da Revoluo atravs dos lbuns histricos com gravuras que representam as fases desse conflito. A primeira edio aparece em 1791 e foi seguida de outras no s na Frana, mas na Alemanha, Blgica e Holanda17. A gravura era uma verso pobre da pintura a leo, voltada para um pblico, a burguesia em ascenso.
	J a Pintura Histrica era, em grande parte, pintura a leo. Os quadros feitos nesse perodo voltavam-se para os espaos pblicos e instituies, pois possua grandes dimenses. No Brasil, algo semelhante ocorreu com relao  pintura acadmica produzida durante o Imprio, e a Repblica encarregou-se de repudiar. Pintores como Pedro Amrico, Vctor Meireles e Benedito Calixto, entre outros, foram relegados e s recentemente foram utilizados como fontes histricas.18 Os temas da Pintura Histrica eram em geral Bblicos ou Feitos Hericos. Nos temas Bblicos, os autores tinham como objetivo extrair lies, reforar e divulgar valores. Nos temas relacionados aos Feitos Hericos, os pintores procuravam realizar uma pesquisa emprica. Podemos citar o exemplo de Pedro Amrico e a realizao do quadro do Grito do Ipiranga. Ele deixou testemunhos de seu processo de pesquisa  por escrito: visitou as colinas do Ipiranga, viajou  Espanha para conhecer os 
	
15 CHARTIER, Roger. A hitria cultural: entre prticas e representaes. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1990, p. 13-28.
16 BAZCKO, Bronislaw. Los imaginarios sociales: memorias y esperanzas colectivas. Buenos Aires:Ediciones Nueva Visin. 1991.p. 11-53.
17MUSE DE LARVOLUTION FRANAISE, Claudete Hould, Annie Jourdan, RolfReiclardt et Stpahne Roy. La rvolution par la gravure: les tableux historiques  de la rvolution frabaise, une entrepise ditoriale d'information et as diffudion en Europe (1791-1817).Paris: Muse de la rvolution franaise, 2002, Veja tambm os excelentes trabalhos de STAROBINSKI, Jean, A inveno da liberdade. So Paulo: Unesp, 1994 e 1789: os emblemas da razo, So Paulo: Companhia da Letras, 1990.
18 Veja principalmente o historiador brasileiro COLI,  Jorge, "A pintura e o olhar sobre si: Victor Meirelles e a inveno de uma histria visual no sculo XIX brasileiro", in: FREITAS, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. So Paulo: Contexto, 1998.
cavalos, alm de visitar museus para conhecer modelos de armas, roupas, botes e demais acessrios de poca. Pg. 34
	A figura da Mulher e de Maria foi retomada incessantemente tambm pela pintura histrica francesa e mundial, associando-a com a me rotetora, com a fertilidade que remonta ao perodo medieval e acrescentando outras camadas de significaes que posteriormente inspirar e servir de modelo para a alegoria da Repblica e da Liberdade na Frana e em outros pases como o Brasil. Com o advento da revoluo socialista, ela surgir como a Me Revolucionria que conduz o povo, seus filhos19.
	Antes de discutirmos algumas propostas terico-metodolgicas sobre a imagem, vejamos alguns precursores nesse campo. Um dado importante  que muito deles foram tambm precursores no estudo do que veio a ser chamado de Historia Cultural.
	Um dos pioneiros da utilizao de imagens com recurso documental para o historiador foi Jules Michelet, como mostrou muito bem Francis Haskell20. Neste artigo, ele mostra como o grande historiador francs do sculo XIX apresenta o potencial das tumbas como ndices da transformao das atitudes do homem perante a morte. Alm disso, destaca a utilizao da pintura, da escultura e da arquitetura como sinais de grandes movimentos histricos que lhe inspirou um dos conceitos historiogrfcos mais audaciosos do sculo XIX, o Renascimento.
	Um protagonista no menos imporlante, foi Jacob Burckhardt (1818-1897) em cujo livro,.A cultura do Renascimento na Itlia21  publicado originalmente em 1860, trabalhou com pinturas e esculturas para recriar a cultura do Renascimento. Ele afirmava que as imagens so testemunhos dos estgios passados do desenvolvimento do espirito humano atravs do qual  possvel ler as estruturas do pensamento e representao do tempo passado. Outro historiador que utilizou imagens foi o holands Johan Huizinga (1872-1945), que em seu livro clssico O declnio da Idade Mdia (o ttulo pg. 35 origina era o Outono da Idade Mdia publicado originalmente em 1919)22  comparou o entendimento histrico com uma "viso" do passado.
	Outro expoente importante foi o historiador da arte Aby Warburg (1866-1919)que  fundou o The Waeburg Institue em Hamburgo. Cabe aqui falar um pouco mais da Iconografia ou Iconologia como mtodo de anlise das imagens. A iconografia surgiu com a Escola de Warburg que deve seu nome ao estudioso alemo filho de banqueiros Aby Warburg ( 1866-1929). Este formou uma biblioteca famosa com mais de 15 mil volumes e formou em tomo de si um crculo de intelectuais chamados de "Circulo de Warburg" que congregou vrios pesquisadores, tais como Erwin Panofsky, Fritz SaxI, Rudolf Wittkower, Ernest Wind, Francs Yates e o filosofo Ernest Cassirer. Todos eles estudiosos com uma boa formao clssica e amplo interesse em literatura, histria e filosofia.
	O trabalho que revelou Aby Warburg foi seu estudo de um palcio em Ferrara, na Itlia. Nessa investigao, desvendou algumas signi ficaes misteriosas  dos

19 Veja AGULHON,Maurice. Marianne au combat: I' imagerie et la symbolique rpublicaines de 1789 a 1880 Paris: Flammarion, 1979 e CARVALHO, Jos Murilo de. A formao das almas: o imaginrio da repblica no Brasil. So Paulo: Companhia das Letras, 1990. Veja tambmPAIVA, Eduardo Frana, op.cit.
20 Francis Haskell. "Michelet  I' tilisation des arts plastiques comme sources historiques. Annales ESC, n6,nov-dic, 1993, pp, 1403-1420.
21 BURCKHARDT, Jacob. Cultura do renascimento na Itlia. So Paulo: Companhia das Letras, 1991.
22 HUTZINGA, Johan. O declinio  da idade mdia. Lisboa: Ulisseia, s/d.
afrescos atravs da astrologia. Sua interpretao causou um grande choque no meio dos historiadores da arte na sua primeira apresentao em um congresso realizado em Roma, em 1912. Afinal, suas explicaes levavam  percepo de que por trs de imagens crists presentes nesta pintura existiam vrios temas pagos. Assim, Cristo na cruz bizantina seria Apolo, os anjos seriam ento intermedirios ou mensageiros de Afrodite.
	Mas coube a Erwin Panofeky (1892-1968) ser o grande organizador e divulgador dos mtodos do grupo. Seu ensaio de 1939 distinguindo trs niveis de significados na anlise das imagens tornou-se quase um manifesto: o primeiro nivel  o pr-iconogrfico, o segundo iconogrfico e o terceiro iconologico. 23 A primeira vez que a palavra "iconografia" apareceu foi durante o Renascimento em um manual de pintura escrito por Cesare Ripa em 1593. O termo voltou a ser usado no sculo XIX. Algumas caractersticas que mais nos interessam no mtodo iconogrfico proposto por Panofsky foram a crtica a certo tipo de Histria da Arte entendida como Histria dos Estilos; outro ponto importante foi a introduo nas anlises da categoria de cosmoviso ou viso de mundo. Pg. 36
	Os iconografos fizeram uma critica ao realismo fotogrfico, pois enfatizam um contedo intelectual da obra de arte, sua filosofia ou teologia implcita. Pode-se dizer que para os iconografos as imagens (pinturas) no foram feitas para serem vistas, mas para serem lidas. Segundo essa anlise, seria no ltimo nvel (iconologia) que as imagens oferecem evidncias para os historiadores da arte (e culturais). Panofsky procurou apresentar sua metodologia em seu trabalho de 1951 quando explora a existncia de homologias entre o sistema filosfico e a arquitelura dos sculos XII e XIII24.
	Os historiadores da arte empregaram o termo iconologia de diferentes modos. Segundo Burke25, Eniest Gombrich utilizou-o como reconstruo de um programa pictrico, um esprito de uma poca Zeitgeist. Eddy de Jongh, estudioso holands, fala numa tentativa de explicitar uma representao no seu contexto histrico em relao a outros fenmenos culturais. Panofsky reafirma que as imagens so partes de uma cultura e no podem ser entendidas separadamente do todo e das referncias a culturas passadas. Em seu caso, falava principalmente de uma cultura clssica greco-romana. Resta destacar que os trabalhos dos principais membros da Escola de Warburg foram interpretaes de pinturas do Renascimento italiano.
	Iconografia e Iconologia tornaram-se associadas e vistas como sinnimos. Ficaram associadas com certa anlise das pinturas apenas do ponto de vista da sua composio, s expensas do seu contedo e assunto. Hoje, os crticos consideram que esses nveis do mtodo iconogrfico como camadas superpostas evidenciariam uma hierarquia muito rgida. Alguns estudiosos criticam essa viso como sendo muita estanque e preferem utilizar o termo dimenso para romper com essa fragmentao entre os nveis. Eles so criticados tambm por serem por demais intuitivos, especulativos e cair no chamado esprito de uma poca (Zeitgeist). So criticados tambm porque, apesar de pregarem o uso de documentao alternativa no final, recorriam somente  imagem. Outra falha apontada  pg. 37 a carncia da dimenso social. Eram, em geral, indiferentes ao contexto social. Panofsky era notoriamente indiferente, se no hostil,  histria social da arte. O objetivo era descobrir o significado da imagem sem ao menos perguntar: significado para quem?

23 PANOFSKY, Erwin. O significado nas artes visuais. So Paulo: Perspectiva, 1979.
24 PANOFSKY, Erwin. Arquitetura gtica e escolstica: sobre a analogia entre arte, filosofia e teologia na idade mdia. So Paulo: Martins Fontes, 1991.
25 BURKE, Peter- Eyewitnessing: the uses of images as historical evidence. New york/Ithaca.-Cornell University Press, 2001.
Seu mtodo acabou sendo utilizado basicamente para a pintura e no para uma variedade maior de imagens26.
	Apesar das crticas, o mtodo iconogrfico foi importante porque desenvolveu um instrumental valioso para os pesquisadores e os historiadores. Carlo Ginzburg fala do mtodo indiciado aproximando-se do mtodo iconogrfico ao afirmar que o historiador  uma mescla de Historiador da Arte, Psicanalista, Detetive27. O Historiador da Arte, citado por Ginzburg,  Giovanni Morelli (1816-1891). Este afirmava que era nos detalhes que se revelava a autoria dos quadros. Outro historiador que, apesar das crticas, defende o mtodo iconogrfico  Peter Burke ao afirmar que antes de "ler as imagens entre as linhas"  prudente saber os seus significados.
	Alm do mtodo iconogrfico, as abordagens metodolgicas do uso das imagens como fontes de conhecimento procuram agrup-las em eixos de anlise: teorias especulares e homolgicas. As primeiras defendem que existe uma subordinao da cultura e, portanto, das imagens aos aspectos econmicos, polticos e sociais, ou seja, a infra-estrutura determina a superestrutura. Essas teorias possuem uma viso causal (de causa e efeito) entre arte e sociedade: assim, a ideologia se transforma em imagem. Essa viso des-historiciza o fenmeno artstico. So citados como autores prximos dessa viso Nicos Hadjinicolau28 e Arnold Hauser. Este ltimo foi um marxista hngaro que escreveu o conhecido livro Histria Social da Literatura e da Arte em 195129. Sua viso  que a arte  um reflexo ou pg. 38 expresso dos conflitos sociais entre burguesia e aristocracia numa poca, posteriormente entre burguesia e proletariado. Crticos como Ernest Gombrich afirmam que essa viso  muito simplista ou mesmo reducionista. Segundo ele, para Hauser as produes culturais so tratadas dentro de grandes escolas ou movimentos, em seus aspectos gerais, e no dentro da produo particular de cada artista. Nas teorias homolgicas, os fatos coocorrem ou existiria uma co-variao entre fenmenos sociais e culturais.
	Alguns autores, como Paulo Menezes, dividem as interpretaes sobre as artes visuais em anlise externa e interna30. Na primeira, as obras seriam entendidas dentro de movimentos ou estilos artsticos no limite, o conjunto de obras seria expresso de sistemas, estruturas ou processos que  se situam em outro lugar do universo social; sendo estas obras expresses fenomenolgicas ou sistmicas de um outro social que se diferenciariam delas mesmas31. Assim os fenmenos artsticos seriam compreendidos por seus plos geradores e fruidores e seus componentes sociais. Segundo ele, autores mais prximos dessa viso seriam: Arnold Hauser, Pierre Sorim, lan Charles Jarvie e Roger Bastide.32

26 Para uma crtica  ao mtodo iconogrfico veja o j citado livro de Burke e NEIVA, Eduardo, Imagem, historia e semitica". in; Anais do Museu Paulista- histria e cultura material, So Paulo: USP, Nova Srie. n 1, 1993,p. 11-29.
27 GINZBURG, Carlo. Mitos. emblemas, sinais: morfologia e histria. So Paulo: Companhia das Letras, 1989. Neste livro veja os captulos "De Warburg a E. H. Gombrich: notas sobre um problema de mtodo", e "sinais: razes de um paradigma indicirio".
28 HADIJNICOLAU, Nicos. Histria da arte e movimentos sociais.So Paulo: Martins, 1978.
29 HAUSER, Arnold. Histria social da Literatura e da arfe. 2 vols, So Paulo: Mestre Jou, 1972.
30 MENEZES, Paulo. A trama das imagens: manifestos e pinturas no comeo do sculo XX. So Paulo: Edusp. 1997 (Texto e Arte, 14), p.16.
31 Idem, p.17
32 SORLIN, Pierre. Sociologa del cine. Mxico: fundo de cultura econmica. 1985; JARVIE, lan C. Sociologa del cine. Madri: Guadarrama, 1974 e BASTIDE, Roger.  Arte e sociedade. So Paulo: Nacional, 197. Veja a discusso em Paulo Menezes, op. Cit, p.18
	Nas anlises internas, as expresses artsticas teriam certa "autonomia relativa que lhes permite ser portadoras de sentido. Esse sentido, entretanto, no pode ser encontrado em outras dimenses do social, podendo ser compreendido apenas por meio da anlise e interpretao das obras como imagens, como produtos individuais em si33. Ele vincula a essa viso Pierre Francastel. Ernest Gombrich, Nicos HadjinicoIau.Annie GoIdmann, pg. 39 John Berger e Herbert Rerbert Read34.  Essas divises so sempre arbitrrias e discutveis, mas fornecem uma base para a discusso.
	Pierre Francastel traz contribuies fundamentais para o entendimento do fenmeno visual em seu livro "A realidade figurativa". Neste livro procura construir uma metodologia de abordagem do fenmeno artstico partindo de uma crtica da Histria da Arte tradicional que at aquele momento procurou realizar uma classificao desse fenmeno a partir de pressupostos das cincias biolgicas. Faz uma critica tambm ao campo das cincias sociais que coloca a obra de arte como reflexo ou ilustrao da realidade. Procura, assim, construir uma nova Sociologia da Arte. Para Francastel, a obra de arte no  uma fonte de informao complementar nem apenas um duplo da realidade, ela compe o pensamento plstico ou esttico do homem, assim como existiriam o pensamento matemtico e poltico. A percepo desse pensamento plstico  fundamental para o conhecimento do passado, pois podem transformar e complementar as abordagens atuais, A obra de arte seria ento um sistema de expresso coerente, assim como o so os sistemas de expresso matemtico ou verbal.

A fotografia
	Dois momentos so considerados revolucionrios do ponto de vista visual: primeiro, o surgimento da imagem impressa nos sculos XV e XVI; em segundo lugar, o surgimento da fotgrafia no sculo XIX. Poderamos destacar tambm o surgimento da reprodutibilidade tcnica como muito bem colocou Walter Benjamin cm seu famoso texto35. Pois a reproduo em larga escala que comeou com a impresso de gravuras atinge seu ponto mximo no incio do sculo XX com o advento da cultura de massa, o que permitiu uma revoluo na informao e nas comunicaes por imagens que foi extremamente facilitada. Foi o que Walter Benjamin chamou de pg.40 transformao do valor de culto para o valor de exibio e a sua conseqente perda da aura.
	A fotografia inventada em 1839 contou ao longo de todo o sculo XIX, com vrios avanos tecnolgicos que a tomaram mais popular e barata. Em 1854 foi criada a tcnica do Coldio mido36 

33 MENEZES, PauIo, op.cit.p. 17.
34  GOMBRICH, Ernest A histria da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999 e Arte e iluso. So Paulo: Martins Fontes,1995;GOLDMANN,Annie. Cine y sociedad moderna. Caracas: Editorial Fundamentos, 1972; BERGER, John. Modos de ver, So Paulo: 
Martins Fontes, 1980; READ, Herbert. Arte  e alienao. Rio de Janeiro: Zahnr, 1983, A arte de agora. So Paulo: Perspectiva, 1981 e Histria da pintura moderna,  So Paulo: Circulo do Livro, s/d.
35BENJAMIN, Walter. "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade tcnica", In: Obras Escolhidas: magia e tcnica, arte e poltica, So Paulo: Brasiliense, 1987.
36 O processo de coldio mido foi inventado pelo ingls Fredericli Scott Archer (1813-l 857) em 1848, mas difundido somemte  partir de 1851. Este processo tinha  esta denominao porque empregava o coldio (composto por partes iguais de ter e lcool numa soluo de nitrato de celulose) com substncia ligante para fazer arderir o nitrato de prata fatossensvel  a chapa de vidro que constitua a base do negativo. A exposio devia ser realizada com negativo ainda mido - donde a denominao coldio mido - e a revelao devia ser efetuada logo aps a tomada da fotografia- este foi O processo de confeco de negativos. Dominante durante a segunda metade do  sculo dezenove, porque, como usam chapas de vidro como base, produzia negativos bem  mais ntidos  e com maior gradao tonal do que os negativos de papel encerado empregados at ento. Seu apogeu durou ale o inicio da dcada de 1880, quando foram definitivamente  substituidas pelas chamadas placas secas, que  haviam sidas lanadas em 1871.

e em seqncia surgiu a "carte-de-visite",37 um grande sucesso de pblico e coqueluche do momento. Ambos os processos propiciaram a transformao da fotografia de um hobby de amadores enriquecidos em uma atividade de dimenso industrial. A fotografia, com o barateamento do produto, massificou-se e tomou-se um fenmeno comercial. Pg. 41
	A fotografia afetou profundamente as artes plsticas. Os novos questionamentos surgidos com o advento da fotografia nas concepes de imagem e de representao modificaram a percepo dos artistas. A fotografia ento altera a natureza da arte. Com o seu aparecimento e os aperfeioamentos pticos e qumicos permitiu um detalhamento da imagem fotogrfica fazendo com que a pintura de paisagem realista, segundo a viso de alguns artistas da poca, tornava-se "quase intil". Em outro sentido alguns pintores utilizam-se da fotografia como apoio a suas realizaes: Delacroix estuda fotos de corpos nus para realizar a suas telas, como na sua obra Odalisca de 1857; Manet executa uma gravura de Baudelaire baseado em uma foto de Nadar, alm de seu quadro "A Execuo do Imperador Maximiliano" realizado por volta de 1867 que foi composto por imagens de fotografias tiradas do fuzilamento de Maximiliano; Degas recebe influncias da imagem fotogrfica com seus cortes de cena e de instantneos de bailarinas e mulheres no banho.
	A ambiguidade da fotografia com relao  questo da representao  que cria o seu status de "veracidade". Como muito bem colocou Roland Barthes, na fotografia de pessoas "manifesta-se um pressuposto menos evidente que identifica a imagem com a suposta existncia daquela pessoa. Somos tentados a tomar como verdade fatos e pessoas que se apresentam fotografados. Supomos sua existncia anterior, pois o que no existe no pode ser fotografado. A foto assume aqui no seu lugar como representao, mas seu papel mgico como re-presentificao ao nos recolocar em presena de algo j distante, no tempo ou nu espao"38. Essa existncia, como duplo do real, tomou complexo o seu entendimento dentro do campo das artes plsticas. Embora este pretenso realismo ou naturalismo da  fotografia tivesse sido questionado desde a sua origem.
	Alguns pressupostos, contudo, sobre a fotografia precisam ser clarificados. A fotografia desde a sua origem foi aceita como um "testemunho da verdade dos fatos", graas a esse status de credibilidade, a fotografia desde o inicio foi utilizada de forma dirigida. Ela sempre foi um poderoso instrumento de veiculao de idias e representaes da realidade "a pg. 42 fotografia tem uma realidade prpria [...] a realidade do documento, da representao: uma segunda realidade, construda,

37O Carto de Visita era um formato de apresentao de fotografias inventado pelo francs Andr Adolphe-ugne Disdri (1819-1889) em 1854 e assim denominado em virtude de seu tamanho reduzido(apresentava uma fotografia de cerca de 9.5 x 6 cm  montada sobre um carto rg ido de cerca de 10 x 6.5 cm. A grande voga da carta-de-visite ocorreu na dcada de 186o, quando se tornou um modismo em escala mundial, sendo produzido aos milhes em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil. O carto de visita comeou a declinar a partir da dcada de 1870, quando comeou a ser suplantado pelo carto cabinet, mas este formato continuou a ser empregado por  alguns fotgrafos at o fim do sculo passado. O advento do carto de visita foi o elemento propiciador do surgimento de outro modismo oitocentista: o lbum de de fotografia. De acabamento esmerado, geralmente em couro com adornos de metal dourado ou prateado, os lbuns eram expostos em lugar de destaque nas salas de visita das famlias abastadas do perodo. Chegaram a existir inclusive modelos de lbuns contendo uma caixinha de msica embutida que era acionada quando se abria a capa do volume.
38 BARTHES, Roland. A cmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p.36.
 codificada, sedutora em sua montagem, em sua esttica, de forma alguma ingnua, inocente39.
	Como diz Peter Burke, a tentao de realismo mais exatamente de tomar uma imagem por uma realidade,  particularmente sedutora. Desde o seu inicio, a fotografia foi visla como um registro da histria ou como j falaram, como "olho da histria". Segundo Paul Valry, o nosso senso de conhecimento histrico foi transformado pela fotografia tal o seu status de veracidade histrica; caberia apenas a questo de delimitar o alcance desse estatuto. Para o senso comum, os governos, a polcia, os jornais e as revistas, a fotografia  sem dvida uma evidncia de autenticidade. Todos os Estados assumem tal perspectiva, pois em nossos documentos de identificao existe um retrato fotogrfico. A imagem fotogrfica carrega em si a conotao de ser produzida no pela mo humana, mas de forma objetiva por uma mquina.
	Com o advento da fotografia e do fotojornalismo, redefine-se a prpria idia de privacidade. No sculo XIX e inicio do XX, privilegiava-se a foto nica em que se valorizavam a nitidez e a reprodutibilidade mais do que o valor noticioso intrnseco da imagem. Hoje, valorizam-se o instantneo e o espontneo, a emoo sobre o intelecto, a subjetividade e a autoria.
	O sculo XIX, alm de presenciar o surgimento da fotografia, viu o nascimento do jornalismo ilustrado. Falemos um pouco dele ento. O fotojomalismo exige uma discusso  parte. A utiiizao de imagens na imprensa  antiga, a primeira revista ilustrada surgiu em 1842 com a The ilustrated London News. Ou seja,  somente trs anos aps a inveno da fotografia.
	Um de seus temas principais ser o registro dos conflitos militares e um dos primeiros a ser fotografados foi a guerra dos Estados Unidos com o Mxico (1846- 1848). Mas, em seguida, outros foram registrado como a Guerra de Secesso norte-americana (1861-1865) e a Guerra da Crimia. Ser, entretanto, durante a Guerra de Secesso norte-americana que Mathew Brady e sua equipede fotgrafos, formada por Alexander Gardner, Timothy O'Sullivan e Georg Barnard montavam  a primeira agncia diostribuidora de fotografias, embora tenham se arruinado com tal empreendimento. Montaram tambm uma exposio permanente e posteriormente lanaram um lbum fotogrfico.
	A Guerra de Secesso foi o primeiro evento maciante fotografado e originou os primrdios do fotojornalismo com o surgimento  de alguns princpios bsicos: a) a descoberta de que os leitores tambm queriam pg.43 ser observadores (espectadores) visuais, b) a necessidade de uma retrica da velocidade, ou da cronomentalidade, ou seja, da percepo da importncia de velocidade entre o momento da fotografia e da sua reproduo na mdia; c) o surgimento de uma esttica da proximidade, a idia de que  preciso estar perto do acontecimento; d) a emergncia da noo da carga dramtica da fotografia que era superior  da pintura devido principalmente ao status de "registro" do fato; e) a guerra foi despida de seu manto pico, foi o fim da viso herica; f) e a noo de que a imagem da guerra  a imagem dos vencedores40.
	A virada do sculo XIX para o XX foi um momento de transio entre a fotografia documental ou o reprter fotogrfico para o fotojornalismo moderno. Foi um perodo de avanos tecnolgicos que vai afetar a estrutura dessa atividade. Em 1880 surgiu a tcnica do ''halftone'' (meio tom) que vai permitir a impresso de fotografias em jornais numa velocidade maior e mais barata. Em 1884 surgiu a 

39 KOSSOY. Boris. Realidades e fices na trama fotogrfica. So Paulo: Ateli Editorial, 1999, p. 22.
40 SOUSA. Jorge Pedro. Uma histria crtica da fotojornalismo ocidental. Chapeco/Florianpolis: Grifos/Letras Comtemporneas, 2000 
pelcula fotogrfica em forma de tira o que permitiu aos fotgrafos vrias tomadas, posteriormente teremos o surgimento da primeira cmera fotogrfica Kodak, criada por George Eastman, que vai revolucionar o meio fotografico, porque deixou de exigir que os candidatos a fotgrafos tivessem grandes conhecimentos tcnicos. Assim, no limiar do sculo XX, a fotografia impe-se na imprensa com uma difuso crescente da informao impressa, com a adaptao dos processos de impresso fotomecnicos e com o aparecimento do instantneo.
	Em 1904, OJornal Daily Mirror revoluciona o meio jornalstico com a utilizao de grande quantidade de fotografias em suas pginas, ou seja, com a utilizao de uma massa de informao folovisual sem igual at aquele momento. Embora at a primeira Guerra Mundial os jornais mantivessem um mesmo padro, suas fotos possuam um mesmo tamanho, resultando numa ausncia de ritmo de leitura, ao mesmo tempo, no dava pistas para uma leitura mais hierarquizada da informao visual. Utilizavam sempre planos gerais e no tinham uma preocupao com o todo. Esse quadro muda entre os anos 1920 e 1930 com o surgimento do fotojomalismo ou fotojornalismo moderno. Esse acontecimento ocorreu quase simultaneamente na Frana, Inglaterra, estados Unidos e na Alemanha. Na Frana surgiram as  pg. 44 revistas Vu (1928) e Regards (1931), nos Estados Unidos e Inglaterra temos aLife e a Picture Post. Entretanto, tradicionalmente se atribui a um fotgrafo alemo Erich Salomon a primazia de ser o primeiro fotojornalista moderno. O fotojornalismo moderno surgiu quando ocorreu definitivamente a articulao entre texto e imagem (esta no era mais uma imagem isolada). Ser com ele que surgir uma escola nova de fotojornalista. Ele e os novos fotojornalistas vo se destacar por possurem uma boa formao cultural. Antes os fotojomalistas eram mal vistos, pois, em geral, eram elementos que primavam mais pela fora fsica do que pela educao, afinal eles deveriam ter atributos fsicos para transportar as pesadas mquinas fotogrficas. Com Salomon, surgiu uma atitude experimental, um maior interesse pelo humano e pelo ambiente cultural. O fotojornalista tambm passa a ter um maior suporte econmico.
	Do ponto de vista tecnolgico, alguns avanos tambm foram fundamentais: o surgimento das cmeras de pequeno formato,41 como a Leica produzida por uma empresa alem, alm do recurso das objetivas permutveis e filme de 36 poses que permitiam fotografias sequenciais. Essas mquinas ficaram conhecidas como "spy cameras" (cmeras espis) devido a sua discrio. Outro avano importante foi o advento dos flashs de lmpadas que aboliu os to desagradveis de magnsio que exalavam um odor horrvel, nauseante e que irritavam os fotografados, permitindo um trabalho mais discreto do fotgrafo. A partir desse momento, privilegia-se a imagem em detrimento do texto. As reportagens traziiam fotografias com pequenas legendas e muitas vezes ,sem contexto. Outro dado fundamental, foi o surgimento dos laboratrios fotogrficos dentro das dependncias das empresas jornalsticas, o que permitiu uma maior rapidez entre a realizao da foto e a sua impresso nos peridicos.
	O fotojomalismo antigo com as placas de vidro, a necessidade de banhas especiais, todo o cuidado com o clculo de distncia, alm das cmeras de grande formato que exigiam o uso do trip, tornavam o ato de folografar difcil e limitavam a ao dos fotgrafos. Foi tambm com Erich Salomom que temos o incio da fotografia autoral. Esse processo vai se consolidar definitivamente com Robert Capa e Henri Cartier-Bresson com a criao da Agncia de Fotografias Magnum em 1947. 
41Quando falamos de cmeras de pequeno formato  inicialmente denominadas de cmera miniatura- estamos nos referindo s cmeras que empregam filmes de 35 mm, como as reflex surgidas a partir da dcada de 1930, do tipo "Nikwi, Canon, Pentax ou Olympus, ou s cmeras de telmetro, surgidas na dcada de 1920, do tipo Leica ou Contax. pg.45
At esse momento, principalmente no fotojomalismo, o direito autoral no existia. Ser a partir deste momento que as reportagens fotogrficas se preocupam com uma paginao combinando dinamicamente texto e imagem, o surgimento de inovaes grficas, uma tendncia analtico explicativo em detrimento de uma descritiva ou no mximo opinativa que prevalecia anteriormente. Alm do que, encontraremos reportagens com narratividade. Agora fotgrafas, editores e redatores apresentam projetos e pautas e numa relao amigvel com debates de idias e liberdade do fotgrafo na ao.
	Cabia no editor selecionar as fotos, estruturar o layout, rever e refazer o componente textual. O texto no era mais redundante, mas buscava completar, explicar e contextualizar as imagens. Contudo, esse novo folojornalisimo no incio serviu muito mais aos interesses das classes dominantes em ascenso,  burguesia, pois estas no eram questionadas e as imagens produziam uma interpretao prpria da realidade. Muitos autores interpretam esse perodo como o auge da comercializao da vida (alienao) e da valorizao do conhecimento tcnico como smbolo de progresso. As fotografias produzidas nesse perodo encerram noes tradicionais de histria e cultura; desenvolveram urna visualidade excitante do mundo, apoltica e incontroversa. Devemos, igualmente, ressaltar que existiram projetos alternativos como o surgimento dos jornais e revistas vinculados a partidos de esquerda.
	O conceito de fotografia documental surgiu no incio do sculo XX, nos Estados Unidos. Este conceito desenvolveu-se para caracterizar as fotografias de Jacob Riis (1849-1914) que chegou a trabalhar como jornalista no New York Tribune e foi o primeiro a utilizara fotografia como um instrumento de crtica social para ilustrar seus artigos sobre as condies miserveis de vida dos imigrantes nos bairros de Nova York. Seu primeiro livro Como vive a outra metade foi publicado ainda em 1890 e comoveu a opinio pblica. Foi neste perodo que surgiram fotgrafos como Dorothea Lange (1895-1965) e Lewis Hine (1874-1940). Este estudou sociologia na Universidade de Columbia e chamou seu trabalho de "fotografia social". Outros fotgrafos se destacaram num projeto de campanha publicitria de reformas sociais a servio de um ainstituio, a Farm Security Administration pg. 46
(1935-1942)42. As poses utilizadas por eles seguiam padres e convenes da pintura; procuravam realar a carga dramtica com a fotografia em preto e branco transmitindo uma mensagem de crua realidade.
	Algumas questes e perigos na anlise da linguagem fotogrfica podem ser levantados a partir deste momento.  necessrio conhecer as convenes e caractersticas tecnolgicas de cada poca pesquisada. No sculo XIX, os fotgrafos, devido aos longos tempos de exposio, do trip e de estdios, construram suas imagens de acordo com as convenes dos gneros da pintura, especialmente a holandesa das tavernas com seu ambiente de penumbra, com camponeses, mercadores e demais personagens. No inicio do sculo XX, encontramos essas mesmas convenes principalmente daqueles que procuravam fazer um trabalho mais "autoral" ou do movimento pictorialista que congregava fotgrafos que ambicionavam produzir imagens artsticas e capazes de conferir a seus. praticantes o mesmo prestgio e respeito que os grandes artistas da pintura. O problema  que essa nsia de reconhecimento levou muitos dpitos do pictorialismo a simplesmente tentar imitar a aparncia e o acabamento de pinturas, gravuras e 

42 FREUND, Gisle  A Fotografia como documento social. Barcelona: Gustavo Gili, 2001. PHOTO POCHE. Amrique. Les annes: Farm secutury administration (1935-1942). Paris: Centre National de la Photographie, 1985.
desenhos ao invs de procurarem desenvolver uma esttica prpria da fotografia.  Eles foram estigmatizados por muito tempo, mas, hoje, uma reviso de seus trabalhos reavaliou de forma positiva suas contribuies.
	Muitos pesquisadores que trabalham com fotografia tm que se preocupar com o fato de que, em muitas ocasies, essas imagens faziam parte de sries e posteriormente foram separadas em fragmentos, ou seja, as fotografias que eram parte de um projeto maior, por exemplo, de um lbum em que estavam inseridas originalmente, passaram, enfim, para um arquivo ou museu de forma individualizada.
	Outra dificuldade  a idia de encenao que j no era novidade e sempre foi discutida. Lembremos que existem relatos de que, j na Guerra de Secesso, Mathew Brady mexia nos corpos de alguns soldados mortos para melhorar a cena; o mesmo ter sido feito com soldados vivos. A polmica em torno da famosa foto do miliciano espanhol de RoherI Capa  emblemtica. Ns, historiadores, devemos nos preocupar no tanto em torno pg. 47 da autenticidade ou no da imagem, mas de suas apropriaes, devemos pensar nas fotos nunca como evidncias da histria; elas so evidncias histricas. Ademais, uma crtica das fontes vale tanto para a fotografia como para qualquer outra fonte43.
	Veja o caso do retrato. Ele  visto como uma representao espelho do,  retratado, ou seja, uma representao acurada, um instantneo de uma pessoa em particular. Mas podemos colocar uma srie s ressalvas tanto para o retrato pictrico como para o retrato fotogrfico. Ele  um gnero como outro qualquer, com seus sistemas de convenes que mudam com o tempo; as posturas e gestos dos retratos esto carregados de significados simblicos e, nesse sentido, ele  uma forma simblica como outra imagem qualquer. As convenes do gnero tm um propsito, apresentar o retratado de um modo particular, usualmente favorvel. Assim, os retratados pem suas melhores roupas e certos defeitos so retocados: eram apresentados em seus melhores comportamentos procurando criar uma auto-representao. Os acessrios representam um reforo na sua auto-representao, por exemplo, as colunas clssicas significam a glria da Antiguidade, as cadeiras simbolizam tronos e do um ar de realeza. Alguns objetos referem-se a papis sociais, como a chave que representa governar, e os animais, como um grande cachorro num retrato masculino, est associado  caa e, portanto,  aristocracia. J um pequeno co num retrato feminino ou num casal simboliza fidelidade, ou seja, implica que a esposa  para o marido o que o co  para o homem. Algumas dessas convenes sobreviveram, outras perderam espao. Principalmente com o surgimento do retrato fotogrfico. Com o advento da fotografia, as diferenas de classes foram camufladas, criando uma iluso social. Mas so reveladoras das mudanas de valores e mental idades principalmente quando temos uma srie de retratos durante um perodo. Como bem definiu Roland Barthes, o retrato fotogrfico possui trs camadas de significao: aquela que o retratado pg. 48 procurou apresentar, aquela que o fotgrafo criou e aquela construda pelo observador44 .
	O debate terico entre a relao memria, histria e fotografia tambm tem sido acirrado nos ltimos anos. Na historiografia moderna vrios autores debruaram-se sobre essa questo - a relao histria e memria - a partir da problemtica da formao de identidades nacionais, como, por exemplo, os casos de Eric Hobsbawn e T. Ranger pelo vis da inveno das 

43 Para uma tima discusso do papel da fotografia como documento e do debate a respeito da iimportncia da autenticidade ou inautenticidade da image, ver o artigo de Ulpiano T. Bezerra de Meneses: A fotografia como documento - Robert Capa e  o miliciano abatido na Espanha; sugestes para um estudo histrico, Revista Tempo,  Rio de Janeiro: UFF, 2002.
44 Veja BARTHES,Roland. A cmera clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984 e BURKE, Peter, op.cit.
das tradies45 ou de Benedict Anderson, com a idia de comunidades imaginrias46. Por seu turno, tanto Maurice Halbwachs47 como Jacques Le Goff48, embora em momentos diferentes e sobre bases diversas, apresentaram as distncias entre memria e histria, enquanto que Pierre Nora49 procurou estabelecer uma proposa de reconstituio cuidadosa de como foram elaborados os referenciais do passado justificados pelo momento em que foram produzidos, nos "lugares da memria". Se para este autor a histria  o espao do distanciamento, da crtica e da reflexo, a memria recorre  herana da tradio, sempre se atualizando como uma representao do passado.
	A fotografia pode ser um excelente meio para discutir esta prbtemtica. O registro visual das comemoraes ligadas a eventos da histria nacional, por exemplo, revela os rumos que, atravs da elaborao de uma narrativa fotogrfica do passado coletivo, determinados grupos polticos tinham como projetos para o presente e o futuro. As imagens fotogrficas, muitas vezes publicadas sob a forma de lbuns, tambm podem auxiliar nesta interpretao, afinal, podemos identificar as elites poltico-culturais das sociedades em que o fotgrafo est inserido. Assim, a pesquisa e interpretao da produo, circulao e apropriaes de registros visuais, pg. 49 como os lbuns fotogrficos, so instrumentos importantes para o historiador. Sua anlise permite revelar o lugar social dos autores (editores ou fotgrafos) desse lbum. Alm de que, decifrando a enunciao destes lbuns, compreendemos qual a vocao pedaggica de ensinar  populao em geral o "sentido" da histria que deveriam compartir para formar uma nao moderna.
	Como argumentou Koselleck,50 cada sociedade ou cada poca estabelece com o tempo uma relao especifica e produz um sentido particular de conceber o passado, o presente e o futuro, A partir desses pressupostos, os fotgrafos e produtores dos lbuns ilustrados reelaboram uma memria, escolhendo comemoraes, acontecimentos, personagens, heris aptos a construir uma narrativa com relao ao seu tempo. Uma  parte importante da memria do mundo moderno foi construda atravs de uma narrao visual, realizada por pintores, gravuristas, cinegrafistas e fotgrafos. Estes ltimos participaram fundamentalmente numa determinada elaborao do passado com as edies de seus lbuns, as publicaes de imagens em jornais e a divulgao em exposies.
	Os lbuns fotogrficos, em geral, e os histricos, em particular, permitem uma historizao da reconstituio da elaborao de um passado, na medida em que estabelecem uma relao profunda e intrnseca entre histria e memria. Os lbuns so espcie de "espelhos duplicados" que ao mesmo tempo refletem, deformam e participam na criao de uma determinada histria a partir dos pressupostos de seus autores.  Os lbuns se inserem dentro de um vis de construo da memria, apesar de seus autores acreditarem estar trabalhando no campo da histria. Contudo, quando utilizamos a fotografia de comemoraes histricas, temos de perceber as  diferenas de temporalidades existentes nessas produes: o tempo de um passado anterior encenado  prpria realizao das fotografias, quando se trata de imagens de eventos histricos, o tempo do momento da realizao da fotografia e 

45 SHOBSBAWN, Eric & RANGER, T. (orgs) A inveno das tradies. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
46 ANDERSON, Benedict. Nao e conscincia nacional.So  Paulo: tica, 1982. 
47HALBWACHS, Maurice. A memria coletiva. So Paulo; Edies Vrtice, 1990.
48 LE GOFF, Jacques. Histria e memria. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1994.                                     
49 NORA, Pierre. Entre mmoire et histoire. La problmatique des lieux. In: NORA, Pierre (dir.) Les lieux de mmoire. T. I. La Rpublique. Paris: Gallimard, 1991. 
50 KOSELLECK. R. Le futur pass. Contribution  Ia smantique des temps historiques. Paris, 1990.
o tempo histrico da poca da edio dos lbuns. Alm do mais, a fotografia participa desse jogo da histria-memria, na medida em que foram produzidas voluntariamente como objetivo de serem testemunhos de uma poca. Pg. 50
	A noo de sua atividade (do fotgrafo) ser uma espcie de "olho da histria", de testemunha ocular" dos acontecimentos, esteve presente na concepo de trabalho de toda uma gama de fotgrafos e editores ao longo dos tempos. Encontramos aqui uma confuso entre a noo de memria e histria, algo que pode ser explicado devido  trajetria desse ofcio e do prprio estatuto de veracidade da fotografia. Muitos fotgrafos se consideram como personagens que vivenciaram acontecimentos histricos de uma maneira to prxima e que julgava produzir um relato histrico objetivo. Principalmente quando falamos da fotografia jornalstica, pois esta  aquela que se empenha em oferecer uma viso objetiva, arguta e abrangente de um acontecimento de interesse jornalstico. Assim, a principal medida para aferio da qualidade de um fotografia jornalstica  seu valor informativo, sendo tudo mais, como valores meramente tcnicos ou estticos, secundrios se comparado ao contedo informativo.
	Essa noo, de uma similitude entre a histria e a fotografia, j havia sido enfatizada por alguns escritores e historiadores. Segundo Paul Valry51 o surgimento das cmeras fotogrficas alterou o nosso sentido de passado e do que era "suficiente" para a elaborao de um relato histrico. Coma imagem fotogrfica, incorporou-se definitivamente em ns a impresso de sermos levados para o passado, ou ao momento original. Roland Barthes diz que com a fotografia, pela primeira vez, a resistncia ao passado cessa, pois ele tornou-se to seguro quanto aquilo que podemos tocar. A fotografia adquire um poder de autenticao e, na fotografia histrica, h um esmagamento do tempo"52.
	Sigfried Kracauer,53 estudioso da histria do cinema, chegou a comparar Leopold von Ranke, smbolo da histria objetiva, com Louis Daguerre, um dos inventores da fotografia. O autor enfatiza o papel da fotografia na interpretao dos acontecimentos e aproxima os historiadores dos fotgrafos, pois ambos deveriam selecionar e ordenar os acontecimentos, diante da "opaca massa de fatos", aprofundando a tenso entre fatos e a pg. 51 elaborao de seus significados. Para servir a histria, os fatos devem ser tornados inteligveis, ordenados, dando sentido ao aleatrio e ao fragmentrio. Enquanto os historiadores empregam palavras, o fotgrafo utiliza seu visor, ambos procurando um equilbrio entre reproduo e construo. Os fotgrafos ainda podem utilizar, alem do visor, outros recursos para dar sentido a sua narrativa: organizar as suaa, fotografias, arranjando-as em seqncias, compondo-as em certos sentidos, acompanhando-as com tilulos, textos e legendas para expressar um sentido particular.
	Existe tambm uma relao ambgua entre fotografia e memria, como muito bem argumentou Boris Kossoy54; a fotografia pode ser uma perpetuao da memria coletiva ou individual, mas sempre  construda com base na ideologia do autor e s pode ser revelada pela interpretao do processo da mao dessa segunda realidade.
	Deslocando o foco de ateno da produo da imagem para o da recepo, o 

51 Apud TRACHTENBERG, Alan. Reading american phofographs: images as historiy Mathew Brady to Walker Evans. New York: Hill and Wang, 1990, p. xiii e xiv.
52 BARTHES, Roland. A cmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Veja especialmente as pginas 130,132 e 142.
53 KRACAUER, Sigfried. History: the last things before the last. New York: 1969.
54 KOSSOY, Boris. Histria &. fotografia. So Paulo: Ateli Editorial, 2001; e Realidade e fices na trama fotogrfica. So Paulo: Ateli Editorial, 2000.
historiador ingls Raphael Samuel55 revelou a existncia de uma espcie de  escopofilia, termo retirado de Freud, que significaria o desejo de ver. Esse prazer de olhar se aproximaria do voyeurismo e estaria ligado a desejos de um narcisismo primrio e de identificao. Ainda segundo esse autor, essa  linha de indagao nos levaria a entender a relao que estabelecemos com um passado que nunca existiu, mas que gostariamos de que tivesse existido, criando esse pathos, que as fotos antigas tm o poder de causar no observador. Philippe Dubois56, por sua vez, comparou a fotografia e a cmara fotogrfica como uma mquina de memria, assim
como Walter Benjamin57 afirmou que a fotografia permitia atingir um "inconsciente tico".
	Vejamos algumas questes tericp-metodolgicas do uso da fotografia, aqui podemos usar a diviso que Philippes Dubois utiliza em pg. 52 seu livro O Ato Fofogrfico58, embora no compartilhemos com todas as suas concluses. Parafrasendo Dubois, existem trs abordagens sobre a questo do realismo na fotografia, A primeira que acredita que a imagem fotogrfica  um espelho do real, ou seja, estabelece uma relao de reproduo mimtica e de Verossimilhana com o real.  Nessa categoria poderamos citar autores como Charles Baudelaire, Hippolyte Taine e Andr Bazin59.
	Uma segunda abordagem vinculada  semitica que define a fotografia como trao do real. Aqui podemos destacar Charles Peirce60. Este trabalha com trs conceitos: cone, definido como representao por semelhana; smbolo, como representao por conveno; e ndice como representao por ordem de contigidade fsica. Neste ltimo, todo seu valor  determinado unicamente pelo seu referente. Segundo Dubois, Peirce considera que a fotografia  indicial, portanto mantem um princpio qudruplo: conexo fsica, ou seja, uma relao de impresso; de singularidade, que se remete sempre a um nico referente; de designao, que a partir do anterior decorre a designao; e, por fim, atestao, aquilo que atesta a existncia, mas no o sentido61. Ainda na linha semitica, mas com outras caractersticas, podemos citar os trabalhos de Roland Barthes62. Em seu livro A cmara pg. 53 clara63 distingue trs prticas na anlise fotogrfica: primeiro, o 

55 SAMUEL. Raphael. Theatres of memory- vol.1: past and pre&ent in contemporary
culture. London: Verso, 1994.
56 Palimpsestos: a fotogratta como aparelho psquico (principio de distncia e arte da memria). In: DUBOIS, Phillippe. O ato fotogrfico. Campinas, SP: Papirus, 1994.
57 A obra de arte na era de sua reprodutibilidade tcnica, In: BENJAMIN, Walter, Obras escolhidas: magia e tcnica, arte e poltica. So Paulo: Brasiliense, 1987.
58 Veja DUBOIS.Philippe, "Da verossimilhana ao ndice; pequena retrospectiva histrica sobre a questo do realismo na fotografia  in: O ato fotogrfico. Campinas:
Papirus, 1994, pp. 23-56.
59 Idem, ibidem, pp. 34-36,
60 Para um excelente debate em torno da relao Imagem, Histria e Semitica, vejam a revista Anais do Museu paulista -histria e cultura material, Nova Srie, n1, 1993, USP. Nela consta um artigo com este ttulo e comentrios de EliasThom Saliba, Ciro Flamarion Santana Cardoso, UlpianoT. Bezerra de Menesses, Eduardo Penuela Canizal e  Lucrcia D' Alessio Ferrara.
61 Idem, ibidem, pp. 45-52.
62 BARTHES. Roland. A Cmara Clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984;  se bem que os tabalhos em que Barthes explicita melhor seu mtodo encontra-se nos capitulos A mensagem fotogrfica e "A retrica da imagem In:  o bvio e o obtuso.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
63 A explicao sobre o ttulo cmara clara ou lcida remete ao jogo presente no nome do livro vinculado com um antigo aparata. Camera obscura, expresso latina que designa um princpio que j fora descrito por Aristteles na antiguidade grega, e pelo cientista rabe  Alhazen no sculo X, mas que s teve utilizao prtica a partir de 1558, quando Giovanni Battista Della Porta aconselhou seu uso aos artistas, conselho seguido por, entre outros, Leonardo da Vinci. As primeiras cameras obscuras eram constitudas por meras caixas dotadas de um pequeno orificio para deixar entrar a luz num dos lados, de modo a produzir uma imagem na superficie oposta; posteriormente, surgiram modelos mais complexos, dotados de objetivas e vidro polido para facilitar o controle e  a visualizao da imagem. O grande aperfeioador deste aparato foi o matemtico Johann Strumm, que criou, em 1976, o modelo porttil que iria inspirar mais tarde tanto Nipce quanto Fox Talbot (inventores quase que simultneos da fotografia) para a confeco das primeiras cmeras fotogrficas, nas quais, o material fotossensvel passou a captar a imagem anteriormente decalcada pelo desenhista. J a  camera Lcida   uma espcie de variante da cmera obscura,  destinada a facilitar   a realizao de esboos pelos artistas, inventada pelo ingls William Hyde Wollaston (1766-1828) em 1806. Sua diferena bsica com  a camera obscura era o fato de a  imagem no ser captada por uma caixa fechada e, sim, por um prisma de trs ou quatro faces, que concentrava a imagem a ser decalcada diretamente sobre uma folha de papel. Apesar de menos pratico do que seu predecessor, este aparato teve entre seus usurios Fox Talbot. Barthes assim faz uma brincadeira mostrando a relao ambgua de presena ausncia que cria o fascnio nas imagens.

Operator que  o fotgrafo, aquele que faz, produz a imagem; em segundo, o Spectator, referente ao olhar, so os receptores das imagens; e em terceiro, Spectrum,que  o alvo da objetiva, aquele que  fotografado, o referente, pequeno simulacro, esta sua definio estaria ligada a palavra espetculo. Nas fotografias, ele detecta dois elementos de interpretao; o Studium e o Punctum. Studium, para Barthes,  mais do que estudo, se traduzisse do latim.  localizar as intenes do fotgrafo, aprov-las ou desaprov-las, compreende-Ias e discuti-las,  uma ligao cultural existente entre o Operator e o Spectator.  a capacidade de determina das fotografias estar dentro de um universo cultural que atinge o olhar do Spectator, pois as informaes na imagem fazem parte de uma aproximao com o fotografo. As fotografias teriam varias funes que seriam: "informar, representar, surpreender, fazer significar, dar vontade. E eu, Spectator, eu as reconheo com mais  ou menos prazer: nelas  invisto meu Studium "(que jamais  meu gozo ou minha dor)64. Pg. 54 O segundo elemento na fotografia seria o Punctum.O Punctum  uma marca, uma pontuao, este  um dado do acaso. Este  um pequeno detalhe que chama a ateno do Spectator.
	Todo studium est codificado um punctum, e este  um extracampo sutil como que lanasse a percepo para alm da imagem. Outro punctum para Barthes  o esmagamento do tempo que acontece com as fotografias denominadas por ele como histrica. Barthes, falando de uma fotografia realizada  por Aiexandre  Gardner de um condenado  morte - Lewis Payne - diz "isso est morto e isso vai morrer"65 . Para ele o esmagamento do tempo causa uma vertigem, pois existem trs tempos numa fotografia histrica: o tempo da pessoa fotografada, o tempo do fotgrafo, e o meu tempo, tempo presente. Mas Barthes no considere a fotografia uma cpia do real, mas mais como uma emanao do real, assim o poder de autentificao sobrepe-se ao poder de representao da  imagem66 .
	Por fim, existem aqueles que consideram  a fotografia como transformao do real dentre os quais eu me incluo. Ela estabelece uma formao arbitrria, cultural e ideolgica do real. Entre os autores que se enquadram dentro desta perspectiva, poderamos citar Rudolf Arnhem com seu livro sobre as teorias da percepo visual67. Nele o autor afirma que a imagem fotogrfica ser determinada pelo ngulo, distncia, enquadramento, reduo da tridimensionalidade caracterstica do mundo 

64 BARTHES, Roland.  A cmara clara:  nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1894, p. 48/49.
65 Idem, p.142.
66 Idem, p. 121 e 132.
67 ARNHEIM, Rudolf. Arte e oercepo visual. So Paulo: Pioneira 1991.	
real para uma bidimensionalidade, pelas variaes cromticas e pelo processo de isolamento de um ponto preciso do espao tempo.
	Outro autor, que trabalha com a fotografia nesta linha,  Pierre Bourdieu. Para ele a fotografia  um sistema convencional e retem apenas algumas caractersticas do objeto que fotografa; apenas as qualidades visuais. A fotografia enfim, reduz os tamanhos, transfere os objetivos tridimensionais para o plano bidimencional segundo as leis da perspectiva, ou melhor dizendo, de uma perspectiva. Segundo Bourdieu  se a fotografia  considerada um registro perfeitamente realista e objetivo do mundo visvel  porque lhe foram designados (desde a origem) usos sociais considerados pg. 55 realistas e objetivos68. Numa perspectiva antropolgica, Melville Herskvits enfatiza que s significao da mensagem fotogrfica  determinada culturalmente e portanto diferente de uma sociedade para outra69.
	Um dos primeiros pesquisadores brasileiros sobre a interpretao histrica das fotografias  Boris Kossoy. Segundo ele, para realizar uma pesquisa histrica partindo das fotografias  necessrio a realizao de duas etapas de pesquisa: anlise iconogrfica e a interpretao iconolgica.
	Na anlise iconogrfica o investigador busca realizar a reconstruo do trabalho que produziu a fotografia dentro de coordenadas de espao e tempo. O trabalho de produo remete ao processo de criao do fotgrafo que cosiste em uma srie de selees pessoais: seleo do assunto a ser fotografado; seleo de equipamentos ou da tecnologia a ser utilizada (cmeras, filtros, tipos de filmes); composio ou enquadramento; seleo do momento; seleo do material de processamento do filme (revelao, ampliaes, cpias); e seleo de determinadas interferncias. Posteriormente, dentro da anlise iconogrfica, necessita-se de um levantamento do inventrio de informaes codificadas na imagem, ou seja, os detalhes icnicos que fazem parte de seu universo.
	Na interpretao iconolgica - lembrando que a fotografia  um fragmento selecionado do real, elaborado, criado ou construdo pelo fotgrafo - o pesquisador busca recompor a histria do assunto e procura fazer  a desmontagem das condies de produo do processo de criao do fotgrafo que resultou na construo da representao: "Busca-se [...] decifrar a realidade inferior da representao fotogrfica, sua face oculta, seu significado, sua primeira realidade, alm da verdade iconogrfica"70. A fotografia, assim, contm um recorde do real congelado e uma interrupo temporal que so os alicerces do sistema de representao fotogrfica. A imagem fotogrfica, portanto  uma representao resultante do processo pg. 56 de criao/construo do fotgrafo, o que Boris Kossoy considera como segunda realidade.
	J Hubert Damisch71  destaca o carcter ideolgico da imagem fotogrfica que 
no faz parte do mundo natural, ela  um produto da indstria humana, um artefato feito pelo ser humano e no pode ser dissociado de sua significao histrica e de seu projeto necessariamente datado.O autor, para os que destacam a caracterstica indicial ou referencial da fotografia, responde que  indice referente no seria possvel sem a intervenodireta do homem. Ainda segundo o mesmo autor, a presuno de
 
68 BOURDIEU, Pierre. La definition sociale de Ia photographie. In; BOURDIEU, Pierre et. Al. Un art moyen: essai sur le usages sociaux de la photographie. Paris: Les ditions de Minuit, 1965, p. 108/109.
69 HERSKOVITS, Melville J. et all. The influence of culture on visual perception. Indianapolis: Bobbs-Merrill Co, [1996].
70 KOSSOY, Boris. Realidades e fices na trama fotogrfica. So Paulo: Ateli Editorial, 199, p.60. 
71 Para essa  discuso  veja o ensaio de Hubert. Damisch, cinq notes por une phnomnologie de I'imagine photographique in: La Dnivell:  a I' epreuve la photographie. Paris: Seuil, 2001. 
realidade da fotografia, segundo a qual a  fotografia retm algo da realidade revelada  uma impostura ontolgica e histrica.
	A convico de que a mquina fotogrfica registra a realidade de uma forma mecnica, automtica, surgiu desde seu nascimento. Isto se tornou explicito, pois se convencionou falar em inveno do cinematgrafo e, no caso da fotografia, diz-se a descoberta. Entretanto, os princpios que deram origem a esse aparelho esto ligados a uma noo convencional de espao e de objetividade elaborada previamente a inveno da fotografia. A "arte" da fotografia  nos fazer crer que a cmara escura  neutra. Mas ela no  inocente, foi guiada por princpios renascentistas.

Consideraes finais
	Enfim, procuro trabalhar seguindo as proposta  que o professor Ulpiano Meneses prope de uma Histria Visual72. Nessa concepo, falamos de uma dimenso visual da sociedade, assim como existe uma pg. 57 dimenso social, poltica e todas elas so solidrias entre si. Existe um imbricamento dessas diversas dimenses sem hierarquias ou dimenses predeterminadas, tambm sem tendncias, pois no h compartimentao. A Histria Visual trata de um campo operacional, em que se elege um ngulo estratgico de observao da sociedade. Assim, a Histria Cultural vai estudar a cultura visual, ou melhor, o regime visual. Tomando cuidado para no cair na fragmentao das fontes e temas. Devemos procurar manter a unidade como plataforma de articulao da pesquisa e tendo por eixo de desenvolvimento da investigao a problemlica histrica. As imagens servem como vetores para a investigao de aspectos da organizao, funcionamento e transformao da sociedade. Por fim, no so os documentos nossos objetivos de pesquisa, mas a sociedade atravs de problemas histricos resolvidos por intermdio de fontes visuais. Pg. 58

72 MENESES, Ulpiano T. Bezerra de, Fontes visuais, cultura visual.  Balano provisrio, propostas cautelares, in: Revistas Brasileira de Histria, So Paulo: Anpuh/Humanistas Publicaes, vol. 23, n 45, 2003, pp. 11-36, veja especialmente as pginas 25-32. Veja tambm MIOZOEFF, Nicholas, What is visual culture? In: Na introduction to visual culture London: Routlege, 1999: 1-33 e Rogoff, Irit, Studying visual culture, in MIRZOEFF, Nicholas (ed.) The visual culture reader. London: Routlege, 1998: 14-26. Por ltimo uma relao dessa perpectiva com a Amrica Latina veja Andrea Noble,  Notes on the 'New' Visual Culture from the Perspective of the 'New Latin Americanism in: The New Centennial.

















BIOGRAFIAS HISTRICAS: O QUE H DE NOVO?*
Benito Bisso Schmidt, UFRGS
	
	J no  mais novidade dizer que a biografia recuperou, nas ultimas dcadas, e gnero historiogrfico. Em 1988, Jaques Le Goff (1990, p.7-8), no prefcio da nova edio da obra coletiva La Nouvelle historie (originalmente publicada em 1978), proclamava - juntamente com as "voltas" do acontecimento. da histria-narrativa e da histria poltica - a "volta da biografia". Mas o eminente historiador francs fazia questo de esclarecer: Essas voltas, so equvocos. Se cada uma delas pode ser aceita pela nova histria e se os partidrios da nova histria no raro delas deram o exemplo,  porque cada um desses gneros hisrricos (ou quase) volta com uma problemtica profundamente renovada". Porm, ele tambm advertia: "Mas tambm  a volta, quase a desforra de historiadores tradicionais ou neotradicionais que parecem aqueles emigrados de aps a Revoluo Francesa, que no haviam 'nada aprendido e nada esquecido'. Temeroso desta desforra, Le Goff conclamava os historiadores a serem vigilantes e a rechaarem "[...] o ataque de historiadores, velhos ou jovens, simplesmente reacionrios".
	Essas advertncias remeteram-me a uma outra leitura: o artigo de Slvia Petersen (1992) sobre a fora e os perigos da idia de "novo" no conhecimento histrico. Nele, a autora trata do tema a partir de um ngulo bem especfico: "[...] por um lado, saber que tanto de novo estamos criando, que tanto estamos avanando (ou velhas idias esto aparecendo como novas) e, por outro, que tanto velhas concepes tm escapado  crtica e conseguiram infiltrar-se, cantrabandeando o velho para novas formas de pensar" (p.111).
	A reflexo que agora apresento , em grande parte, tributria dessas consideraes. A biografia tem aparecido como uma grande novidade para os historiadores, freqentemente includa, em seminrios e publicaes, como uma das "novas tendncias da historiografia". Os trabalhos individuais e as colees que apresentam trajetrias individuais proliferam-se nas prateleiras dedicadas  Histria das livrarias. Contudo, retomando as ponderaes expostas no incio, cabe perguntar: o que h de realmente novo nestes trabalhos? O que h de velho contrabandeado como novo?
	No pretendo responder a essas questes com uma anlise detalhada da produo recente mas simplesmente indicar alguns pontos que, no meu entender, indicam uma efetiva renovao do gnero, tanto temtica quanto terica e metodolgica. Estou ciente do esquematismo da contraposio antigo/novo, e tambm no acredito na equivaLencia novo=bom, prpria de uma concepo progressista e evolucionista do conhecimento, mas, mesmo assim, parece-me que a indagao sobre a "novidade" dos trabalhos biogrficos  pertinente, pois, como afirmou-se acima, muitas vezes, sob a rubrica da novidade, travestem-se, a fim de escaparem  crtica, concepes sobre a histria bastante ultrapassadas. No caso especfico da biografia, cabe evocar novamente as palavras de Le Goff ( 1990, p.8)"[...] o mercado do livro histrico est inundado de biografias, muitas das quais permanecem superficiais, anedticas, por vezes anacrnicas". No mesmo sentido, mas em outro texto (1989, p.49-50), ele afirma: "O que me desola na atual proliferao de biografias  que muitas so um puro e simples retomo  biografia tradicional, superficial, anedtica, meramente cronolgica, que se sacrifica a uma psicologia desatualizada, incapaz de mostrar a significao histrica geral de uma vida individual".
	Apesar deste oportunismo acadmico/editorial, penso que existe, sim, uma renovao da biografia histrica, perceptvel em muitos trabalhos recentes.

*Este texto retoma, com algumas modificaes importantes, argumentos j desenvolvidos em Schmidt (2003a). pg.59

Essa acontece, geralmente, quando os historiadores-bigrafos levam em conta as crticas j feitas ao gnero, procurando integr-las s suas preocupaes, tentando respond-las na maneira como elaboram seus trabalhos. Vou, ento, assinalar alguns aspectos que me parecem apontar para tal renovao.

	Uma das crticas mais comuns dirigidas s biografias histricas  a de que elas seriam meras narrativas cronolgicas, factuais, sem preocupaes explicativas e analticas. Segundo Chaussinand-Nogaret (1 986, p.86), a biografia foi vista como "o modelo de histria trodicional, mais sensivel  cronologia e aos grandes homens que s estruturas e s massas". pg.60
	Tal contestao partiu sobretudo do movimento dos Annales que, contra a histria vnementielle, defendeu a histria-problema. Afinal, conforme defendia o socilogo e economista Franois Simiand, nome bastante influente junto aos fundadores da revista dos Annales, um dos "dolos da tribo dos historiadores" a serem derrubados pela nova histria  ao lado dos "dolos" poltico e cronolgico  deveria ser o dolo individual, ou o hbito inveterado de conceber a histria como uma histria dos indivduos, e no como um estudo dos fatos, hbito que ainda conduz comumente a ordenar as pesquisas e os trabalhos em torno de um homem, e no em torno de uma instituio, de um fenmeno social, de uma relao a ser estabelecida [...] (apud Le Goff, 1990, p.42). Marc BIoch, sensvel ao impulso colelivizante da sociologia nascente, construiu uma histria voltada para os homens [no plural!] no tempo"; para as estruturas impessoais, como as da sociedade rural francesa na Idade Mdia; para os "fatos sociais totais", no sentido de Durkheim, como a crena nos poderes curativos dos reis taumaturgos. J Lucien Febvre, influenciado pelos desenvolvimentos da psicologia, analisou algumas personalidades histricas sem, contudo, abrir mo da perspectiva da histria-problema. Em "Le problme de l'incrovance du I6 sicle"(1974), por exemplo, o historiador partiu da obra de Rabelais para discutir o problema mais geral da possibilidade ou no do atesmo no sculo XVI. No mesmo sentido  o de discutir questes gerais a partir de experincias individuais , vo  seus trabalhos sobre Lutero (1956) e Margarida deNavarra (1944).
	Posteriormente, na chamada fase Braudel" dos Annales, a biografia foi quase completamente preterida em favor da histria econmico-social e da temporalidade da longa durao. No seu livro mais conhecido, O Mediterrneo e o mundo mediterrnico na poca de Filipe II (1983), percebe-se, no ttulo, a referncia a um grande personagem. Porm, como afirma Le Goff (1989, p.49), "na clebre tese de Fernand Braudel, o heri  o Medilerrneo e no Filipe, mas aqui Braudel se distancia com efeito de seu mestre Febvre, o descarte do grande homem e da biografia pertencem mais  fase braudeliana dos Annales que ao perodo inicial.
	Com a retomada atual do gnero, inclusive por historiadores ligados  terceira gerao dos Annales, como o prprio Le Goff (1996, 1999), Duby (1998) e Vovelle (1985), procurou-se, ao menos nos casos mais bem sucedidos, realizar uma articulao entre narrativa biogrfica e histria-problema. Comentando seu estudo sobre o rei da Frana Lus IX, o So Lus, Le Goff (1989, p.51), por exemplo, afirma: pg.61

Rei e santo, So Lus entra em uma categoria da Idade Mdia, aquela dos santos reis. Ele se conformou ao modelo desta categoria ou manifestou diferenas devidas  poca ou ao que se pode reconhecer como sua individualidade? A biografia parte assim, na tradio do esprito dos Annales, de uma questo, formula-se como um caso de histria-problema.

	De forma semelhante, Duby (1993, p. 137-138)  que escreveu a biografia de Guilherme Marechal, cavaleiro medieval que foi regente do rei da Inglaterra Ricardo III , ao comentar as motivaes que o levaram a realizar essa obra, declarou:

[...] eu podia ser acusado de trair o 'esprito dos Annales'. Eu  era, com efeito, o primeiro dentre os epgonos de Marc Bloch e Lucien Febvre a aceitar escrever a biografia de um 'grande homem'. Mas na realidade no me desviava nem um milmetro de meu percurso. A nica modificao -  das mais importantes, reconheo  dizia respeito  forma. Eu estava voltando sem rodeios  narrativa. Contava uma histria, seguindo o fio de um destino pessoal. Mas continuava atendo-me  histria-problema,  histria questo. Minha pergunta continuava sendo a mesma: que  a sociedade feudal?

	Portanto, parece-me que as biografias histricas mais inovadoras surgidas nos ltimos anos so aquelas em que a narrativa dos percursos de um indivduo  direcionada por problemas de pesquisa mais gerais, de ordem temtica e/ou terica.
* * *
	Outra crtica muito comum feita aos estudos biogrficos e que, em alguma medida, foi respondida pela historiografia recente, diz respeito ao suposto elitismo  do gnero, ou seja, ao fato de que os bigrafos, em geral, voltam sua ateno para os "grandes homens", os representantes das elites polticas, militares e intectuais, relegando  obscuridade os indivduos pertencentes aos grupos subalternos. Alguns autores parecem respaldar tal objeo, como Le Goff (1989, p.49-50), que atribui essa limitao  escassez  de fontes. Segundo ele, como a biografia histrica [...] deve ser consagrada a um personagem sobre o qual possui-se o suficiente de informaes, de documentos, ela tem boas chances de ser dedicada a um poltico ou a algum que tenha ligaes com a poltica. Ela tem, em todo caso, mais chances de ter por heri um 'grande homem' do que um homem comum". Referindo-se especificamente  poca de So Lus, Le Goff afirma: "Para o historiador, pg.62 que est ligado aos documentos,  muito difcil, antes do sculo XIV no Ocidente, dispor de informaes suficientes para escrever uma biografia outra que aquela de um personagem de primeiro plano".
	No conheo trabalhos biogrficos sobre "subalternos" e "populares" que viveram antes do sculo XIV. Talvez Le Goff esteja certo quanto a estes limites documentais. Entretanto, para os perodos mais recentes, diversos historiadores - com o uso de muita criatividade na localizao e leitura de novas fontes ou na releitura de documentos conhecidos - tm conseguido iluminar as vidas de personagens "comuns", de populares. Isso vem ocorrendo sobretudo por inspirao da micro-histria italiana1, mas tambm em alguns trabalhos de historiadores franceses2. No Brasil, percebe-se um movimento semelhante, como fica evidente nas biografias de militantes operrios e de afro-descendentes escravos e libertos3. Enfim, a qualificao de elitismo atribuda ao gnero biogrfico no se sustenta diante de um exame da produo historiogrfica atual, na qual a idia de "histria vista de baixo" j foi incorporada  anlise de percursos individuais. Mas quero deixar bem claro: no  a simples escolha de personagens "obscuros" para serem biografados que leva a uma renovao do gnero.  muito freqente se encontrar biografias tradicionais de "subalternos" e biografias inovadoras de "grandes homens". Tudo depende, como j foi apontado antes, da sofisticao analtica dos problemas que direcionam a narrativa.
	O alargamento do panteo dos 	biografados remete a outro problema crucial: o da representatividade. Comumente se pergunta aos historiadores-bigrafos em que medida os indivduos por eles enfocados representam sua poca, seu grupo social, seu pas, seu gnero, sua etnia, etc, O estranho  que, normalmente, tais questionamentos s so feitos aos estudiosos dos "pequenos personagens", como se os "grandes homens" justificassem por si mesmos a realizao de suas biografias. Afinal, soaria estranho perguntar pela representatividade de um Napoleo Bonaparte ou de um Getlio Vargas.
	
1 O exemplo mais conhecido  o famoso estudo de Ginzburg (1987) sobre o obscuro moleiro Menocchio.
2 Ver, por exemplo: Vovelle, 1985 e Corbin, 1998.
3 Para um balano das biografias de personagens pertencentes a esses dois grupos sociais,  consultar: Schmidt (1998) e Xavier (2000). pg.63
	Uma resposta possvel a essa questo foi dada por Ginzburg (1987, p.27). De acordo com ele, se a documentao permite,  plenamente justificvel procurar estender o conceito histrico de indivduo s classes mais baixas pois "alguns estudos biogrficos mostraram que um indivduo medocre, destitudo de interesse por si mesmo - e justamente por isso representativo - pode ser pesquisado como se fosse um microcosmo de um estrato social inteiro num determinado perodo histrico [...]". Alm disso, por mais singular que seja um indivduo - como  o caso do moleiro Menocchio por ele estudado - existem sempre pontos de contato entre suas prticas e suas idias e as dos seus contemporneos; afinal, todos compartilham, em maior ou menor grau, determinados cdigos culturais. Nas palavras do historiador italiano "[...] da cultura do prprio tempo e da prpria classe no se sai a no ser para entrar em delrio e na ausncia de comunicao. Assim como a lngua, a cultura oferece ao indivduo um horizonte de possibilidades latentes-uma jaula flexvel e invisvel dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de cada um".
     	Contudo.poder-se-ia ir mais longe e perguntar: o que  um indivduo "mediocre", no sentido de "mdio"? Aquele que  reconhecido como tal pelo seu grupo? Pensemos em ns mesmos: at que ponto somos representativos de um grupo social, para alm do sentido poltico da representao? Se um historiador do futuro realizasse uma biografia de qualquer um de ns, quais seriam os limites de nossa "Jaula flexvel e invisvel"?
 	A insistncia na idia de  representatividade para justificar os estudos biogrficos talvez se deva  nossa dificuldilde, enquanto historiadores, de lidarmos com a singularidade. Sobre este ponto, so muito pertinentes os comentrios de Adriana Barreto de Souza (2003, p.96):

Ainda predominam dois uso da biografia: a biografia representativa e o  estudo de caso. Os dois, no entanto , acabam negando o  prprio biogrfico cumo lugar de produo  de uma escrita da Histria. A escolha de uma trajetria de  vida pelas  pesquisas que trabalham com a idia  de representatatividade ocorre em funo no do que h de singular nessa trajetria . Seu valor est no fato de sintetizar vrias outras biografias , presentes no texto atravs apenas de nmeros e quadros estatsticos. Dessa forma, o que legitima seu estudo continua sendo procedimentos clssicos da histria social,pautada na generalizao. Da o termo representativo[...]

O trabalho com idia de estudo de caso valoriza ainda menos o biogfico como lugar se produo de um discurso histrico. O nome define bem o procedimento adotado. Primeiro, se3 procede a uma anlise macro-estrutural para, s depois, quando j esto elaborados seus quadros explicativos, ter incio a anlise biogrfica . Sua funo  unicamente ilustrativa. Pg.64

	Assim, penso que uma compreenso inovadora da biografia histrica  que aposta  aquela que aposta na singularidade, e utiliza o"[...] eu para romper o excesso de coerncia do discurso histrico"; que tenta recuperar "[...] as incertezas do passado e as possibilidades perdidas". Em contraposio a essa "obsesso pela representatividade. talvez devessemos estar mais atentos  tenso entre o particular e o geral, pois "[...] o indivduo no Tem como misso revelar a  essncia da humanidade; ao contrrio, ele deve permanecer particular e fragrementado" (LORIGA, 1998,p.248-249). Como bem salienta Sabina Loriga (1998, p-249):

S assim, por meio de diferentes movimentos  individuais,   que se pode romper as  homogeneidade aparentes (exemplo, a instituio, a comunidade ou o grupo social) e  revelar os  conflitos que presidiram a formao  Edificao das prticas  culturais: penso nas inrcias e na ineficcia normativas, mas tambm nas incoerncias que existe entre as diferentes  normas, e na maneira pela qual os indivuo faam  eles no a histria, moldam e modificam as relaes de poder.

	Se a biografia histrica busca realmente uma inovao, no pode ficar imune a essa discusso!,..].
	Ainda quanto  escolha dos personagens, parece-me que, atualmente, os historiadores-bigrafos tm se mostrado mais propensos a interessar-se por indivduo "desviantes" - herticos, curandeiros, mililantes revolucionrios, pensadores utpicos, feministas, ele, -, ou seja, por aqueles que procuraram, em diferentes perodos e locais, romper com os padres sociais e morais vigentes. Isso talvez seja uma reao- um tanto romntica,   verdade - desesperana e  desiluso com os grandes projetos coletivos de transformao da sociedade que marcam a nossa poca, na qual a massificao do coritiano e o controle social possibilitado pelas novas tecnologia de  informao  e comunicao fazem lembrar o 1984 de Orwel.
	Diante de tais sentimentos, torna-se poltica e episTemologicamente relevante perscrutar, no passado, os espaos de liberdade dos indivduos frente aos sistemas  nomintivos e os regimes opressivos, subliando suas possibilidades.Pg.65 de individuao, de criatividade, de interveno no curso dos acontecimentos.
Esse questionamento o conduz, tambm, a um problema tico: se o peso dos atores  decisivo na histria o indivduo no  apenas um produto das condies sociais de seu tempo, como se coloca a noo de responsabilidade individual? Afinal, a possibilidade da liberdade, mesmo que instersticial4, leva a pensar no s na resistncia  ordem estabelecida mas tambm, na. participao de diversos personagens em atos de vioLencia, represso, opresso e extermnio.
***
	A ltima crtica feita s biografias histricas que repercute na renovao do gnero a ser abordada neste artigo relaciona-se  iluso" gerada por esse tipo de narrativa, qual seja, a iluso de que a vida tem um sentido imanente, uma coerncia e um fim. Bourdieu(1996,p.t84, 183, 190 e 189),entre outros, questionou o pressuposto, presente com boa parte dos trabalhos orientados pela metodologia da "histria de vida". "de que a vida constitui um todo, um conjunto coerente e orientndo , que pode e deve ser apreendido como expresso unitria de uma subjetiva e objetiva, de um projeto  ,  afinal     ressalta o autor, "falar de histria de vida  pelo menos pressupor-e isso no  pouco - que a vida  uma histria e que [...] uma vida  inseparavelmente o conjunto dos acontecimentos de lima existncia individual concebida como uma histria e o relato dessa histria". Para Bourdieu, ao contrrio, os acontecimentos biogrficos devem ser entendidos como "colocaes e deslocamentos no espao social" e 3 trajetria de um indivduo,como "serie de oposies sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou
um mesmo grupo) num espao que  ele prprio um devir, estando sujeito a incessantes transformaes". Por conseguinte, a personalidade individual seria"o conjunto de relaes objetivas que unificaram o agente considerado".
	A crtica do socilogo francs tambm repercutiu entre os historiadores-bigrafos que, seguidamente, narram as vidas de seus personagens como revelaes  de sentidos j dados priori, ou como realizaes de planos pr-fixados. Essa idia da vida como um todo coerente, linear e orientado a um fim, em que todos os acontecimentos podem ser integrados a um eixo, o nome prprio, transparece em expresses como os "j", os "desde pequeno", os "sempre" que seguidamente pautam as narrativas biogrficas (BOURDIEU, 1996, p.184). Nesse sentido, a provocao de Bourdieu parece-me bastante salular. Caberia, ento, aos bigrafos, acompanharem o "fazer-se" (parodiando Thompson) dos personagens ao longo de suas existncias, levando em conta os diferentes espaos sociais onde eles atuaram, mas tambm suas percepes subjelivas,  oscilaes, hesitaes e mesmo o acaso. 

4 Como salienta levi(1996, p, 179-180). "[...] nenhum sistema normativo  suficientemente estruturado  para eliminar qualquer possibilidade! de escolha consciente, de manipulao ou de interpretao das regras, de negociao, A meu ver a biografia  por isso mesmo o campo ideal para verificar o crater insterstical e todavia importante  da liberdade de que dispe os agentes e  para observar como funcionam  ou cocretamente  os sistemas normativos que jamais esto  isentos de contradies".
Pg.66
	De outro lado, como bem lembra Loriga (in SCHMIDT, 2003b, p, 19),

[...] o risco de cair em uma histria cronolgica, factual e pouco problemtica no est inscrito inevitavelmente na reflexo biogrfica: querodizer que tomar em considerao a experincia individual no significa sempre, automaticamente, adotar a forma tradicional da biografia. Ns podemos, devemos, pensar tambm em outras formas de narrativa.

	A historiadora ressalta tambm que, com sua reprovao s biografias, "[...] Bourdieu tende a homologar as condutas individuais e a confrmar os laos normativos, a fora do habitus"5.
	Esses debates evidenciam a complexidade da construo das narrativas biogrficas. Alertam tambm os historiadores interessados no gnero para a importncia de se romper com a noo de inevitabilidade histrica. Aflnal, se hoje o futuro de nossos personagens j  passado, eles viveram em presentes prenhes de futuros possveis. Construir biografias histricas renovadas implica, pois, recuperar o "drama da liberdade"6 desses indivduos, mostrando que seus percursos no estavam pr-determinados desde o incio.
	Hoje, portanto, muitos historiadores, sem renunciar  biografia, mas incorporando as crticas que a ela j foram feitas, tm mostrado que esse gnero, j to "velho", pode ainda renovar-se e apontar para novas possibilidades de compreender, escrever e construir a Histria.

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5 Chamo tambm a ateno para a pertinente crtica de Clos (1989, p. 38)  perspectiva bourdiana. De acordo com o autor, Bourdieu, buscando diferenciar-se do subjetivismo, acabou caindo em uma iluso sociologizante, ao deixar de lado a topologia subjetiva do sujeito, substitudo pelo agente, cujos atos so vistos apenas como adaptaes a diferentes espaos sociais. Clos considera que ao experimentar as relaes sociais que o constituem, o sujeito, liberado a si mesmo, e freqentemente sem sab-lo, faz funcionar a dialtica das possibilidades e impossibilidades subjetivas que sua histria sedimentou. Pg.67
6 Expresso citada por Loriga, 2000, p.138.
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DILOGOS ENTRE HISTRIA E LITERATURA:
ACIDADE COMO PALCO DA MODERNIDADE

Nncia Ceclia Ribas Borges Teixeira
Mrcia Terezinha Tembil

UNICENTRO

"A literatura  filha das cidades".
Antonio Cndido

	A temtica Literatura e Cidade tem despertado pesquisas em diversos campos do saber. Historiadores, arquitetos, socilogos, antroplogos e estudiosos da literatura tm enfrentado o desafio de inscrever a cidade como um espao de concentrao de Iinguagens, que compe o discurso da modernidade. Na literatura, a experincia urbana e a cena escrita esto, ambas, inseridas no mundo dos signos. Conseqentemente, pode-se aflrmar que a cidade tem a capacidade de produzir significados, ela, da mesma forma que os textos literrios, apresenta tantas interpretaes quantos forem os leitores. As diferenas vo criando leituras variadas, principalmene quando se focaliza uma cidade particular, a partir de momentos histricos e culturais tambm particulares.
	A relao Literatura e Experincia Urbana tornou-se mais visvel na modernidade, quando a cidade transformada pela Revoluo Industrial se apresenta como um fenmeno novo dimensionado na metrpole. Sob o signo do progresso, altera-se no s o perfil urbano, mas tambm o conjunto de experincias de seus habitantes. Essa cidade da multido, que tem a rua como trao forte de sua cultura, passa a ser no s cenrio, mas tambm a grande personagem de muitas narrativas, ou a presena incorporada em muitos poemas. Assim  Paris para Baudelaire; Londres para Dickens, Buenos Aires para Borges, Lisboa para Ea de Queirs e o Rio de Janeiro para Machado de Assis e Lima Barreto.
	No final do sculo XIX, foram produzidos discursos de valores metropolitanos, que sero registrados pela literatura, em especial pelas crnicas. O Rio de Janeiro, a metrpole cultural, seus habitantes,  lojas, cafs, confeitarias e subrbios esto configurados, dessa forma, nas crnicas de Machado de Assis e Lima Barreto. Estes escritores foram testemunhas da pg.71 avalanche modernizadora que fez do Rio uma metrpole do sculo XX. Inevitavelmente, qualquer estudo que se volte para a produo literria brasileira neste perodo, no pode deixar de tomar como ponto de referncia as obras escritas por Machado de Assis, espcie de marco ou divisor de guas, pois a partir dele, comea-se a modernidade literria. No entanto, se se considerar somente as imagens que advm dos escritos machadianos, ocorreria uma uniformidade, pasteurizando o pensamento da poca, e se sabe que, neste perodo, o que ocorre  uma grande dicotomia, advinda da modernidade, no que se refere a construo do urbano. Assim, tambm, levar-se- em considerao a viso que Lima Barreto projetou sobre a cidade do Rio de Janeiro.
	Cada um desses escritores deixou um conjunto de obras de grande interesse sociolgico e esttico, por isso  mister promover uma analise dos textos, a fim de evidenciar como os autores incorporaram os valores, de seu tempo. Assim, suas trajetrias individuais, ao se definirem, vo compondo as redes institucionais que demarcaram o horizonte cultural da poca.
	Nessa perspectiva, indagar sobre as representaes da cidade, na cena escrita construda pela literatura, , basicamente, ler textos que Leem a cidade, considerando no s a pasagem urbana, os dados culturais mais especficos, os costumes, os tipos humanos, mas tambm a cartografia simblica em que se cruzam o imaginrio, o ficcional, a hiatria, a memria da cidade e a cidade da memria.
	, enfim, considerar a cidade como discurso. verdadeiramente uma forma diferenciada de linguagem. A cidade escrita , ento, resultado da leitura, construo do sujeilo que a Le, que a pensa como condensao simblico-material e como cenrio de mudana, em busca de significao.
Escrever, portanto, a cidade ,  tambm, Le-la, mesmo que ela se mostre ilegvel  primeira vista;  engendrar uma forma para essa realidade sempre mvel. A escrita da cidade e a cidade como escrita  um jogo aberto  complexidade.
	O final do sculo XIX e inicio do sculo XX foi um perodo de disposio e nimo no mundo inteiro,  trazido pelo progresso, pelos novos materiais de comunicao que transformavam a feio e os hbitos de sociabilidade e as prticas discursivas de toda  asociedade, pela experincia. ao mesmo tempo eufrica e traumtica, do surto civilizatrio do sculo que se inaugurava. Pg. 72
	Durante a passagem do sculo XIX para o XX, o Rio de Janeiro presenciava reformas urbanstica que buscavam criar um cenrio moderno e civilizado, capaz de sugerir novos hbitos e prticas sociais: os passeios por avenidas e a frequncia a sales, confeitarias, livrarias e esquinas chiques, como a da Avenida Central, a Rua do Ouvidor. Esta foi a verso do cosmopolitismo carioca, a contribuio brasileira  Belle  poque internacional. Esta poltica, no entanto, aponta para a lgica das oposies do discurso governantal e a do discurso que atrela a imagem de cidade circunscrita pela lgica excludente e hierarquizadora.
	Esta lgica promover a interveno no espao, demolindo a cidade que denuncia um passado colonial e escravista que se quer esquecer, porque sua cullura est distante dos figurinos europeus adotados pelas classes dirigentes. A cidade que se quer apagar  literalmente varrida da rea central da cidade, que se toma praticamente isolada para o desfrute das camadas aburguesadas. A cidade moderna  ento, gerada por meio de uma "[...] linguagem mediante duas redes diferentes e superpostas: a fsica e a simblica, que a ordena e interpreta", conforme a formulao de Rama (1985. p.32). Se a atitude da cidade das letras  ordenar os signos para expressar uma poltica do poder institudo e Jusific-la ideologicamente pelo discurso, parte significativa de nossos intelectuais colocou sua escrita a servio do Projeto Oficial, ao mesmo tempo, em que expressava a aderncia  euforia do "Rio civiliza-se", ainda que sob o signo da excluso e da hierarquia.
	Para compreender a insero destes Intelectuais e artistas nesta cidade, e por conseqncia a insero da cidade no projeto modernizante, ser decisivo retomar, hlistrico-culturamente, como o Rio de Janeiro foi construdo dentro da modernidade  brasileira. Levando em considerao a primeira premissa de que a obra literria  tambm produto de seu tempo, a anlise deve ser feita levando em conta a relao orgnica entre o contedo, que exprime principalmente valores e ideologias, e o forma, influenciada pelas modalidades de comunicao. Portanto, deve-se buscar, tanto nos temas quanto no estilo do cronista, as marcas das transformaes de seu tempo, vale lembrar, um tempo de modernizao acelerada. E retomando a segunda premissa, que assegura que  a arte  social porque produz sobre os indivduos um efeito prtico, delimi tando grupos, criando gostos, veiculando padres estncos e morais,  importante lembrar, aqui, que a imprensa  principal pg. 73 suporte dos textos a serem apresentados - na poca, comeava a apontar para a comunicao de massa, ampliando sua influncia sobre o pblico.
	Entre ns, a crnica confirma-se como esforo de experimentao livre sobre a realidade brasileira. A lngua de que a crnica se utiliza, mais do que qualquer outro gnero,  a lngua da cidade; nela a literatura  tratada como a capacidade de se ampliar a realidade social e humana, conforme afirma Candido (1985, p. 12),"|...] a literatura humaniza em sentido profundo, ao facultar uma maior inteligibilidade de uma dada realidade social e humana, da qual se constitui uma representao", Candido, sem desconhecer a complexidade e a dificildade da tarefa, parece considerar que a relao entre a sociedade e o texto literrio possibilita ao leitor uma perspectiva nova de leitura, ao pr de manifesto a experincia hiatrica como um dos elementos que permitem encontrar no texto literrio, em sua tessitura e em sua recepo, uma expresso do autor como sujeito histrico e de sua verso sobre o tempo vivido.
	As crnicas produzidas por Machado de Assis e Lima Barreto discutem a relao entre o progresso e a tradio, onde o primeiro - e com ele a transformao urbana - entendido como inexorvel, ao passo que o conceito de tradio se relaciona com um alerta conscincia nacional para a preservao dos monumentos do passado da memria e do patrimnio cultural da cidade. Promover uma industrializao imediata e a modernizao do pas eram as metas da nova elite republicana.
	A cidade, onde os fatos ocorrem,  o lugar da construo da modernidade, ou, melhor dizendo, a metrpole e a forma mais especfica de realizao da vida moderna. Para se traar a fisionomia da cidade moderna,  necessrio refletir-se sobre a produo literria enquanto fenmeno social. Assim, para que se possa promover a anlise das represenitaes que emanam das imagens urbanas na literatura produzida na metrpole, de modo especial no Rio de Janeiro no limiar do sculo XX,  essencial a recuperao do conceito de representao urbana que  tecido por meio do olhar do flneur; o narrador-andarilho, por entre passos e Ietras, escreve a cidade textual. O narrador, com a mscara  do flneur, Le o espao pblico, metonimicamente representado pela rua, como realidade viva e dinmica. O flneur, que perambula e reflete, cheio de curiosidade, Le a cidade como um discurso, vendo-a enquanto inscrio do homem no espao e no tempo. Sua leitura produz outro discurso, a cena escrita, para a qual  chamado o leitor investido pg.74 tambm do papel de flneur que, agora, percorre o discurso via letras impressas.
Ao se focalizar a reconstruo das imagens da metrpole carioca, alguns elementos metaforicamente passam a representar o progresso: os bondes eltricos, os hbitos sociais que foram modificados, a flnerie pelas ruas do Rio de Janeiro e o cultivo do fetiche pela mercadoria. O mapa discursivo, esboado pela pesquisa, e desenhado por Machado de Assis e por Lima Barreto, esboar a imagem de um Rio de Janeiro escrito a quatro mos, e por meio deste concerto so erigidas a Cidade Subterrnea projetada por Machado de Assis e a Cidade-Palco criada por Lima Barreto.
Machado de Assis e Lima Barreto trataram de um mesmo fato. Produziram suas crnicas, a partir de uma perspectiva crtica, lcida e consciente da ptria. A saber, dado o mesmo pas, a mesma cidade, o mesmo tempo (com intervalo histrico pequeno) e a mesma trama de relaes sociais, que se desenvolvem ao ajuste do pensamento sobre os problemas sociais. Ao se confrontar a cidade projetada por Machado de Assis quela cidade escrita de Lima Barreto, e ao percorrer a trilha projetada por estes escritores, percebe-se que o Rio de Janeiro lido/escrito por eles denota vrios pontos de convergncia, assim como o prprio processo de escritura, embora esta similaridade surja diante da diversidade de estilos, pontos de vista, ideologias.
Machado e Lima cenarizam e grafam o Rio de Janeiro em sua multiplicidade de signos, em busca da decifrao do urbano, que se situa no limite extremo e poroso entre realidade e fico. Os autores desvendaram o funcionamento da sociedade, utilizando estratgias diferentes, e compreenderam que deviam abrir as cortinas, debruar-se sobre a janela e encarar a cidade. Excluso, progresso, construo, subterrneo, cenrio, so imagens literrias cabveis para nomear a cidade do Rio de Janeiro em pleno processo de modernizaao. As crnicas de Machado de Assis e de Lima Barreto demonstram que os valores da sociedade brasileira, ao menos os de sua elite, estavam a mudar, e muitas dessas mudanas refletiam no espao urbano, principalmente no do Rio de Janeiro, principal cidade do pas na poca.
A narrativa literria estabelece uma transcendncia sobre o real, ela constri seu discurso pelos caminhos do imaginrio e os fatos chegam at o leitor como representao de algo, problematizando a realidade histrica. A realidade histrica  mero instrumento, matria prima a partir da qual o pg.75 artista recria a realidade.O escritor exterioriza seu ser no mundo real, ele tambm o interioriza como realidade objetiva. Existe uma profunda dinmica entre indivduo e sociedade feita de interaes, deslocamentos e modificaes.
Na fco, ocorre a fetichizao do fato, a criao  o resultado da escritura, e o ponta de partida  o conjunto de informaes, no se exige pesquisa documental, mas no se pode dispensar o conhecimento (leitura do conjunto de informaes) que dar suporte para a contextualizao da narrativa. Conforme Mannheim (1982, p-98),

O indivduo encontra-se dentro de uma situao herdada, com padres de pensamento a ela apropriados e procura aperfeioar mais ainda os modos de reao herdados ou substitui por outros. Cada indivduo , pois, predeterminado pelo fato de ser criado dentro  de uma sociedade: por um lado j encontra uma situao definida, e por outro encontra pensamentos estabelecidos.

A produo literria  um fenmeno social resultante de convices, crenas, cdigos e costumes sociais. Enquanto tal, exprime a sociedade, no integralmente, mas a modificando e, at mesmo, negando-a. Se a literatura emerge de uma determinada realidade histrica, isso no implica que deva ser o seu registro fiel, apresentando dela uma imagem em que a prpria sociedade, muitas vezes, recusa-se se reconhecer. No  inteno do texto literrio provar que os atos narrados tenham acontecido concretamente, mas a narrativa comporta em si uma explicao do real e traduz uma sensibilidade diante do mundo, recuperada pelo autor. Para Mannheim (1982, p. 90), "todas as idias, sejam elas utopias ou ideologias, tm de ser vistas em sua vinculao social e no  luz de critrios imanentes de veracidade".
Ricouer (1983] descreve o discurso ficcional como sendo quase histria, a medida que os acontecimentos relatados so fatos passados para a voz narrativa, como se tivessem realmente ocorrido. A narrativa v literria no precisa comprovar nada ou se submeter  testagem, mas guarda preocupao com uma certa refigurao temporal partilhada com a histria. Dando voz ao passado, histria e literatura proporcionam a erupo do homem no hoje. Esta representao daquilo que j foi,  que permite a leitura do passado pelo presente como um ter sido, ao mesmo tempo figurando como o passado e sendo dele distinto. pg.76
Prticas e representaes sociais so as duas faces da mesma moeda da vida social. A prtica social e aquela interveno concreta do homem no universo emprico. Mas essa prtica  induzida e conformada (legitimada) pelas representaes, que no ocorrem a posteriori, mas simultaneamente  prtica social.
O conceito de representaes sociais d conta da complexidade da imagem, sendo igualmente capaz de incorporar o que lhe for pertinente em conceitos como mentalidades, ideologia, valores, expectativas, alm de memria.
A cultura da modernidade , eminentemente, urbana e comporta duas dimenses indissociveis: por um lado, a cidade  o stio da ao social renovadora, da transformao capitalista do mundo, e por outro lado, a cidade torna-se, ela prpria, o tema e o sujeito das manifestaes culturais e artsticas. Dessa forma,  na correlao modernidade-cidade que encontramos a passagem da idia da urbe como local onde as coisas acontecem. A metrpole  a forma mais especfica da realizao da vida moderna.
 com esse enfoque que se analisar a cidade do Rio de Janeiro no final do sculo XIX e inicio do sculo XX. Por ter sido a sede, a corte, a mior cidade do Imprio, era tambm a porta de entrada das idias novas no bojo do processo de renovao urbana, que acompanhou a emergncia do moderno, tomando Paris como metfora e metonmia desta modernidade. Paris passa a ser a forma acabada de realizao da complexidade social e da natureza dos contatos, que s a modernidade foi capaz de propiciar, tornando-se a fonte inspiradora de um imaginrio exportvel. Sendo assim, foi a primeira das cidades a se defrontar com a crise de identidade.
As metrpoles foram as responsveis pelas narrativas fundadoras da modernidade ocidental e, entre elas, as que dizem respeito  constituio das pases colonizados, alm disso, foram sede do controle da produo e da difuso de discurso e das idias na Colnia, vista sempre a partir de um centro considerado hegemnico. Esse processo de construo de identidade pode ser visto nas narrativas da vida. No sculo XIX, forjaram-se e adquiriram visibilidade, idias ativas no conjunto das prticas simblicas. Entre elas, talvez a mais importante e que merea maior destaque,  a idia da construo da identidade nacional.
Com a generalizao da imagem, o prprio princpio de representao deixa de funcionar. As imagens passaram a constituir, elas pg.77 prprias, a realidade. No se pode mais trabalhar com o conceito tradicional de representao, quando a prpria noo de realidade contm no seu interior o que deveria represent-la. Torna-se difcil distinguir o que  real e o que no . Neste universo feito de imagens, o real no tem mais origem, nem realidade.
Para se entender o ficcional,  preciso "[...] uma reconstituio histrica, do que em uma poca ou perodo precisos tomava-se como realidade, conseqentemente o que se tinha como verdadeiro ou falso" (LIMA, 1980, p.78). Mas, no  suficiente tornar o ficcional por sua ausncia de realidade, pelo fato de ele no ser governado por referencialidade, ou seja, no se pode julgar um discurso ficcional verdadeiro/ falso, porque no contm referncias fidedignas ao real, mas porque neutraliza nosso modo habitual de tematizar a realidade. Sendo assim,  necessria uma reflexo sobre a transio do sculo XIX para o sculo XX.
As cidades cresciam em rea ocupada e em populao. A rua deixa de ser, em definitivo, via de passagem, adquirindo vida e personalidade prprias, como lugar de passeio, de comunicao, de ostentao e exibio de status. Benjamin (1991, p.31), em seu ensaio Paris, Capital do Sculo XIX, afirma que

[...] elas passam a ser centro de peregrinao ao fetiche mercadoria, entre vitrinas exuberantes, os primeiros estabelecimentos a manterem grandes estoques de mercadorias, comeam a aparecer. As galerias so centros comerciais de mercadorias de luxo. Em sua decorao, a arte pe-se a servio do comerciante.

A rua se democratiza de tal modo que as diferenas sociais devem ser sublinhadas pelo reforo, cada vez mais, do esnobismo. A publicidade impulso e o art noveau se esmera em cartazes artsticos assinados por Toulouse Lautrec.
Na Frana, a construo do sistema ferrovirio exigiu exatido jamais vista antes. Passou a ser necessrio coordenar matematicamente os horrios, da a tradio do relgio fixado no frontispcio das estaes de trem. Foram os trens, portanto, que inauguraram uma cultura na qual a pontualidade  fundamental.
A vida se torna clere e se renova,  a cada dia, o convite  aventura. Essa temtica aflora nos textos de Walter Benjamin, pode-se identificar, neles, o modo como o filsofo alemo enxergava a era da grande indstria. pg. 78 Um problema se afirma com fora: a circunstncia de que a vivncia hostil e obcecante, dessa poca, conduziria ao declnio da experincia enquanto partilha coletiva de uma memria e uma palavra comuns. O fim da Guerra do Paraguai (1872)  freqentemente considerado pelos latino-americanos um divisor simblico cnire os tempos antigo e moderno.
Machado de Assis afirmava que "no h dvida de que os relgios andam muito mais depressa" (ASSIS, 1985, p.223). O tempo dispara, as notcias chegam mais rpidas, porm jamais da mesma maneira. O telgrafo traz consigo uma outra realidade.

Antes, no tnhamos ainda ese cabo telegrfico, instrumentos destinado a amesquinhar tudo, e a dividir novidades em talhadas finas, poucas e breves. Naquele tempo, as batalhas vinham por inteiro, com bandeiras tomadas, mortos e feridos, nmeros de prisioneiros, nome dos heris do dia [...] (ASSIS, 1985, p.224).

 ntida a percepo de um tempo que foi roubado pela tcnica. Esta abrevia, condensa e sintetiza. Assim, as notcias chegam "em talhadas finas, poucas e breves". O que Machado parece lamentar  a prpria mudana da narrativa, que faz com que os fatos no venham mais por inteiro, mas aos pedaos. Perde-se, assim, o relato colorido: a recepo no  mais distrada e prazerosa, transforma-se numa atitude atenta e tensa. O imaginrio e a subjetividade passam a ser sacrificados pelo aparato tecnolgico.
Esta perda da experincia constitui o tema central de Experincia e Pobreza. Conforme diz o prprio autor:

Torna-se, cada vez mais, raro o encontro com pessoas que sabem narrar alguma coisa direito.   cada vez mais freqente espalhar-se em volta embarao, quando se anuncia o desejo de ouvir uma histria.  como se uma faculdade, que nos parecia inalienvel, a mais garantida entre as coisas seguras, nos fosse retirada. Ou seja: a de trocar experincias. Uma causa deste fenmeno  evidente: a experincia caiu na cotao. E a impresso  a de que prosseguir na queda interminvel (BENJAMIN,1989, p,57).

Ao expor as condies que conduzem  substituio da narrativa por outras formas de comunicao, Walter Benjamin identifica certos elementos que, correlatos ao declnio da experincia, seriam caractersticos da existncia dos homens modernos.  No contexto moderno, em que ocorre pg. 79 uma progressiva atrofia da experincia, passado individual e o passado coletivo se apartam, adquirindo exclusividade recproca.  esta ciso que se expressa no jornal impresso, cujo objetivo , segundo ele, "Excluir rigorosamente os acontecimentos do contexto em que poderiam afetar a experincia do leitor" (BENJAMIN, 1989, p.31). Escritores, como Balzac e George Sand, reclamam de ter que adequar sua sensibilidade artstica s exigncias de um mercado que cobrava rapdez, suspense e produo.
	O Brasil procurava consolidar-se como um pas republicano e conter as rebelies populares que estouravam em algumas regies, em pronvncias no campo e na cidade. Assimilando, dessa forma, um processo de desestabilizaao e reajustiamento  social. O advento do sistema republicano foi marcado por uma srie de crises, que atingiram principalmente, em primeiro lugar as elites tradicionais do Imprio, alm de grupos com prometidos com os anseios populares.
 Sevcenko (1985, p.25) insttulou o Rio de Janeiro como a Capital do arrivismo,

[...] pois se os confitos polticos tendiama decantar os agentes cuja qualidade
maior fosse a moderao no anseio das reformas, as agitas ecnomicas, por seu lado, apuravam os elementos predispostos   fome do ouro, A sede da riquesa,  da  sofreguido do luxo, da posse, do desperdcio da ostentaao do triunfo. Conciliando essas duas caractersticas, o conservadorismo arejado; a estupidez material pode-se conceber a imagem do tipo social representado por exceLencia  no novo regime. So esses novos homens que iro marcar o novo sistema.

Para ele, o prprio compasso frentico com que se definiam as mudana sociais, polticas e  econmicas, nesse perodo, concorreu para a acelerao do ritmo de vida da sociedade carioca.
Ler a cidade  tentar entender essa rede intrincada, rastreando idias, metforas, smbolos para, a patir deles, construir urna espcie de mapeamento, um outro tecido - uma outra representao. Ler a cidade ,ainda, perceber que o intrincado da rede , eie mesmo, o resultado de uma concentrao de linguagens. Decifrar linguagens , pois, a tarefa do leitor de cidades que, em sua particular leitura, promove uma espcie de atualizao de traos formadores dessa tessitura de signos que a cidade comtm. Ao promover a atualizao, o leitor constri, pela representao, a sua cidade, pg. 80 pois est claro que qualquer cidade  um pouco construda, por aqueles que a Leem.
 	Por outro lado, cada leitor Le  a cidade num  processo que tambm alualiza os seus cdigos de decifrao. A partir da vai construir/escrever uma espcie de mapa particular, a sua representao da cidade na cidade. O desejo de quem olha  o que d forma   cidade.
A sua leitura  perpassada, portanto, pelas experincias e vivncias cotidianas que outorgam imagens plurais traadas pela? trajetrias histricas de seus habitantes. Sintetizar essas imagens, a partir da construo de um grfico capaz de traduzir as percepes desses habitates  acerca do espao citadino, levaria, na interpretaco de Argan,  obteno de

[...] uma imagem muito semelhante a de uma pintura de jackson Pollock, por volta de 1950: uniu espcie de mapa imenso, frmado de linhas e pontos coloridos, um amaranlhado inextricvel de sinais, de traados aparentemente  arbitrrios, de filamentos tortuosos. embaraados, que mil vezes se cruzam, se imterompem, recomeam e, depois de estranhas voltas, retornam ao  ponto de onde partiram (ARGAN. 1992. p.23).

O conceito hemtico  do que seja a cidade, sob a gide desse olhar, dilui-se em fragmentos que refletem as rupturas e as descontinuidades que integram o tecido histrico do espao urbano e incitam as mltiplas leituras que desembocam nas representaes  igualmente diversas. Encerrla num nico olhar e conceito, em especial quando se trata de falar da cidade moderna, significa desconsider-la enquanto campo capaz de exprimir, parafraseando Calvino (1990), a tenso entre  racionalidade geomtrica e o emaranhado das existncias humanas: tensan entre  cristal e chama.
	Certeau (1990), quando se refere  impossibilidade da totalizao na interpretao da cidade, desvela, por seu turno, o torvelinho de idias que integra a modernidade. Enquanto cenrio dessa modernidade, na cidade, segundo Arates (1998, p,25), constitui-se "no palco da irrralidade experimentada pelos contemporneos". Um puzzle que desafia tornar  legvel a ilegibilidade que encerra.
Destarte, ler a cidade implica tentar capt-la em suas dobras, uma vez que como artefato moderno apresenta-se como uma imagem difusa, um discurso intrincado, entremeado pela constante transformao e  fluidez de significados. Como palco e ator da modernidade ilumina aquilo que a marca: velocidade, transformao, destruio, desintegrao, ambigidade e pg. 81 paradoxo. Acolhe, nesses termos, a essncia do ser moderno, que como lembra Bennan (1986,p.150, " fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, tudo que  solido desmancha no ar". Nesse sentido, ainda observa que "o dinamismo inato da economia moderna e da cultura que nasce dessa economia aniquila tudo que cria - ambientes fsicos, instuies sociais, idias metafsicas, vises artsticas, valores - a fim de criar mais, de continuar infindavelmente criando o mundo de outra forma" (BERMAN, 1986. p. 273).
, pois, corporifcando todos esses elementos que Paris no sculo XIX apresenta-se como paradigma da "cidsde moderna" e, por conseguinte,  conforme interpretao de Pesavento, desperta a construo de um imaginrio, a partir de "tipos especiais de leitores da cidade - escritores, poetas, fotgrafos, pintores - e suscita aes de interveno no urbano, exemplificadas peIo desempenho de Haussmann, o prefeito que revolucionou a capital francesa" (PESAVENTO, 1999. p.24). Nesse contexto que, segundo a historiadora, as elites brasileiras constroem uma "noo de alteridade". "um vir-a-ser identitrio", que por certo, desembocaria na reformulao da fisicalidade do Rio de Janeiro com a reforma realizada por Pereira Passos no inicio do sculo XX. Em meio  crise urbana que assolava a capital carioca aquela poca. Passos buscou um conjunto de reformas de cunho autoritrio com a inteno de obter controle e disciplina sob as populaes pobres que se concentravam no centro da cidade, em antigas construes e, ainda, inserir o Brasil no curso inexorvel do progresso, trilhando os passos da modernizao.
Assim como em Paris, as reformas estabelecidas no Rio de Janeiro legaram   cidade formas de utilizao de seus espaos, demarcando muros imaginrios entre pobres e ricos ao tempo que instaurava os marcos da modernidade brasileira. No bojo desse processo  que se deu, segundo Sevcenko a
                                                       
[...] inaugurao da avenida Central, atual avenida Rio Branco, eixo do novo projeto urbanstico da cidade, contemplada com um concurso de fachadas que a cercou de um dcor arquitetnico art nouveau, em mrmore e cristal, combinando com os elegantes lampies e as luzes das vitrines das lojas de artigos finos importados. As revistas mundanas e os colunistas sociais da grande imprensa incitavam a populao afluente para o desfile de modas na grande passarela da pg. 82 Avenida, os rapazes  no rigor smart dos trajes ingleses, as damas exibindo as ltima extravagncia dos tecidos, cortes e chapus franceses. A atmosfera cosmopolita que desceu sobre  a cidade renovada era tal, que s vsperas da Primeira Guerra Mundial, as pessoas ao se cruzarem no grande bulevar no se cumprimentavam mais  brasileira, mas repetiam uns aos outros Vive la France (SEVCENKO, 1998, p.26).

A partir do que aconteceu no Rio de Janeiro, modernizao e progresso tornaram-se, ento, as palavras-chave para os processos de interveno no urbano em diversos momentos e espaos da histria do pas.
Se o paradigma de modernidade no sculo XIX foi a Paris de Haussmann, inscrevendo mudanas no espao urbano a exemplo do que se deu na capital brasileira, que por seu turno, constitui-se modelo para outras cidades no pas, no sculo XX passou a ser Nova Iorque, que sob a tutela das aes de Robert Moses nas dcadas de 1950 e 1960, projetou a cidade como cenrio das constantes transformaes e palco da velocidade, representada pelas vias rpidas.
Sob a gide de tais influncias, em especial a partir da dcada de 1950, as prticas urbansticas contemplaram a tcnica em detrimento da arte. O Brasil inflamava-se com o concurso para a construo de Braslia. Nesse momento do nacional-desenvolvimentismo, os discursos respaldavam-se no desejo de superara viso de subdesenvolvimento que envolvia o pas. Assim, as posies adotadas nesse sentido instauraram-se nas cidades, em maiores ou menores propores, como salienta Bresciani (1993, p,10) atravs de "intervenes radicais, desconsiderando a densidade histrica ou preservao de edifcios e seus entornos, de bairros, da rea central como monumentos de uma poca, das marcas particulares e identificadoras".
Em Guarapuava, Estado do Paran, sul do Brasil, que at meados da dcada de 1950 apresentava traos de uma cidade de "modelo colonial", observou-se, com base nas fontes pesquisadas, que os dirigentes polticos, representantes da elite local, investiram-se igualmente desse discurso de modernizao e progresso, que, transposto para o campo visual, corporuficar-se-ia nas fachadas das edificaes que foram construdas a partir de ento. Em sintonia com as idias de um urbanismo progressista, principalmente nos anos 60 e 70, houve transformaes no tecido urbano que refletiam a vontade de superar o arcaico, estampado nas fachadas das casas herdadas do perodo colonial, e buscar o futuro representado particularmente pela pg. 83 idias da verticalizao, da construo de avenidas rpidas e demarcao dos espaos pasagsticos e de embelezamento da cidade.
Nos anos 70, auge das demolies, muitos palacetes e casas construdas no perodo do Tropeirismo foram derrubadas para dar lugar s "modernas construes", ou ainda, para esvaziar terrenos  espera de valorizao imobiliaria. J os anos 80 so marcados pela difuso dos discursos de verticalizao. Uma nova configurao do quadro urbano constituiu-se a partir da remodelao, inclusive das vias e logradouros pblicos. Por tais prticas, as elites locais entendiam que a cidade estava, por fim, integrando-se ao projeto de modernizao. Porm, no se pode desconsiderar que essa modernizao implicou a destruio de lugares identitrios e, por conseguinte, o estabelecimento de outras praticas do espao urbano.
Assim como os casares da infncia, os clubes, bares e casas de comrcio deixaram de existir, igualmente a transformao do espao legou ao desaparecimento os passeios realizados a p ao longo da Rua XV de Novembro, constituindo as chamadas "avenidas" bem como, as conversas nos bancos da Praa IX de Dezembro, as paqueras com servio de auto-falante e os folguedos infantis em frente as casas de estilo colonial, lamentado, em tom saudosista, por cronistas locais que presenciariam as transformaes da cidade, a exemplo de Joo do Planalto, Heitor Izidoro, Nikon Tembil e Luiz Cleve Teixeira.
Obviamente, novas formas de vivenciar a cidade foram estabelecidas em atendimento a outras dinmicas urbanas que reiterem, por certo, as mudanas que so inerentes  histria. Nesse sentido, desponta no sculo XXI uma Guarapuava moderna que em seu traado poucos vestgios da cidade de "modelo colonial" mantm. Entretanto,  pelas crnicas recuperam-se fragmentos de uma cidade que deixou de existir materialmente  medida que a apresentam enquanto texto, imprimindo-lhe "certa legibilidade" em relao s mltiplas escritas que a integram. Em  contato com a cidade dos cronistas, encaminham-se as leituras no sentido de compreender os fragmentos, os trechos apagados pelo tempo, as cidades sucessivas que se sobrepuseram umas s outras, ainda que sob o mesmo nome. Em palimpsesto, portanto, permitem entrever as experincias e vivncias que remetem a uma outra temporalidade, despertando o passado ao evocarem a memria. Na concepo de Pesavento (1999, p.305), "o cronista  capaz de olhar a cidade transformada e ver, por  detrs das fachadas novas, as velhas casas que um dia l estiveram. Essa capacidade pg. 84 de reencontrar um 'tempo perdido' e recuper-lo pela lembrana, tem, sem duvida, um sabor nostlgico, sem que, necessariamente, o narrador deplore a mudana havida".
Com efeito, mediante as palavras, que cruzam fugar e metfora, esboa-se uma simbologia que confere a revelao de outras cidades em meio quela observada de forma a remeter a construo de identidades, o que, por seu turno, apresenta-se como campo profcuo ao historiador na medida em que possibilita construir a sua prpria representao. O espao citadino descrito, nessa perspectiva, leva o leitor a nele reconhecer ambientes repletos de representaes que, como lembra Mafessoli (1996, p.277), traduzem "sensaes, odores, rudos, lugares de encontro, constitutivos dessa teatralidade cotidiana".
Destarte, a narrativa reconstitui a flanrie, permitindo o reconhecimento da cidade ao construir sentidos seus estilhaos. Traando, com as letras, mapas da vida urbana, acabam por legitimar a histria e a memria, incitando leituras plurais, ao que Certeau denominou ser "o mais desmesurado dos textos humanos - a cidade".

Referncias
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TEXTOS JORNALSTICOS E O FIO DA HISTRIA DA CONSTRUO DA VIA FRREA EM GUARAPUAVA
Zeloi Martins dos Santos, UNICENTRO
O presente artigo analisa a construo da via frrea em Guarapuava pelo ponto de vista das notcias veiculadas nos jornais locais, no perodo, considerando a imprensa escrita como co-autora da construo do processo de organizao poltica e cultural de uma sociedade, pois segundo Bethania Sampaio Correa Mariani (1988, p.33), "alm de acompanhar o movimento da histria, a prpria imprensa tambm se faz sujeito do processo histrico, seja contribuindo na forma da memria social, seja formando a opinio pblica".
A perspectiva terico-analtica fundamenta-se no conceito de modernidade para explicar as transformaes scio-culturais e sua ambigidade, decorrentes do processo histrico da implantao desse sistema virio de transporte, e o que se pretende evidenciar  que a estrada de ferro em Guarapuava pode ser identificada como signo de modernidade.
O propsito foi compreender metodologicamente o percurso das notcias referentes ao transporte ferrovirio em Guarapuava, editados pelos jornais locais no perodo de 1920-1950. O iderio discursivo a respeito da ferrovia em Guarapuava teve como representante o personagem histrico, Antonio Lustosa de Oliveira, fundador do Semanrio "O Pharol" e o jornal "Folha do Oeste".
Os jornais defendem diferentes pontos de vistas para os acontecimentos narrados, e revelam a diversidade dos aspectos culturais e de opinies poltico-ideolgicas da sociedade diante de um acontecimento novo. Pg. 87 A possibilidade de reescrever a histria da construo do ramal ferrovirio de Guarapuava sob perspectiva das experincias passadas veiculadas pela imprensa local a respeita da implantao, da reivindicao e funcionalidade do trem, pautam-se na anlise das consideraes de Walter Benjamin (1985, p.8), que evidencia nos seus estudos a questo a respeito da 

1 Os jornais locais do perodo foram "O Pharol", a partir de 1920 e o jornal "Folha do Oeste", a partir de 1937. Como preocupao metodolgica teve-se por objetivo evidenciar trs questes: primeiro, o discurso do governo local solicitando a construo de uma via frrea que viesse mudar as condies do transporte para Guarapuava e localidades vizinhas. Segundo, o discurso jornalstico do redator que taz crticas s autoridades competentes pela morosidade na implantao da via frrea. Terceiro, artigos escritos pela populao e editados no jornal com reivindicatrios ao governo do Estadual  e Federal em favor de melhorias para a cidade como a construo da ferrovia e a conservao das estradas de rodagens.
realidade observada por meio da palavra "Erfahrung" , ou seja, delineando urna experincia com o passado.
Francisco Foot Hardman, em sua obra, Trem fantasma: a modernidade na selva, ao realizar sua anlise a respeito da construo da ferrovia Madeira-Mamor, evidencia que o trem remonta um "universo singular de representaes", o qual figurava como smbolo do otimismo industrial do sculo XIX. Entretanto, isso foii configurado como passado e  a imagem do trem que permaneceu no imaginrio popular foi a de atrativo dos parques de diverses ou do trenzinho de madeira ou eltrico do mundo infantil. Assim, o trem foi guardado na memria e permaneceu no imaginrio popular no como um elemento irreal, mas. sim, identificando-se como a lembrana de coisas vividas.
Para Marshall Berman (1986, p.16), modernidade  tratada em dois momentos: "primeiro, modernidade apoia-se na expresso ser moderno que  resultado das experincias ambientis vividaa ern busca de transformaes em todos os nveis da atividade humana; segundo, modernismo que apresenta conotaes de preferncias e aceitar inovaes".
Partindo do conceito do autor, modernidade insere-se num processo complexo. Portanto, admite que tudo que  moderno enfrenta como pr-condio um ajustamento  o qual determina ao historiador o sentido da ambigidade como processo de modernizao.
O conjunto de idias a respeito de modernidade no Brasil no perodo de 1920-1950, ocasio em que o pas passava por transformaes singulares, configura-se no Rio de Janeiro, capital do pas. Essa cidade exemplifica as transformaes frenticas em especial na organizao do seu espao urbanstico. Conforme Nicolau Sevcenko (1983, p.31) a idia de transformao implicava a  pg. 88

condenao dos hbitos e custumes ligados pela memria  sociedade tradicional, a negao de todos e qualquer elemento de cultura popular  que pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante, uma poltica rigorosa de expulso dos grupos populares da rea central da cidade, que ser praticamente isolada para desfrute  exclusivo das camadas aburguesadas.

Nesse sentido, a capital do Rio de Janeiro buscava a transformao dos usos e costumes da populao atravs da destruio da velha cidade, visualizando a construo do novo espao urbano. Desenvolve-se, a partir da, a idia de ligao do Rio de Janeiro com o restante do pas, atravs da criao de novos troncos ferrovirios, que modificariam a pasagem e o modus vivendi  das mais longnquas regies do Brasil. Foi nesse contexto que a idias da construo da ferrovia ganha sentido na fala dos polticos e dos jornalistas em Guarapuava no decorrer do perodo estudado.
Entende-se que modernidade pode vira ser as experincias vitais em busca de transformaes sociais, culturais e econmicas da comunidade. A anlise brevemente apresentada aponta para um entendimento de modernidade.
Conjuntamente com os jornais, foram utilizados os Relatrios Oficiais da Rede de Viao Paran - Santa Catarina, que constituem documentos fundamentais para responder as questes de ordem histricas e polticas a respeito do transporte ferrovirio do Paran.
Guarapuava, distante da capital do pas e sem assistncia do governo para as obras das vias de comunicaes, permanecia no isolamento, devido ao pssimo estado de conservao das estradas, e tambm pelo descaso das autoridades tanto federais como estaduais, em solucionar os graves problemas do interior do  territrio brasileiro.
Atravs das reivindicaes do discurso jornalstico se evidenciaram trs momentos com relao  construo da via frrea at a cidade: primeiro, deixava-se para trs a locomoo via carroa e a cavalo; segundo, vivenciava-se a utilizao de um meio de

 BENJAMIN, Walter. Magia e tcnica, arte e plstica: ensaios sobre literatura e histria da cultura. 2.ed. So Paulo, Brasiliense, 1985,253 p.  
transporte mais rpido; terceiro, a facilidade da nova forma de locomoo, atravs da via frrea. Era pela imprensa local que se veiculavam as manifestaes de desolamento pelas promessas do governo federal, estadual e municipal, no concretizadas em virtude de estarem envolvidos com outras questes. Pg. 89
A imprensa local veiculava as manifestaes de desolamento pelas promessas polticas no concretizadas, pois o governo Federal estava envolvido com problemas ligados  capital do pas.
O discurso jornalstico afirmava que:

Enquanto, no Rio de Janeiro, est o governo sacrificando a nao, gastando rios de dinheiro para hospedar suas magestades os reis Belgas, ns aqui, gastamos, tambm, as nossas esperanas de ouvir em breve, os apitos da locomotiva que j h mais de vinte anos, est em promessas de vir cortar os srtes de Guarapuava. Enfim, resignados, esperamos[...] (O PHAROL, 1920. p.1).

Guarapuava, assim, distante da capital e sem assistncia do governo para as obras das vias de comunicaes, permanecia isolada do restante do pas, devido ao pssimo estado de conservao das estradas.
Os trs momentos tratados acima revelam as experincias do passado e do presente vivenciadas pela populao, e a construo da via frrea determinaria mudanas nos hbitos e costumes e faria o ingresso na modernidade.
Entretanto seu futuro consignava uma irrealidade, porque a idias de a populao tomar-se passageira em uma locomotiva, conduzindo-se pg. 90 para o local desejado com mais rapidez e segurana, no passava de um sonho no momento presente devido aos percalos polticos e econmicos do pis.
Nesse sentido, a hiptese de uma experincia, no que diz respeito a um novo tipo de locomoo, estava prevista para uma realidade em mdio prazo e no em curto prazo como preconizava a imprensa local e o primeiro contrato estabelecido entre empreiteira construtora e o governo estadual. O que chama a ateno, porm,  notar que as prioridades populares coincidem com os repetitivos discursos de campanhas eleitorais, que contrastavam com as atuaes das administraes.
No momento em que Guarapuava buscava sua modernizao, foi eleito para prefeito, o senhor Ribeiro de Brito para o perodo de (1828-1932), o qual destacou na sua fala a preocupao com a conservao das vias de comunicao e a construo da via frrea.
[...] e a luz deste sol consiste na soluo de um problema, que  o problema mater o transporte do municpio. A via- frrea  que nos procura vem nos  trazer a navegao, na agitao do progresso, para os oceanos da civilizao, de todas as nossas riquezas, e  as grandezas todas entre ns existentes formaro a comunho correspondncia recpocra nos laos humanos e nas distncias geogrficas [...]  (BRITO, 1982, p.3).


3 Entende-se que as mudanas de hbitos e costumes em uma sociedade esto ligados ao universo cultural. Segundo Roberto Da Matta, cultura  "um mapa, um receiturio, um cdigo atravs do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam,  estudam e modificam o mundo e  si mesmas.  justamente porque compartilham de parcelas importantes deste cdigo (a cultura) que um conjunto de indivduos com interesses e capacidades distintas e at mesmo opostas transformam-se num grupo e podem viver juntos sentindo-se parte de uma mesma totalidade. Podem, assim. Desenvolver relaes entre si porque a cultura lhes fornece normas que dizem respeito aos modos mais (ou menos) apropriados de comportamentos diante de certas situaes". As colocaes do autor com relao ao conceito de cultura para a interpretao da vida social,  sugerem que, ao realizar uma leitura do social, deve-se observar que o indivduo segue regras, o que permite o entendimeto de determinadas situaes dentro do grupo ou da comunidade, e tambm a ao particular de cada indivduo. Compreender que "as regras que formam a cultura ou a cultura como regra" (DA MATTA, 1986, p.124) auxiliam na observao de como se d a interao do individual e do coletivo no contexto vivido. As regras  indicam parmetros, masi isso no exclui a possibilidade de sua atualizao ou reelaborao. Para fazer parte de uma determinada  comunidade, deve-se ter conhecimento dar regras que a orientam.
A fala do prefeito revela que o caminho de ferro seria a forma de transporte mais prtica, segura e rpida para o envolvimento econmico,  poltico e social de Guarapuava.
A maioria dos prefeitos ou governadores, aps eleito, no se preocupavam em agilizar rapidamente os compromissos polticos assumidos em campanha. Demonstrando assim a ambigidade com relao s promessas s reivindicaes da populao no que diz respeito  busca do progresso de Guarapuava.
Nota-se que a cidade, ao pretender ser moderna, ainda que complexada pelo seu atraso, demonstra atravs do discurso jornalstico as experincias ambientais vividas em busca dessa modernidade.

[...] o rudo diurno do caminho, h vrios anos jogou  com o crepitar de sua mquinas, o carro de boi e os cargueiros de muares das estradas, e os carroes morosos e pachorrentos. Vivemos o sculo da velocidade, assinalando em nossa pg. 91 terra maior e mais belo aeroporto do sul do Brasil, um presente do cu que o grande Presidente Vargas nos deu. Ao carro de boi, com sua musica infinda do pedao de xaxim entre o eixo e a roda, do carroo rangendo ao peso de 100 arrobas e dos cargueiros com duas sacas de sal caminhada de 40 de Antonina  Guarapuava [...]
Hoje, s falamos em caminho, nibus, automvel, avio e estrada de Ferro, sonho secular de Guarapuava, correm, porm, infelizmente rumores de que a ferrovia  vai sofrer um colapso na sua construo [...] (SIlVRIO, 1941, p.2).

Inmeros foram os artigos de pedidos e cobranas das promessas realizadas, para a continuidade dos trechos paratizados por falta de verbas ou por outros motivos destacados; era uma maneira constante de reinvidicar por parte dos jornais, desde o momento da criao do projeto ate a concretizao do via frrea de Guarapuava.  Estava sempre presente nesses discursos a idia de que a chegada da locomotiva na cidade significaria  o saldo para a modernidade.
Os artigos escritos nos jornais procuravam demonstrar que a populao j estava vivendo transformao no que dizia respeito  forma de locomoo: o automvel, o caminho, o avio j estavam presentes no cotidiano da cidade, porm a construo da ferrovia tinha sido paralisada, e isso determinava que o sonho do transporte ferrovirio mais uma vez estava ameaado de no se tornar realidade.
O conjunto de experincias vividas revela que em qualquer tempo histrico o homem est em contnua transformao, ou seja,  moderno, mesmo quando visualizado no passado. As experincias vividas no perodo de 1920-1950, estudadas a partir da anlise discursiva dos jornais locais, determinaram um processo de transformao cultural, enquanto Guarapuava coloca-se como cidade em busca de modernizao.

O jornal e construo do signo de modernidade
Os textos escritos nos dois jornais deixaram transparecer a emergncia de trazer  para  a regio uma nova turma de locomoo, mais rpida e gil, facilitando o movimento das pessoas que chegavam e saam da cidade. Este movimento determinaria a presena de novas idias, provocando mudanas emergentes, cujo signo seria a estrada de ferro. Pg. 92

O justo empreendimento  pelo qual  tanto se tem batido aqueles que sinceramente desejam a prosperidade e grandeza deste municpio vai, dentro de cinco anos, ser uma realidade: foi assinado o contrato com a empresa E.F.S. Paulo-Rio Grande no dia 23 do corrente, para dentro de prazo mximo de cinco anos, dar em trfego a estrada de ferro  est cidade (O PHAROL, 1920. p. 1).

A notcia transmitida pelo relato jornalstico demonstrou a busca de uma modernidade emergente para Guarapuava. No entanto, observa-se de imediato uma contradio dessa necessidade, pois ocorrem duas situaes diferenciadas: primeira, o contrato estabelecido entra a empresa empreiteira  e o governo estadual previa uma construo em cinco anos; segunda, este no foi cumprido, pois a construo da ferrovia ligando Curitiba a Guarapuava teve suas obras finalizadas somente em 1954.
Assim, a espera da ferrovia pela populao de Guarapuava, a partir de um contexto real em curto prazo, tornou-se um elemento irreal porque a construo dessa estrada levou trinta e cinco anos para ser concluda. Esta situao contradiz a fala jornalstica, que induzia a populao a acreditar num progresso imediato. Nesse entender, ocorre a ambigidade do processo de modernizao para Guarapuava, pois a implantao da ferrovia s aconteceu de forma real em mdio prazo.
Nesse sentido, a imprensa escrita, ao longo do perodo, teve participao continua sem se desvincular das informaes, e buscando sempre dar noticias a respeito das reivindicaes polticas em favor da construo da via frrea, construindo um discurso jornalstico, que sempre deu prioridade  idias de mudanas, tanto sociais como econmicas, que o trem iria proporcionar  populao de Guarapuava.
Nesse meio tempo, entre a espera da construo da ferrovia e da chegada do trem, a prpria imprensa local informava a precariedade em que se encontravam as principas vias de acesso a cidade, bem como de outras localidades do Estado. A situao se tornava crucial e suscitava debates na imprensa. Esta veiculava noticias diversas e solicitava apoio das autoridades governamentais para que se fizesse o reparo das vias de comunicao e agilizasse a construo das estradas de ferro.
As principas manchetes que ilustravam as primeiras pginas dos jornais destacavam as condies precrias das rodovias, o que tornava difcil o desenvolvimento do comrcio local, que no tinha como colocar seus pg. 93 produtos, como a erva-mate e a banha, em outros mercados devido  m conservao das rodovias e o alto preo dos fretes.
Assim, os jornais como meio de comunicao escrita se revelam veculos de opinio publica ao se proporem defender a causa do povo, enfatizando que uma viagem entre o municpo de Guarapuava e Prudentpolis era feita no decorrer de quatro dias.

Para dar idia do modo quase intransitvel em que se acha a referida via de comunicao, basta dizer que, uma carroa fechada, por  4 cavalos bons e somente com passageiros, gasta daqui a Prudentpolis, que so 12 lguas, a ninharia de quatro dias  de viagem  ou sejam, o valente percurso de 3 lguas por dia (O PHAROL, 192o,p.1).

O jornal questionava a falta de atendimento por parte do Secretrio Geral do Estado, que deixou o problema de conservao das rodovias entregue aos cuidados da prpria natureza, ironizando a situao precria dessas vias. Ou seja, "o engenheiro geral; o sol", sendo que as estradas "ficavam a merc do tempo, quando elas eram favorecidas com o calor benfico dos raos do sol (O PHAROL, 1920, p. 1). Observa-se o cunho irnico, de tom literrio, que o jornalista emprega ao personificar os elementos da natureza como nicos responsveis pela conservao das rodovias.
Em um prazo menor, a populao no deixou de acreditar que, hoje ou amanh, o Paran teria a necessidade de expandir o caminho frreo at o Oeste, pois o desenvolvimento do comrcio impunha essa necessidade. Nesse contexto, "a cidade aguarda o cortar das matas pelo apito da locomotiva". E no desenrolar desse processo, renasceram as esperanas da populao, porque um representante da regio, Afonso Camargo, chegou a governador de Estado, com o compromisso de tornar realidade o sonho esperado.
A noticia espalhou-se, como por encanto; a populao participou de uma passeata organizada pelo jornal - PHAROL, que conseguiu um grande apoio, pois a cidade recebia um volume maior de pessoas vindas para as eleies federais de 1928 e para a festa do Divino Esprito Santo. Discursos foram feitos em agradecimento, e esperanas em busca do progresso, que a via frrea traria para a regio, foram renovadas. Pg. 94
J os documentos oficiais da Rede Ferroviria Nacional demostraram que o projeto de construo da ferrovia ligando Curitiba a Guarapuava levou oito anos para ser colocado em prtica, pois somente em 8 de Janeiro de 1928 a Companhia Brasileira de Viao e Comrcio foi obrigada a comear a construo da linha frrea.
No entanto, essa viso de progresso determinada pelo inicio da construo foi interrompida pelo movimento revolucionrio de 1930, porque as mudanas polticas no Brasil no privilegiaram de imediaio as reivindicaes das paranaenses. Assim, a implantao da ferrovia em Guarapuava, apesar da determinao da lei e do fato de os trabalhos j terem sido iniciados, foi paralisada temporariamente.                        
As novas diretrizes governamentais mudam toda a estrutura administrativa  tambm em nvel Estadual, passando a construo da estrada de ferro para o domnio do Governo Federal, mediante entendimento, determinado pelo Decreto Estadual n.967, de 23 de abril de 1934, e o Decreto Federal n. 447, de 22 de novembro de 1935, com adendo de que o acervo da estrada de ferro - Guarapuava ficando livre e desembaraado de nus. Isso provocou o reinicio da construo da linha sob a direo da Rede Ferroviria Nacional.
Nesse contesto, o discurso Jornalistico da Folha do Oeste revela no s o acontecimento histrico como tambm as mudanas ocorridas aps a revoluo de 1930. Os artigos trazem mensagens que demonstram a ideologia do govemo, ou seja, o patriotismo elevado e o nacionalismo imposto pela ditadura varguista.
Esse governo apresenta um discurso voltado para a modernizao do pas, com um dos objetivos de construir estradas no sentido de unir o norte ao sul do pas, Esta perspectiva  encampada pela Folha do Oeste que retoma a questo da construo da ferrovia em Guarapuava. Evidencia-se a idias do progresso para a regio, explicitada na manchete "Rumo ao oeste - a sentena do grande presidente Vargas e a estrada de ferro de Guarapuava" (FOLHA DO OESTE, 1936,p.1).
O discurso jornalstico deixou transparecer que o Governo Federal buscava a realizao das propostas do passado, como colocar em prtica a idia do engenheiro do Perodo Imperial - Andr Rebouas, da construo de uma Estrada de ferro que ligasse Paranagu a Assuno. Assim, a continuidade da obra, que se encontrava paralizada no trecho Guarapuava, possibilitaria a realizao do mesmo traado, porm com algumas diferenas do projeto iniciado pg. 95 no sculo XIX. Essa determinao revela no s as experincias do passado, como ainda o cotidiano do Brasil e o seu processo de busca para modemizar o meio de transporte e comunicao.

Vivar uma paca, sob a gide de um regime novo, que o povo reclamou e o grande presidente Vargas implantou. E do primeiro magistrado da nao que vem o convite s populaes e a ordem de marcha, na sntese desta sentena salvadora: Rumo ao Oeste.
Agora ningum nos ilude a convico de que em breve teremos a nossa estrada de ferro pois essa obra de interesse nacional, concretiza, tambm, urna promessa do dinmico Manuel Ribas, feita ao assumir a Interventoria: Construirei o Porto de Paranagu e levarei as paralelas de Ao a Guarapuava (FOLHA DO OESTE, 1942, p.1).

O discurso jornalstico continuou sendo o porta-voz da busca da modernizao de Guarapuava, atravs da construo da sua via frrea, divulgando de um lado, as dificuldades polticas e econmicas, as quais ocasionavam o atraso, e, de outro, as promessas que no se tornavam realidade.
O jornal  um dos meios pelo qual a populao se mantm informada a respeito do desenvolvimento dos trabalhos da construo da estrada de ferro e dos problemas a ela referentes:

J quase um ms, foram aprovados pelo General Eurico Gaspar Dutra, eminente presidente da Repblica, os estudos e oramento para a construo do trecho de 30 quilmetros do ramal ferrovirio Riosinho - Guarapuava; quilmetro 95, estao de Gis Artigas, at o quilmetro 124, na margem esquerda do rio Jordo, a 5 quilmelros desta cidade (FOLHA DO OESTE, 1946. p, 1).

Essa notcia exterioriza a alegria da populao, que espera o reincio das obras para finalizar os trinta quilmetros de trilhos que faltavam para a estrada de ferro alcanar a cidade. Mas, sua concluso somente foi efetuada com o retorno de Gellio Vargas, na conjuntura de 1950-1954. quando se deu continuidade aos trabalhos da construo da ferrovia at Guarapuava e enfim tornou-se realidade um desejo antigo da populao.
A manchete mais esperada pela populao foi veiculada pela Folha do Oeste que anunciava a data da inaugurao oficial da estao  ferroviria: pg.96

Posso comunicar aos meus contenporneos e  todos os brasileiro que habitam est abenoada terra, que o oportuno apelo dirigido pela deputado Lustosa de Oliveira ao Sr. General Iber de Matos, ilustre superintendente da Rede Viao       Paran-Santa Catarina, foi muito bem recebido, ficando assim, marcada a data de 9 de dezembro... para inaugurao oficial da estao ferroviria desta cidade (FOLHA DO OESTE, 1954, p,1).

Seguem as notcias fazendo apelo para que a populao se prepare para os festejos dos 135 anos de fundao da cidade, e juntamente a inaugurao da via frrea, onde todos deveriam participar para engrandecer o evento, mas, por motivos diversos, a data foi transferida  para os dias 28 e 29 de dezembro.
Ao se questionar como a populao de Guarapuava viu a chegada do trem no momento em que o poder executivo municipal, associaes do comrcio local, autoridades representantes da regio e moradores do ncleo central discutiam a importancia da chegada da ferrovia, para a facilidade do transporte tanto de carga como de passageiros, visualizavam-se duas posies contraditrias: de um lado, o progresso pela chegada de pessoas visitantes de outras regies do pas, com novas idias e novas experincias para aplicar no desenvolvimento da cidade; de outro, a crtica desfavorvel, porque parte da populao no aceitava mudanas em seus usos e costumes.
Assim, ocorreu a ambigidade do pensamento da populao sobre a b questo da ferrovia, mostrando que o imaginrio de uma parte da populao continuava ligado ao passado, no aceitando as transformaes ocorridas na regio.

Devido ao acmulo de gente de fora, que aqui esteve presente, passou quase despercebida a ausncia de maior nmero de pessoas humildes do interior guarapuavano, e  a razodireta dessa ausncia, somente agora est sendo conhecida. Sabido , que a  chegada de uma estrada cde ferro e, nossa  cidade, era um "velho e acalentado sonho, que levou quase um sculo para ser concretizado em realidade. Por isso, a gente simples do serto, acreditava que,ao realizar-se uma coisa que parecia impossivel, o mundo iria se acabar [..] e do cataclisma somente se salvariam as pessoas  que embrenhassem para o interior da casa verde ... que  pg. 97 floresta de nossos sertes, onde no atingiram, ainda as malezas da corrupo materialista previstas pelos profetas (FOLHA DO OESTE, 1955, p.1).

O discurso jornalstico, fio condutor da histria da implantao da ferrovia em Guarapuava, revelou que a idia de progresso no foi assimilada por toda a populao. Isto significa que enquanto os moradores da zona urbana, em grande parte, compartilhavam do turbilho de mudanas, uma outra parte, a localizada no meio rural, em grande maioria, segundo o jornal, se alienou dos sonhos de progresso, com a chegada da locomotiva.

Concluso
A modernidade representada pela locomotiva nos locais por onde ela passou gerou mudanas, lutas e contradies aos moradores e todos os envolvidos com a questo.
Nessa perspectiva, a imprensa de Guarapuava produziu uma nova forma de comunicao - a informao da chegada e da espera do trem pela populao, o qual foi instrumento de ordem pblica, personificado na fala do jornalista e do poltico, demonstrando para a histria o predomnio das experincias individuais.
O trmino da estrada de Ferro em Guarapuava significou as mudanas de locomoo e transporte, se determinou como elemento real, que provou o sentido da ambigidade da modernizao da cidade. Isto , a via frrea provocou naquele presente o ajustamento e o desajustamento scio-cultural e econmico, pois enquanto determinou a agilidade necessria para o escoamento dos produtos agrcolas e de consumo no flexibilizou a aceitao do trem por parte da populao, Esta situao revelou que o transporte ferrovirio demonstrou na prtica as experincias vitais dos homens, identificando-se no passado como signo da modernidade para Guarapuava.
O imanente desejo de modernidade que afeta permanentemente o ser humano, manisfestou-se concretamente na histria de Guarapuava com o sonho da construo da estrada de ferro, que ao mesmo tempo foi anseio e receio da populao que viveu essas experincias do passado. Neste entender, a comunidade buscava na via frrea a soluo para o progresso pg. 98 do transporte e entre tantos problemas vivenciados, finalmente no ano de 1954, os trilhos chegaram a cidade, na estao ferroviria de Guarapuava.

Referncias
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PLANALTO, J. Reparos. Folha do Oeste, Guarapuava, n.67 janeiro/1955, p.1.
REDE VIAO PARAN - SANTA CATARINA. Relatrios. Curitiba: RVPSC, 1935, 1936, 1937,1944,1945.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como misso: tenses sociais e criao cultural na primeira repblica. So Paulo; Brasiliense, 1983. pg. 99
SILVRlO, A F. Guarapuava desperta ao silvo da locomotiva. Folha do Oeste, Guarapuava, v.2, n.67, abril/1941, p.2. Pg. 100


O PROBLEMA DO ENSINO DE HISTRIA: PERSPECTIVAS, LIMITES, COMPETNCIAS
                                             Edgar vila Clareira
Manuel Moreira da Silva
  UNICENTRO

Consideraes preliminares
Pretende-se aqui tematizar o problema do Ensino de Histria no mbito concreto da vivncia do professor em sala de aula - mas tambm a do aluno - a partir dos pressupostos mais elementares que informam a epistemologia do professor em seu 

Sobre a noo de epistemologia do professor, ainda numa perspectiva diversa da aqui desenvolvida, veja-se, BECKER, Fernando.  A espimologia do professor: O cotidiano da escola, Petrpolis: Vozes, 1993.
trabalho cotidiano; no caso, a epistemologia do professor de Histria, Trata-se, mais precisamente, de se pr em questo algumas representaes at certo ponto comuns que de um modo ou de outro ainda hoje norteiam o ensino e o aprendizado de Histria e que, por isso mesmo, tm ensejado certas posturas - agora na esfera da Escrita da Histria - cuja especificidade cada vez mais nos parecem distanciar-se da Histria efetiva e do conceito rigoroso de Histria nela implicado. Discutiremos inicialmente algumas situaes complexas vivenciadas em sala de aula, o modo com as mesmas tm sido consideradas no tocante  compreenso vulgar dos aspectos fundamentais da situao histrica e a sua relao com a conformao do conhecimento histrico e a Escrita da Histria como tais; depois disso, buscaremos pr em questo algumas tarefas julgadas como competncias necessrias a serem desenvolvidas pelo ensino de Histria e os seus pressupostos constitutivos. Por fim, a ttulo de concluso, tentaremos apresentar alguns elementos que possam se mostrar plausveis na mediao do Ensino de Histria e a Escrita pg. 101  da Histria,2 bem como da vivncia de situaes complexas e o trabalho com o desenvolvimento de competncias nos limites do Ensino de Histria.
Na perspectiva que aqui fazemos nossa, pensamos ser possvel uma concepo do Ensino de Histria em consonncia com a prpria Escrita da Histria; situao em que, mais que professores e mais que alunos, professores e  alunos se mostram como sujeitos de um processo de reconhecimento por definio inacabado e que sempre ainda permanece por se perfazer, isso implica repensar certas situaes histricas e culturais que, como tais, se pem como objeto de estudo da Histria e como objeto de trabalho ou de ensino na disciplina escolar designada Histria; o que, em sentido pragmtico, pe-se como o problema mesmo que, no tempo circunscrito de uma aula de Histria, exatos cinquenta minutos para sermos precisos,  dado ao professor de Histria solucionar. Mas isso como se ele fosse no s o perito mais eficaz a quem  dado por direito o poder da palavra, mas tambm, e na memria das vezes um simples repetidor de frasea feitas e de opinies  j cristalizadas cujo aprendizado real ou mera assimilao por parte do aluno seria como um simples caso de favas contadas e no imporia nenhuma questo relevante. Enfim, ainda que poucos tenham se voltado para isso nos dias que correm, o carter complexo desse tipo de situao tem se mostrado cada vez mais tanto no cotidiano do Ensino de Histria quanto no mbito dos estudos acerca do valor epistmico da Histria e suas distintas ou, mais precisamente, fragmentrias concepes; esse, o fenmeno tpico de nosso tempo chamado ps-moderno e que, a rigor, deveria mesmo ser denominado ps-histrico.
Ainda que parea absurdo, isso no  mais que o sintoma aparente de um tempo histrico onde o Histrico no  mais que o que pode ser descrito ou interpretado segumdo os cnones de certa hermenutica historicizante. Onde,ao contrrio da formao humana -  histrica e cultural em sentido pleno -, o que s pode se dar pelo efirentamento concreto com a diversidade de situaes impostas pela realidade objetiva concebida universalmente e desenvolvida de modo imanente segundo o econhecimento intersubjetivo a pressuposto; a Histria  de modo semelhante s outras cincias -, v-se a cada dia reduzida a um pg. 102 instrumento cuja eficcia deve ser provada, indo alm do enclausuramento da disciplina em si mesma. Que competncias e habilidades construam-se historicamente, isso  ponto pacfico; porm, salta aos olhos de qualquer um o no-lugar das competncias e habilidades prprias do aprendizado de Histria, a saber: o pensar a partir de um plano historial e o manuseio consciente de representaes 
Histricas. Eis a, em suma, o objeto da presente investigao.




 Compreendemos aqui o termo Histria como referente tanto ao campo de conhecimento pertencente s chamadas humanas como a disciplina escolar a ele vinculada
 Trata-se da concepo  dialtica do desenvolvimento da sociedade e da Histria, em especial, da concepo dialtica do reconhecimento recproco; por conseguinte, da Educao em geral  como formao histrica cultural  e do ensino de Histria em particular.
	O ensino de histria e a escrita da histria, ou a vivncia de situaes complexas em sala de aula
H muito se considera o Ensino de Histria como tendo  a tarefa de despertar no aluno o sentido da crtica e da conscincia em seus mais diversos nveis; em especial, a crtica de situaes concretas e o desenvolvimento da conscincia histrica. Exemplo disso  o falo da definio do objeio de trabalho numa aula como sendo o estudo de situaes histricas; o que, devido ao seu carter ambguo, pode significar ao mesmo tempo tanto que numa aula se trabalha com o estudo de situaes histricas quanto que se estuda efetivamente situaes histricas. No primeiro caso, onde o estudo de situaes histricas se pe como objeto de trabalho, est-se diante de uma questo epistemolgica mais que de uma questo histrica; no segundo, quando so as prprias situaes histricas que esto em jogo, pe-se o problema da vivncia mesma dessas em sala de aula e, justamente por isso, da relao entre o Ensino de Histria e a Escrita da Histria. Justamente aqui, quando se abstrai da questo da consistncia epistemolgica do estudo da Histria e se parte diretamente para o estudo dessas questes, sobretudo quando se trata de situaes vividas em sala de aula, impe-se o problema da epistemologia do professor.
Nesse caso, a noo de situao histrica  geralmente reduzida a trs ou quatro elementos, em afirmativas simples, neutras e definitivas do tipo "D. Pedro I proclamou a  Independncia do Brasil em 7 de setembro de 1822. Ora, para um grande nmero de professores ( igualmente de alunos, de pas e de mes) esles so os aspectos fundamentais da situao histrica a exemplificada: o fato "Proclamao da lndependncia, o seu ator "D. Pedro I" e a data de ocorrncia "7 de setembro de 1822"; os quais, ao fim e ao cabo, sero inclusive cobrados em provas e vo "cair no vestibular. Pois bem, depois de muitos anos afastado da escola, talvez seja apenas pg. 103 parte disso que o aluno se lembre acerca de tal situao histrica: ele consegue associar o fato da Independncia do Brasil com o nome de D. Pedro I, mas j esqueceu a data, por exemplo. Por trs disso, enfim, temos um conceito de Histria operando e uma determinada modalidade de conceber a verdade histrica que, na maioria das vezes, no so sequer  postos em questo pelo professor. Desse modo, independente das concepes de Histria e dos modos como cada uma concebe a verdade histrica, algo como a crtica de situaes histricas e o desenvolvimento da conscincia histrica terminam por se limitar a simples tomadas de posio acerca do que  posto em questo nas situaes histricas e das foras que ai se confrontam.
Pensamos que a orientao do aluno para o estudo de situaes histricas complexas implica lidar epistemicamente com o processo de reescrita da Histria e de divergncias ideolgicas presentes no desenvolvimento da cincia em geral e das cincias humanas em particular, especialmente de Histria. No entanto, a forma como isso tem sido concebido no parece dar conta do contedo prprio que se faz presente; de onde, em geral, a transformao do Ensino de Histria numa simples oportunidade de aprendizado de elementos terico-metodolgcos da Escrita da Historia. O que, para alm de sua resoluo metodolgica, parece pr em questo o estatuto ontolgico da Histria como Cincia, a saber, o elemento de sua necessidade e o elemento de sua universalidade; a rigor, a necessidade do seu objeto e a universalidade do seu mtodo - em suma, o ser histrico e a representao histrica propriamente ditos, Tal  o que, a nosso ver, permanece ainda no tematizado em praticamente todas as perspectivas e tendncias da Escrita da Histria; a ttulo de exemplo, consideremos o ponto de vista de Jos Carlos Reis(1999, p.7-9) aqui resumido:

Os historiadores reescrevem continuamente a histria. E o fazem por  duas razes  principas: Em primeiro Iugar, pela especificidade mesmo do objeto do conhecimento histrico: os homens e as sociedades humanas no tempo. O sentido dos processos e eventos humanos, que so temporais, no  conhecvel imediatamente. Os homens e as sociedades humanas, por serem temporais, no permitem um conhecimento imediato, total, absoluto e definitivo. A histria s se  toma visvel e apreensvel com a sucesso temporal. A reescrita contnua da histria torna-se, ento, uma necessidade. [...] Em segundo lugar, a histria  reescrita porque o conhecimento histrico muda, acompanhando as mudanas da histria. Novas fontes, novas tcnicas, novos conceitos e teorias, novos pontos  de vista levam  reavaliao do passado e das suas interpretaes estabelecidas. [...] O passado , ento repensado e ressignificado de forma renovada e fecunda. Pg. 104

A premissa a posta como fundamento  a reescrita contnua da Histria, a qual se justifica em razo da especificidade do objeto de conhecimento histrico - os homens e as sociedades no tempo - e suas modificaes no mbito da sucesso temporal. Entretanto, j na primeira razo um problema epistmico se faz presente: por um lado., se afirma que o objeto do conhecimento histrico" so "os homens e as sociedades humanas no tempo", por outro se estabelece que "o sentido dos processos e eventos humanos, que que so temporais, no  conhecvel imediatamente"; o que, a rigor, implica dois objetos ou dois planos distintos considerados indistintamente. No caso, o objeto material - emprico e contingente  que so "os homens e as sociedades humanas no tempo" e o objeto formal - ideal e necessrio - que se constitui como "o sentido dos processos  e eventos humanos"; de onde emergem ou se confundem pelo menos dois conceitos contrapostos de  Histria e dois modos de se conceber a verdade histrica. Tudo se passa como se - em "o sentido dos processos e tivemos humanos" - "o sentido" (ai  suposto como ideal e subjtivo de um lado e, de outro, por definio, como imutvel e atemporal) se reduzisse ao prprio tempo e, assim, no fundasse os "processos e eventos humanos" meramente empricos e objetivos ou mutveis e temporais; o que, a rigor, se explica pela perda do ser propriamente histrico e sua tematizao na Escrita contempornea da Histria. As conseqncias disso na esfera do Ensino de Histria so notveis, vejamos algumas delas.
Numa tpica aula de Historia, o professor parte de problemas contemporneos, questes do chamado "mundo de hoje", temas que habitam o universo do aluno e afeioam o seu presente; elementos que, portanto, constituem o aluno. Para cada questo, ele busca investigar as concepes dos alunos, seus saberes acerca do tema, suas dvidas, e, a partir da, orienta-os na elaborao de um roteiro para conhecimento do tema, servindo-se dos conhecimentos da Histria e do conjunto de conceitos da rea das Humanidades, que vo, de certa forma, interrogar e colocar em xeque as concepes anteriores. Nessa medida, o professor procura retirar o aluno daquilo que ele considera o "presente contnuo", daquela "sucesso de instantes" em que o aluno est imerso e que o impede de ter um raciocnio histrico acerca do mundo. Desse modo, se acredita que o objetivo do ensino de Histria - como se diz; "utpico, embora parea pretensioso -  justamente colocar o aluno no tempo,  torn-lo um ser histrico. Pg. 105
Confrontemos, pois, alguns dos conceitos acima aludidos e seu uso nos dois discursos aqui presentes. De um lado, em sua epistemologia e no mbito de sua experincia vivida em sala de aula, mas tambm nos quadros de uma consonncia perfeita com curta concepo da Escrita da Histria - no caso, a ttulo de exemplo, apresentamos aqui o ponto de vista de Jos Carlos Reis,4  o que no significa que no possa apresentar-se tambm outras concepes, como a de Le Goff5  -, o professor de Histria identifica sob os termos 'presente contnuo' e 'sucesso de instantes' pelo menos dois conceitos distintos do tempo, respectivamente, o tempo csmico ou, a rigor, cosmolgico, e o tempo da conscincia ou, mais rigorosamente, o tempo psicolgico, cuja 
mediao constituiria o chamado tempo histrico, concebido como um terceiro tempo em


4 REIS, Jos Carlos. Tempo, histria e evaso. Campinas: Papirus, 1994, passim; sobretudo, p. 65 ss.
5 Ver, LE GOFF, Jacques. O imaginrio medieval. Trad. Manuel Ruas. Lisboa: Editora Estampa, 1994, passim; sobretuto, pp.83-142
suas diversas perspectivas6. Assim, mais que retirar o aluno do suposto "presente continuo" e da "sucesso de instantes" em que ele estaria imerso e que o impede de ter um raciocnio histrico acerca do mundo, tratar-se-ia de capacit-lo para ordenar a sucesso de instantes que j o constitui e que, portanto, ele , de modo que ele possa livremente conceber-se a si prprio tal como a seu mundo e a seu tempo.
De outro lado, em assim procedendo, seramos facilmente objetados por no estar levando a cabo a tarefa precpua  da Histria, a saber, colocar o aluno "no tempo" e torn-lo um ser histrico; o que, mais uma vez, se nos apresenta extremamente contraditrio -  pois, o estar "no tempo" implicaria justamente a imerso naquele presente chamado "'contnuo" ou na "sucesso de instantes" mais acima crticados e, desse modo, em no compreend-lo historicamente. Ora, por definio, para se "ler um raciocnio histrico acerca do mundo" faz-se necessrio estar alm do mundo e j t-lo organizado pelo menos sob a forma de um Cosmo natural, tanto quanto para se ter um pg. 106 mundo e nele vir a se constituir como um "ser histrico"; s assim  possvel  memria comear seu trabalho de fixao, avaliao e seleo  das afeces e afetos que a informam e que pouco a pouco iro constituir o fio do tempo vivido - ou melhor produzido - pela chamada conscincia em  seus mais diversos graus e nveis de compreenso de si mesma e de seus atos. De onde tambm a inadequao de certas apropriaes de assertivas como "o homem vive no tempo, na sucesso", de um lado e, de outro, "o mgico animal, na atualidade, na eternidade do instante"; as quais, se no discurso literrio no se mostram apenas belas, mas, sobretudo, sublimes, no discurso histrico elas se mostram no mnimo incongruentes. Contudo,  precisamente essa incongruncia que tem jusiificado a  exigncia de se mostrar aos alunos que tambm o conhecimento histrco  histrico ou que o mesmo se modifica e  reescrito; o que, embora correto  vlido lgica e epistemologicamente, no pode ser tomado de modo ingnuo e, portanto, meramente  formal, como verdadeiro e provado ntica e ontologicamente. Se se pudesse, estar-se-ia no melhor dos casos invertendo a mxima acima afirmada segundo a qual h que se retirar o aluno daquele "presente contnuo" e daquela "sucesso de instantes" em que ele est imerso, e que o impede de ter um raciocnio histrico acerca do mundo. Consideremos isso mais de perto, vejamos mais uma vez o que nos diz Jos Carlos Reis (1999. p.8-9):

[...] conhecer um mundo histrico  responder a esta  questo maior: como, em cada presente, as dimenses temporais do passado e do futuro foram postas em relao?
[...] A histria  a reconstruo narrativa, conceitual e documental, em um presente,  da assimetria entre passad e futuro. [...] O presente muda e, nesta sua mudana, o passado e o futuro so constantemente rearticulados, obrigando  reescrita da histria. Na experincia individual, por exemplo, o envelhecimento modifica a relao entre espera e experincia. Quando se  mais jovem ou mais velho, o passado e o futuro significam diferentemente, e sua relao se altera.

A cada passo em que acompanhamos o desenvolvimento dos textos de Jos Carlos Reis, ele se nos mostra no s como um bom conhecedor de Koselleck, mas, sobretudo, como seu fiel seguidor, pelo menos no sentido de que  sempre dado ao mestre a tarefa de revelar o esprito dos trabalhos do discpulo. Para Jos Carlos Reis, o esprito de seu trabalho As identidades do Brasil: de Varnhagem a FHC  revelado ou orienta-se pela concepo de Koselleck segundo a qual "o conhecimento histrico  tambm e ao pg. 107 

	6  Enquanto o tempo csmico  associado pelo autor ao discurso da Fsica e o tempo da concincia ao da Filosofia, ao tempo histrico  associado ao discurso das cincias sociais  cujo tempo a rigor seria o social  e no, mais propriamente,  Histria concebida como cincia rigorosa; o que resulta na afirmao de certa ambigidade do tempo histrico, que ao mesmo tempo,  e no  um terceiro tempo. Voltaremos a esse ponto mais adiante.

mesmo tempo histria da historiografia"; o que significa, fundamentalmente, que "o conhecimento histrico  ao mesmo tempo histria da histria" e, por conseguinte, reeditando tambm a j velha controvrsia alem entre o "interpretar" e o "explicar", to somente interpretao do passado. Ora, na medida em que essa concepo se funda na pressuposio da coincidncia crescente das interpretaes com os eventos e processos ou, o que  o mesmo, da convergncia progressiva dos eventos e processos e das interpretaes; ainda que se assegure aos historiadores do passado certo lugar s suas interpretaes e se afirma a tese do progresso do conhecimento histrico, o que parece em cada caso estar em jogo segundo essa concepo  apenas o arbtrio da experincia individual - como tal circunscrita aos prprios eventos e processos histricos que constituem o seu presente- em sua reconstruo dos eventos e processos por definio; ainda segundo essa concepo, pertencentes a outros tempos e, portanto, a outros presentes. De onde, por um lado, a defesa de um presente que muda e, nesta sua mudana, mantm passado e futuro constantemente rearticulados, obrigando  reescrita da histria; bem como, de outro lado, por conseguinte, a circunscrio de tal reescrita - cm cada caso - ao tempo vivido e, por isso mesmo, no ainda necessariamente consciente de seus limites espao-temporais, mas to somente dado na espera infinita e na experincia instantnea, como tal imerso na eternidade do seu instante. O que, em razo de no assumir o "presente contnuo" como condio da "sucesso de instantes" que possibilita a experincia de cada um consigo mesmo e com os outros, torna a prpria Histria - enquanto imersa no tempo  algo impossvel; e, com isso, impede tanto o raciocnio histrico de cada um em torno do mundo que em cada caso se lhe faz presente quanto o conceber-se a si prprio do ser histrico, bem corno de seu seu mundo.
Enfim, no esprito da temtica aqui explicitada  o Ensino de Histria e a Escrita da Histria no mbito da vivncia de situaes complexas em sala de aula- h que se reconhecer que trabalhar com a multiciplicidade de uma situao histrica traz uma srie de elementos complicadores", tanto para o processo de ensino e aprendizagem, quanto para o da Escrita ou reescrita da Histria, em especial os derivados do carter narrativo ou interpretativo dessa rea de conhecimento. Uma vez que o aluno perceba que existem diferenas de nomeao a respeito de um determinado evento, derivadas da posio que cada personagem ocupa na estrutura social  de pg.108 um lado os agentes histricos imediatos ou os atores que se apresentam no palco da Histria, de outro, os agentes histricos mediatos ou os escritores e intrpretes da trama histrica , ele pode ser levado a adotar um relativismo completo como forma de anlise, muito bem expresso em frases do senso comum, tais como "cada cabea  uma sentena" ou "o que vale  a verdade de cada um"; e isso fazendo jus  coincidentia oppositorum das interpretaes ingenuamente limitadas ao seu carter coincidente [a partir do ponto de vista de determinado tempo presente da Histria e nele circunscritas] com os eventos e processos a tem lugar.
Por isso, em ltima instncia, se de um lado caber ao professor a organizao do debate propriamente histrico em sala de aula, fazendo com que as diferentes proposies sejam discutidas e, com elas, que os diferentes tempos presentes possam se confrontar e se reconhecerem como momentos de algo que a se torna presente, mas que a no se restringe; o que  possvel em se apoiando nos elementos presentes no manuseio consciente das representaes histricas das pesquisas feitas diretamente pelos alunos, levando cada um a explicitar o caminho epistrnico que trilhou para chegar em tal ou qual formulao. De outro lado, e justamente pelo que foi dito mais acima, como o limite de acordo entre as diferentes possibilidades de nomeao est dado por uma posio poltica  31 de maro de 1964 ser para alguns golpe militar, e para outros revoluo, mesmo que uns e outros concordem acerca de numerosos aspectos deste evento; ser no enfrentamento das diversas posies contrapostas apresentadas entre si e, portanto, na coincidentia oppositorum que desse enfrentamento poder resultar - que em cada caso tal ou tal poca se compreender a si mesma ou ser compreendida por aqueles que dela se ocuparem.
Diante disso, a escola tem se limitado a propiciar ao aluno simples habilidades e competncias que supostamente o capacitem a viver em sociedade - em dada sociedade cujo tempo no  a rigor o tempo que o aluno, segundo suas tradies e sua formao, tem diante de si , enfrentando e resolvendo problemas e participando de forma democrtica na vida poltica. Pois bem, h quem defenda que esse trabalho deva ser realizado pelo conjunto das disciplinas escolares, guardadas as devidas particularidades de linguagem e objeto prprias a cada uma delas, sob o manto da chamada interdisciplinaridade; todavia, quase sempre se esquece que o tempo escolar e o tempo de cada disciplina esto eles mesmos perpassados pelas posies  pg.109 polticas que em cada caso se pem e se dispem  luta pelo poder e, quando a elas se apresentam certos limites,  luta pelo reconhecimento recproco. Luta essa cuja necessidade os diferentes sujeitos s se tornam conscientes quando  para alm de qualquer discurso oficial - eles mesmos se voltam para o enfrentamento concreto com a diversidade de situaes impostas pela realidade objetiva. O que, a nosso ver, exige mais um programa de formao humana - o qual necessariamente a Histria tem que realizar  que embora possa partir de tais competncias e habilidades, a elas no se restrinja, mas considere no como um fim em si mesmo e, sim, como os meios para que cada um possa alcanar o horizonte de seu ser propriamente histrico.

O ensino de histria e os pressupostos constitutivos do discurso sobre o desenvolvimeto de certas competncias como suas tarefas especficas

O que est na base do discurso sobre o desenvolvimento de certas competncias e habilidades como tarefas especficas das disciplinas escolares em geral e, em particular, do Ensino de Histria? As competncias e habilidades constituem-se como fim em si mesmo, como parece defender o atual discurso pedaggico hegemnico, ou, ao contrrio, so elas os meios pelos quais a formao propriamente humana pode e deve plasmar e desenvolver nveis de conscincia cada vez mais complexos, condizentes com o tempo presente e os anseios de uma humanidade cada vez menos solidria? Tambm consideramos importante que se tenha presente o fato da sociedade possuir outros meios e agncias para desenvolver muitas dessas competncas e habilidades enquanto circunscritas em si mesmas; por isso pensamos que o trabalho na escola deve ser assinalado pefa especificidade pedaggica deste espao, razo pela qual apresentaremos abaixo somente aqueles pontos que tomamos como exclusiva competncia do professor de Histria, no tocante ao modo em que ele se insere nesse esforo da humanidade globalizada na preparao de sua mo-de-obra dita qualificada,7 o que tambm se tem designado Educao para o trabalho. Ao que nos  pg.110 consta, como que se voltando contra sua prpria histria, o Ensino de Histria parece haver se tornado presa fcil dos discursos oficiais em tomo das competncias e habilidades; se  verdade que os discursos inflamados contra as diretrizes governamentais  quaisquer que sejam elas  nem sempre se constituem por si mesmos como a melhor sada para o desenvolvimento de uma educao realmente emancipadora, o simples adaptar-se a tais diretrizes resulta, por seu turno, na subordinao da prpria Histria e seu ensino, aos elementos que ela tem por caracterstica desmistificar. Consideremos isso um pouco mais de perto, e tentemos, pela via da mediao daliica, compreender o que de fato a est em jogo; assim, poderemos talvez descobrir o que h de especificamente histrico no tocante ao problema do desenvolvimento das competncias e habilidades e  questo
 
7 Parte dos itens a seguir compe material elaborado por Jos Bernardo Toro, da Fundacion Social, Colmbia. Veja-se, TORO, Jos Bernardo. Cdigos da modernidade: capacidades e competncias mnimas para participao produtiva no sculo XXI. Colmbia: Fundacion Social, 1997(Traduo e adaptao: Antnio Carlos Gomes da Costa; Fundao Maurcio Sirotsky Sobrinho/Porto Alegre).
precpua da Histria, a emancipao humana em sua plenitude.
Comecemos por algo em grande parte bem simples, de acordo com os princpios filosficos e organizacionais da Universidade Corporativa, do Banco do Brasil, "a educao para o trabalho desenvolve competncias essenciais para a Organizao  e  conscincia social e profissional para o indivduo"8; o que significa isso? Isso, por si s, aqui comentado to s a ttulo exemplo, nos mostra o quanto as competncias e habilidades no se constituem como fim em si mesmas, mas se estabelecem no bojo das necessidades corporativas de uma sociedade na qual a educao para o trabalho tomou-se o ponto de partida fundamental; o que, infelizmente, no af de um discurso voltado para a formao da cidadania, deixa de lado justamente a problemtica que a se pe entre, de um lado, a chamada educao para o trabalho enquanto tal em seu carter meramente instrumental,  em grande parte sujeita aos interesses das grandes corporaes e das grandes potncias econmicas, e, de outro lado, a exigncia de toda e qualquer forma de educao  inclusive da educao para o trabalho , que pg.111  criar e desenvolver meios adequados para a emancipao humana em geral e, em especial, daqueles que permanecem marginalizados e subjugados em seus direitos mais substanciais. Se de um lado consideramos insuficientes e mesmo demaggicos boa parte dos projetos e aes que se tem designado como educao para o trabalho  que, em ltima instncia, se reduzem a simples instrumentao a servio do grande capital -, de outro lado, tambm consideramos insuficientes os discursos inflamados que negam a esses projetos toda e qualquer possibilidade de promoo efetivamente histrica e social; de qualquer forma, a estrutura da sociedade contempornea exige esse tipo de formao, na medida em que o processo de produo em escala, prprio da poca do fordismo, cede lugar ao processo de acumulao flexvel das economias de escopo9. Nesse sentido, no que diz respeito  relao entre o trabalho e a educao, o longo treinamento e  a aprendizagem no trabalho, juntamente com a nfase na co-responsabilidade do trabalhador se mostram como os diferenciais fundamentais da nova forma de produo; o que, embora resulte em grande segurana no emprego para trabalhadores centrais, chamado por Harvey de emprego perptuo, resulta em nenhuma segurana no trabalho e  em condies de trabalho ruins para trabalhadores temporrios. Diante disso, enfim, impe-se a pergunta pelo sentido da educao em geral e, em particular, pelo sentido do Ensino de Histria enquanto limitado ao desenvolvimento de competncias e habilidades sem considerar justamente as injunes polticas e ideolgicas de tais competncias e habilidades.
Consideremos, por exemplo, o domnio da leitura e da escrita, onde, no caso da disciplina de Histria, o aluno deve ler documentao histrica diversa: cartas, bulas, decretos, dirios de viagem, escrituras, certides, notcias de jornais e revistas, legislao variada., fichas de identificao pessoal, material de arquivos, documentos de identidade pessoal, biografias, textos analticos de diferentes autores, descries de pasagens, relatrios de autoridades, letras de msicas populares e de hinos, grficos e conjuntos de dados econmicos, crnicas de costumes, propagandas de produtos e eventos, etc. Lembremos ainda que determinados documentos pg.112 exigem modalidades especficas de leitura (por exemplo, ler uma tabela de importao e exportao), razo pela qual tambm se deve exigir do aluno argumentao oral e escrita, onde a leitura e a escrita devem ser tomadas no conjunto das relaes com formao e experincia, e vinculadas  leitura histrica do mundo; caso em que o acento da competncia e 

8 Ver, BANCO DO BRASIL, Universidade Corporativa. Princpios filosficos e organizacionais. Disponvel em: <http://www.bb.com.br/appbb/portal/bb/unv/sobre/principios.jsp>. Acesso em: jul.2006.
9 Sobre esse ponto, veja-se HARVEY, David. Condio ps-moderna: Uma pesquisa sobre as origens da mudana cultural. Trad. Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonalves. So Paulo: Loyola, 1993, pp.117-184.
habilidade propriamente histricas devem recair sobre o vnculo do domnio da leitura e da escrita  leitura histrica do mundo. Temos a, portanto, no apenas uma nica competncia ou habilidade e sim trs, a saber: (1) o domnio da leitura e da escrita como tal, (2) a leitura histrica do mundo  certo domnio da leitura e da escrita especificamente histrico -, (3) o vinculo do domnio da leitura e da escrita como tal e a leitura histrica do mundo.
O mesmo ocorre com a chamada Capacidade de fazer clculos e de resolver problemas e com a anloga Capacidade de analisar, sintetizar e interpretar dados, fatos e situaes. No primeiro caso, calcular  fazer contas (durao de eventos, distncia em anos de um evento a outro, etc.) e tambm pode ser tomado como sinnimo de planejar; desse modo, tratar da resoluo de problemas envolve tomar decises fundamentadas em todos os domnios da existncia humana", onde, a ttulo de simulao, numerosas situaes histricas podem ser apresentadas aos alunos sob a forma de problemas que sociedades, indivduos ou grupos sociais especficos tiveram que resolver no mbito de certa estratgia poltico-ideolgica para a realizao daqueles fins que os mesmos se puseram; tambm podemos fazer o estudo de determinados problemas que acompanharam diferentes sociedades (por exemplo, o abastecimento de gua), verificando as diversas solues encontradas, e calculando os custos (sociais, econmicos, ele.) de cada uma delas. O problema  que no basta possuir capacidade de fazer clculos e de resolver problemas ou "tomar decises fundamentadas em todos os domnios da existncia humana" sem, por exemplo, estar em condies de compreender ou elaborar uma estratgia poltico-ideolgica determinada passvel de pelo menos contribuir para a compreenso e a realizao daqueles fins que se pem como objeto de cada deciso no mbito de tal ou tal domnio da existncia humana; o que, de modo mais claro, se impe sobretudo no segundo caso, onde a complexidade da interpretao histrica no s exige um estudo demorado de cada situao histrica dada, mas tambm envolve posicionamento pessoal e poltico, vinculado  trajetria social de cada indivduo. Embora descrever, analisar e pg.113 comparar seja fundamental para que a pessoa possa expor o prprio pensamento oralmente ou por escrito e no seja possvel participar ativamente da vida em sociedade se no formos capazes de manejar smbolos, signos, dados, cdigos e outras formas de expresso, a compreenso resultante da anlise e sntese em questo pressupe antes de tudo que se saiba exatamente para quem se est emitindo o prprio pensamento e em que medida esse "quem" participa do mesmo meio social que o emissor. Enfim, o que a est em jogo  a relao social determinada que funda e d sentido ao que  dito, cujo sentido propriamente histrico jamais se explicita no mero dizer, mas implica tom-lo j desde o incio como forma de ser e agir prprio de cada classe ou grupo social que se insere na luta por reconhecimento nos diversos domnios da vida social e histrica de cada povo.
Com isso passamos  capacidade de compreender e atuar em seu entorno social, que parte da compreenso de uma situao como dada pela capacidade de interveno que possamos ter sobre ela. Nesse caso, embora no possamos evidentemente levar os alunos ao Brasil Colnia para realizar uma interveno social visando auxiliar o movimento de rebeldia dos escravos, um determinado nvel de interao que possamos possibilitar aos alunos frente a questes de preconceito racial no Brasil contemporneo poder ser muito til no sentido de compreender este problema; todavia, "um determinado nvel de interao" no  desde j explicita e exclusivamente "um nvel de interao determinado" - o que s se d a conhecer na medida em que a situao concreta se impe aos agentes histricos em cada situao que se apresenta como tal. Isso implica a capacidade de receber crticamente os meios de comunicao, cujos produtos se constituem num material privilegiado de trabalho na aula de Histria - o que se explica pelo fato de estarmos hoje em dia cercados pelos apelos e informaes divulgados pela mdia, sendo esta a fonte principal de conhecimento do mundo para muitos; tratar-se-ia ento de "aprender a entender os meios de comunicao" e de saber que "eles produzem e reproduzem novos saberes, ticas e estilos de vida", de modo que "todas as crianas, adolescentes e educadores devem aprender a interagir com as diversas linguagens expressivas dos meios de comunicao, para que possam criar novas formas de pensar, sentir e atuar no convvio democrtico". Enfim, se isso  realmente assim, tudo se passa como se os "novos saberes, ticas e estilos de vida" fossem objeto apenas de interao passvel to somente a partir dos meios de comunicao e no pg.114 que esses, ao produzir e reproduzir "saberes, ticas e estilos de vida", exprimem sim "novos saberes, ticas e estilos de vida" produzidos por classes e grupos sociais determinados aos quais as indivduos se identificam ou se opem, se assemelham ou se diferenciam, pelos quais, em suma, se trava a dura batalha pelo reconhecimento e pela emancipao humana.
O que dizer ento sobre a capacidade para localizar, acessar e usar melhor a informao acumulada?  certo que o aluno deve ser estimulado a consultar diferentes fontes de informao: arquivos pessoais e pblicos, bibliotecas, bancos de dados virtuais ou em papel, atlas, dicionrios especializados, mapotecas, museus, videotecas e outros acervos de informaes codificadas; porm, mais importante do que a memorizao  a capacidade de saber localizar urna informao determinada, caso em que a memorizao deve ser tomada num sentido compreensivo; memorizar dados na medida em que eles constituem uma base para estabelecer novas aprendizagens e relaes e no se limitem a um fim em si mesmo  marca da qual o ensino de Histria precisa se afastar. Nesse ponto, impe-se a seguinte questo: embora os alunos devam aprender a manejar a informao, em que medida lhes  permitido o acesso a essa informao? No estamos nos referindo aqui s informaes triviais ou quelas ja postas sob domnio pblico, mas, pressupondo-se o discurso de uma sociedade democrtica, o acesso quelas informaes vitais parai um grupo social determinado, as quais, no obstante, no se encontram em seu poder; o que, de certo modo, aproxima-se do que tambm est em jogo na capacidade de planejar, trabalhar e decidir em grupo, essa, tal como a capacidade para localizar, acessar e usar melhor a informao acumulada, no pode ser ingenuamente entendida nos estreitos limites da sala de aula e sim apresentar-se a como expresso dos prprios modos de ser e agir dos diferentes grupos que compem a sociedade e que, desse modo, tambm se fazem representar tanto no seio do corpo docente quanto entre o corpo discente. Ainda que o principal desafio numa sala de aula seja ensinara planejar, trabalhar e decidir em grupo, sem prejuzo dos trabalhos de carter individual (leitura silenciosa, avaliao individual, escrita de depoimento pessoal ou manifestao de opinio prpria atravs de redao, etc.), a questo de "saber associar-se, saber trabalhar e produzir em equipe, saber coordenar" constituirem-se como "saberes estratgicos para a produtividade e fundamentais para a democracia" implica uma certa compreenso e uma certa adeso ao que pg. 115 est sendo produzido e ao fim em vista do qual se est produzindo. Por exemplo, ser que a convivncia em grupo prepara o aluno de fato para afirmar-se como sujeito livre e autnomo numa sociedade plural ou apenas encobre certas diretivas de grupos econmicos e sociais? Interessante notar, finalmente, que no dizemos que  no embate entre os grupos que compem uma sala de aula que o aluno se reconhece e  reconhecido como tal na sua individualidade e na coletividade da qual ele  parte, mas to somente que  no grupo de colegas que o aluno aprende a expor e defender seus pontos de vista.
Chegamos assim, pois, ao fim desde o incio pressuposto como competncia e habilidade fundamental: o aprender a aprender. O que se quer exatamente dizer quando se afirma algo como aprender a aprender , em suma, que se o aprender consiste numa atividade reflexiva prpria do homem que se pe nos limites de seu saber sobre o mundo que o cerca e do funcionamento das coisas que lhe tornam esse mundo familiar, o aprender a aprender s poderia ser uma reflexo de segundo grau - vale dizer, uma autoreflexo - cujo fim substancial e pr  prova tudo isso que ingenuamente ele pensa conhecer e saber manusear adequada e conscientemente. Por isso afirmamos que, tomado como competncia e habilidade determinada, o aprender a aprender s pode ser atingido como resultado da aplicao das competncias e habilidades anteriores e com o recurso de modos de avaliao, constituindo-se, em suma, como uma forma de autoavaliao. Sendo assim, na medida em que o professor prope avaliaes sistemticas do conjunto do trabalho, abrangendo todas as etapas do processo de aprendizagem e todos os envolvidos (alunos, professores, direo, instituies e outras pessoas com quem os alunos se relacionaram, etc.),  possvel ascender a um segundo plano onde no mais apenas se reflets, mas a reflexo produzida volta para o prprio indivduo, grupo ou classe que se pe como sujeito do processo em questo. Em outras palavras, no caso da sala de aula, o aluno precisa extrair aprendizados a partir da avaliao do prprio processo de aprendizagem; aprendizagem essa que no  s cognitiva, mas tambm moral e poltica. Pg. 116

 guisa de concluso: o ensino de histria e a escrita da histria do desenvolvimento de competncias  formao humana
Sumariando o problema do Ensino de Histria no mbito concreto da vivncia do professor em sala de aula e a questo das diferentes competncias e habilidades que o professor deve desenvolver, podemos desenhar uma proposta de trabalho em que o professor estabelea estratgias para o Ensino de Histria e de temas das humanidades preocupado com duas ordens de elementos. Em primeiro lugar, um conjunto de categorias e representaes que, sob a forma de um nmero determinado de ferramentas tericas, nos permitem desenvolver e testar teorias mais ou menos plausveis acerca dos problemas com os quais lidamos no dia-a-dia da Histria e seu ensino; em segundo lugar, um conjunto de procedimentos e tcnicas de trabalho tpicos do oficio ao historiador, os quais se conformam numa certa  bagagem de mtodos e metodologias passveis de, aplicando as categorias e representaes referidas logo acima a casos especificamente delimitados, constituir um acervo de conhecimentos histricos cuja verificao ser mais e mais facilitada na medida em que professores e alunos se virem numa nica e mesma empreitada e puderem manejar com pleno domnio categorias, representaes e mtodos afins ao ofcio do historiador,  Escrita e ao Ensino da Histria. Isso quer dizer que embora o professor execute um programa planejado para dar conta de determinadas competncias e habilidades imanentes s informaes e saberes articulados segundo tais ou tais discusses terico-metodolgicas, ele deve ter claro que a realizao desse programa s ser efetiva se tanto as competncias e habilidades quanto os contedos e metodologias forem definidos de comum acordo entre os sujeitos que, em cada caso, se apresentarem como co-determinantes do processo em que se encontram.
Ao longo de um programa preocupado com questes terico-metodolgicas para o Ensino de Histria distinguimos trs momentos, que em geral se apresentam de forma mais ou menos integrada: (1) Contemplar um momento em que se discutam questes de natureza terica, ou conceitos bsicos da rea de Histria e das Cincias Humanas, como  o caso dos conceitos de Tempo (fsico, histrico, etc.). Estado, Ideologia, Pblico, Privado, Vida privada, etc. (2) Contemplar momentos em que o acento maior do trabalho e a execuo de procedimentos de pesquisa histrica (criar uma pg. 117 modalidade de coleta e comentrio de noticias de jornal; montar um projeto para investigar a histria da famlia ou da escola; organizar um banco de dados a respeito de determinado tema, organizar um acervo de imagens a respeito de um problema brasileiro ou de um episdio histrico, etc.), isto   discutir elementos de metodologia. (3) Contemplar momentos em que o trabalho se volte para o estudo de um conjunto de informaes histricas sobre um perodo, um pas, um episdio, uma pessoa, um povo, uma guerra, sempre a partir de questes traadas com certa antecedncia ou em carter exploratrio, no sentido de montar problemticas de trabalho onde o fim principal seja a integrao cognitiva, moral e espiritual do aluno com o seu passado e presente, bem como a perspectiva de futuro individual, coletivo e social. Os conceitos devem ser entendidos como ferramentas que o aluno constri e utiliza no sentido de tentar compreender (e nomear) fenmenos sociais e situaes histricas nos quais, de um modo ou de outro, ele est e se reconhece como organicamente situado; de onde, enfim, o aluno deve mostrar-se capaz de utilizar conceitos puro construir problemticas que, a partir de dentro do campo da Histria, no dizem respeito seno  sua prpria vida.
Por fim, devemos lembrar que o Ensino de Histria, ao proporcionar ao aluno muito mais a construo de boas questes, que encaminh-lo para respostas "corretas", toma-o como sujeito de sua prpria formao, para alm de toda competncia e toda habilidade que de fora se Ihe queira impor. Evidente que a capacidade de elaborar/propor/construir  questes por sua prpria conta e risco est intimamente ligada a informao histrica disponvel e conhecida pelo aluno (em parte memorizada). Cabe ao professor orient-lo na construo de questes que sejam cada vez mais complexas e que, sempre que possvel, envolvam temas e problemas do presente que lhe  afeto. Assim,  medida que o mesmo for capaz de desenvolver por si relaes entre construo de conceitos, estabecimento de mtodos de trabalho e busca de informaes histricas, pode-se dizer que ele conquistou definitivamente seu acesso  formao humana. Pg. 118

Referncias
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BANCO DO BRASIL, Universidade Corporativa. Princpios filosficos e organizacionais. Disponvel em: <http://www.bb.com.br/appbb/portal/bb/unv/sobre/prinripios-jsp>. Acesso em:jul, 2006.
HARVEY, David. Condio ps-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudana cultural, Trad. Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonalves. So Pau!o: Loyola,1993.
LE GOFF,Jacques. O imaginrio medieval. Trad. Manuel Ruas. Lisboa: Estampa, 1994.
REIS, Jos Carlos. As identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC. Rio de Janeiro,FGV, 1999.
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TORO, Jos Bernardo. Cdigos da modernidade: capacidades e competncias mnimas para participao produtiva no sculo XXI. Colmbia: Fundacion Social, 1997 (Traduo e adaptao: Antnio Carlos Gomes da Costa; Fundao Maurcio Sirotsky Sobrinho/PortoAlegre). Pg. 119

IMPERIALISMO YANKEE: ASPECTOS DA REPERCUSSO DA INTERVENO NORTE-AMERICANA NA NICARGUA (1926-1927)*
RaphaeI Nunes Nicoletti Sebrian, UNICENTRO

Desde as primeiras dcadas do sculo XIX, com o advento da Doutrina Monroe, as relaes entre a Amrica Latina e os Estados Unidos foram mediadas a partir das concepes da poltica externa norte-americana. Munidos de argumentos diversos, desenvolvidos a partir da referida doutrina e do "Destino Manifesto", os EUA, concomitantemente, erigiram-se enquanto principal potncia econmica e, sobretudo, militar do continente americano.
	As aes polticas do Departamento de Estado adquiriram, com o passar dos anos, desdobramentos blicos ale atingirem um estgio em que algumas questes ou  contendas, envolvendo os "interesses" norte-americanos, foram "solucionadas" atravs de 

* Este texto  fruto de reflexes desenvolvidas em minha  dissertao de mestrado, intitulada A repercusso do movimento sandinista na imprensa brasileira: 1926-1934, defendida em 2005 junto ao Programa de Ps-Graduao em Histria da UNESP/Assis, sob orientao do Dr. Jos Luis bBendicho Beired.
intervenes armadas com o desembarque nos pases dos famosos - e famigerados - marines, os fuzileiros navais dos EUA.
Ocorrendo em paralelo s aes diplomticas, polticas e culurais do governo dos Estados Unidos, de empresas e de grupos norte-americanos diversos espalhados pelos territrios do continente, estas demonstraes de fora e de intolerncia costumavam ser justificadas em nome da defesa dos interesses dos cidados norte-americanos que residiam nos pases invadidos, ou da manuteno do bem-estar e da democracia em pases que, segundo os argumentos de presidentes, secretrios de governo e da imprensa dos EUA, no eram capazes nem mesmo de manter a ordem poltica interna em suas naes.
Uma manifestao dessa poltica foi a interveno militar - no a primeira, tampouco a ltima - em terras nicaragenses, no ano de 1927. Contando com o apoio e a solicitao de grupos locais, os marines pg. 121 desembarcaram na Nicargua e  l permaneceram at o ano de 1933. Garantiram a proteo dos "cidados norte-americanos", fiscalizaram eleies, propuseram tratados que levaram ao poder aqueles que interessavam e, principalmente, asseguraram a manuteno dos privilgios das empresas ianques instaladas naquele pas da Amrica Central.
Esta interveno motivou, na poca, inmeras manifestaes de desaprovao e repdio ao redor do mundo. Grupos das mais diversas procedncias - estudantes, polticos, religiosos, intelectuais  protestaram publicamente contra os desmandos do State Department, ainda que vrios desses grupos fossem admiradores das instituies e da estrutura da sociedade norte-americana, modelo democrtico a ser seguido.
Alm das inmeras expresses de desaprovao veiculadas, nos mais diversos pases, atravs de jornais, de passeatas, de pronunciamentos diplomticos, houve uma voz altiva que se ergueu em defesa da soberania nacional nicaragense, e que tornou impraticvel aos admiradores dos EUA a omisso diante da poLemica. Esta voz era a de Augusto "Csar" Sandino, que constituiu um exrcito para combater as tropas de interveno, e que acumulou ao longo dos anos de luta (1926-1934) e mesmo aps eles, defensores e adversrios por todas as partes.
A repercusso de sua luta foi realmente significativa e, em meio  tentativa de promoo, por parte dos EUA, dos valores pan-americanistas, as aes e propostas do movimento sandinista fizeram prevalecer nas pginas dos jornais de todo o mundo, e tambm do Brasil, a temtica do imperialismo em suas coloraes mais sombrias.
Neste estudo,  apresentaremos uma anlise do material jornalistico veiculado, nos anos de 1926 e 1927, em quatro peridicos brasileiros - Correio da Manh, O Estado  de S. Paulo, Folha da Manh e Folha da Noite -, que contempla o debate acerca da contradio  entre o imperialismo e o pan-americanismo, desnudada a partir do conflito entre Nicargua e Estados Unidos. O momento em que esta abordagem se d de maneira mais evidente est localizado entre os anos de 1926 e 1929, mas a produo enfocando estes temas se estendeu at o fim do conflito (1934). Contudo, como j dito, nos interessar aqui o perodo 1926-1927. A produo se concentra, sobretudo, na questo da interveno militar das tropas de pg. 122 fuzileiros na Nicargua, mas as noticias tambm tratam do debate entre a prtica imperialista e o discurso pan-americanista dos norte -americanos.

  evidente que notcias a respeito de Sandino e do movimentoi liderado por ele tambm aparecem, paralelamente ao material que analisaremos neste estudo, mas privilegiaremos a discusso aqui, das notas e artigos que problematizaram a interveno,  num momento de esforo explcito, por parte dos EUA, de defesa e propagao dos ideais do pan-amerianismo. A maior parte da anlise recente ao jornal O Estado de S. Paulo  proveniente de texto produzido durante pesquisa de iniciao Cientfica: SEBRIAN, Raphael N.N, A luta guerrilheira de Sandino no jornal O Estado de S. Paulo: 1926-1934 (relatrio cientfico, indito). Pesquisa financiada pela FAPESP, e desenvolvida ao longo do ano de 2002, sob a orientao do Dr. Jos  Luis Bendicho Beired.
Os primeiros artigos e notas veiculadas pelos jornais brasieiros, em 1926, faziam referncia  "Guerra Constitucionalista" iniciada naquele ano. Primeiramente, surgiram as notas das agncias internacionais, que serviam para apresentar a questo aos leitores brasileiros que, at ento, muito pouco sabiam a respeito daquele pequeno pas da Amrica Central que praticamente no freqentava as pginas dos jornais brasileiros.
Para que tenhamos um exemplo deste tipo de veiculao, vejamos a primeira noticia publicada por "OESP", datada de 05 de maio de 1926, abordando especificamente a questo do movimento revolucionrio liderado pelos liberais. Vejamos o contedo da nota:

Movimento Revolucionrio - Navio de guerra norte-americano enviado a Bluefield  Washington, 4(H).
O departamento da marinha recebeu telegrammas com a noticia de que os revolucionrios nicaraguenses, do partido liberal, tomaram a cidade de Bluefield, depois de renhido combate com as foras legaes.
Os mesmos despachos que, alis, causaram surpresa nos meios officiaes, accrescentam que o Congresso de Nicaragua proclamou o restado de guerra, permitindo ao mesmo ntempo o commercio de armas. Pg 123
O governo americano telegraphol ao cruzador  Cleveland, atualmente no Panam, ordenando que parta immediatamente para Bluefield, afim de proteger os interesses americanos (OESP, 05/05/1926, p. 01).

Vimos aqui, em transcrio integral, a primeira nota que se refere diretamente ao conflito na Nicaragua em "OESP". Neste breve trecho, consta uma informao que pode nos esclarecer a respeito de qual seriam as atitudes dos norte-americanos em relao ao conflito. Ao primeiro sinal de revoluo, envia-se um cruzador de guerra para "proteger  os interesses americanos".
Sob esta justificativa de "proteger os interesses americanos" na Nicargua,   que vo se desenvolver os primeiros atos da poltica externa norte-americana. Os artigos produzidos por "OESP" acompanham este percurso ideolgico e procuram se desenvolver com o intuito de esclarecer a "opinio pblica" dos reais interesses norte-americanos que motivaram a interveno na Nicargua.
Para compreendermos melhor esse posicionamento dos Estaddos Unidos, devemos lembrar algumas das caractersticas bsicas da poltica externa norte-americana na poca. O conflito entre os dois pases ocorre no contexto da chamada Big Stick Policy, iniciada com o Corolrio Roosevelt  Doutrina Monroe, em 1904. Neste perodo, podemos assistir  reafirmao no s do sistema americano, como do imprio americano.
O Corolrio representou uma nova abordagem para os assuntos hemisfricos e era um reforo  Doutrina Monroe, que at entaum no possua pg. 124 mecanismos palpveis e reais de implementao. O Corolrio assegurava aos Estados Unidos o direito de interveno e interferncia nos assuntos hemisfricos. Tal direito, e o papel de "polcia hemisfrica", seria exercido caso se comprovasse que uma nao era "incapaz" ou no "desejava conduzir sua poltica de forma responsvel, ameaando a estabilidade do 

2 As informaes jornalsticas veiculadas pelo jornal  O Estado de S. Paulo  e nos demais Jornais pesquisados - a respeito do processo de luta revolucionria na Nicargua se apresentavam essencialmente de duas maneiras: na forma de notas, ou telegramas internacionais; e na forma de editoriais ou artigos que tratavam especificamente do processo de conflito, podendo estes talar localizados nos mais diversos locais dos peridico. A grafia foi conservada conforme no original at mesmo para demostrar o choque repentino causado pela notcia de um movimento revolucionrio na Nicargua, fato que se pode notar na grafia errnea da cidade nicaragense. Onde se deveria grafar "Bluefields" aparece "Bluefield, fato que se pode atribuir a um erro de grafia, mas tambm as exguas informaes que os pases, e mesmo as agncias de notcias internacionais, possuam em relao a Nicargua.
3 A respeito das caractersticas fundamentais da Doutrina Monroe, ver SCHILLING, Voltaire.  Estados Unidos x Amricva Latina: as etapas da dominao. Porto Alegre, Mercado aberto, 1984, p.12.
Hemisfrio".
Devemos entender o Corolrio Roosevelt como "um desenvolvimento natural do caminho da expanso do poder norte-americano em seu continente, como tambm um reflexo imediato das concepes mais gerais de poltica externa", defendidas pelo ento presidente Tneodore Roosevelt4. E essa expanso do poder dos Estados Unidos naquele momento passava pelo territrio nicaragense.
Os interesses norte-americanos na Nicargua estavam evidentes desde a assinatura do Tratado Bryan-Chamorro (1916), que concedeu aos EUA o direito exclusivo de abrir um canal transocenico pelo istmo, alm de outros privilgios estratgicos. Quando do surgimento do movimento liderado pelos liberais, em 1926, que defendiam a constitucinalidade frente ao golpe dos pecuaristas conservadores que levou Adolfo Diaz  ao poder, os norte-americanos mobilizaram-se imediatamente, como nos mostra a nota acima, pois, como dissemos, sua poltica externa tinha um carter expansionista e imperialista, e a situao se constitua em uma boa oportunidade para colocar em prtica algumas de suas pretenses.
No Correio da Manh,5 de 06 de maio de 1926, apenas um dia aps a publicao da nota em "OESP", apareceu uma nota bastante semelhante quela veiculada pelo matutino paulista, mas proveniente de fontes do matutino carioca alocadas em Nova Iorque. Vejamos ento esta nota, tambm integralmente:

Nova York, 5 ("Correio da Manh") - De So Joo do Sul, em Nicargua, communicam que a revoluo assume caracter grave, annunciando-se que os liberaes rebeldes occuparam Bluefield. Pg. 125
As foras adversarias ao general Chamorro acham-se em grande actividade, sabendo-se que em Managua ocorreram disturbios, registrando-se eguaes ocorrencias em outros pontos da costa oriental.
De Washington iformam que o governo norte-americano ordenou que o cruzador Cleveland zarpe para Bluefield afim de proteger os interesses dos norte-americanos (Cmh, 06/05/1926, p.02).

Conforme se pode notar, as notas so basicamente as mesmas pois, provavelmente, foram elaboradas a partir de uma mesma fonte, o que inclusive se pude notar pela palavra "Bluefield", grafada sem o "S" final em ambos os casos.
 evidente que esta mobiliza se fez a partir da justificativa aparente de "proteger os interesses e a segurana pessal dos norte-americanos residentes naquella pequena Republica" ("OESP", 10/01/1927, p. 03), no apresentando de maneira explcita os verdadeiros interesses que motivavam a mobilizao yankee. No entanto, desde o seu primeiro grande artigo a respeito da questo ("OESP", "Imperialismo 'yankee'", 10/01/1927, p,03) - que fez parte de uma srie de outros com o mesmo ttulo  "OESP" fez questo  de desmistificar as justificativas da interveno", argumentando que no se tratava "de proteger a vida e bens dos cidados norte-americanos, mas sim os negcios de um pequeno nmero de empresas norte-americanas a estabelecidas" ("OESP", "Imperialismo 'yankee'", 13/01/1927, p. 03).
O jornal procurou explicitar os aspectos envolvidos na interveno norte-americana. Nesses artigos, intitulados "Imperialismo 'yankee'", os primeiros de grande expresso a respeito do conflito publicados por "OESP", o peridico procedeu uma argumentao baseada em diversas fontes, at mesmo depoimentos de personalidades e jornais norte-americanos, como evidenciado em cada artigo. Apresentemos alguns trechos do primeira deles, publicado em 10 de janeiro 1927:


4 Cf. PECEQUILO, 1999, p.51.
5 Nas notas e artigos, identificaremos o jornal Correio da Manh pela sigla Cmh, tal qual ulizamos OESP para O Estado de S. Paulo.

O nosso servio telegraphico tem-nos trazido ao corrente, mas muito por alto, dos acontecimentos de Nicaragua. Os Estados Unidos desembarcaram alli foras  da marinha, com o intuito apparente,ou pelo menos secundario, de proteger os interesses e a segurana  pessoal dos norte-americanos residentes naquella pequena  Republica, mas na verdade aproveitando-se de incidentes da poltica interna para proceguir nos planps da hegemonia continental pg. 126 
O Departamento de Estado, sob a sua allegada imparcialidade, vem de facto intervindo diretamente na vida da pequena Republica

A Folha da Manh,6 de 09 de Janeiro de 1927, trouxe uma nota intitulada "A poltica externa dos Estados Unidos", proveniente de um comunicado epistolar da United Press, versando sobre os objetivos geraisda poltica externa norte-americana para o ano de 1926. Esta, diferente de outras notas e artigos publicados, procurava relativizar o carater da  participao dos EUA em acontecimentos na Amrica Latina e, sobretudo, na Nicargua e contrapunha-se s interpretaes conferidas por "OESP" e "Cmh":

WASHINGTON, Dezembro (Comunicado Epistolar da "United Press")  Um dos principas objectivos da poltica externa dos Estados Unidos durante todo o anno de 1926, foi manter a situao geral de boa vontade pan-americana em face das dificuldades que certos problemas especficos ofereciam com relao a determinados paizes.  medida que o anno chega a seu termo todos os indcios fazem presumir que os negocios deste hemispherio continuaro a offerecer grande importncia internacional em 1927 [...].
No anno de 1926 a tendencia em favor da solidariedade das Republicas Americanas, indiscutivelmente soffreu srio retrocesso que provavelmente far com que o movimento pan-americano durante algum tempo no futuro se no desenvolva sob uma forma poltica.
Esse ponto fraco nas relaes inter-americanas durante 1926 foi demonstrado por occasio das reunies preliminares da Commisso Plebiscitaria de Tacna e Arica, na revoluo em Nicaragua e na profunda divergencia existente entre os Estados Unidos e o Mxico a respeito das leis sobre terras  propriedade das reservas de petroleo. Este ultimo problema ficou muito complicado pelos effeitos que a atitude do presidente Calles relativa  Egreja Catholica, na opinio publica americana, os quaes ainda no podem calcular-se.
Qualquer que sejam as noticias que se publiquem sobre a questo do arbitramento em Tacna e Arica, os seus resultados negativos arraigararn a convico quer nos meios officiaes quer nos particulares de que os Estados Unidos no devem intervir novamente, a no ser nas mais prementes condies, em litgios entre outras republicas e em que os Estados Unidos no so pg.127 individualmente interessados. A consequencia liquida provavelmente ser promover uma attitude mais real e cautelosa dos Estados Unidos com relao s suas irms do Continente.
Na America Central, os Estados Unidos assistiram ao ameaado collapso dos pactos centro americanos negociados em Washington no anno de 1923. Um golpe de estado do general Chamorro produziu longa serie de consequencias que foram solucionadas temporariamente em Novembro com a ascenso ao poder do novo presidente Adolpho Diaz. Comquanto os Estados Unidos mantivessem technicamente a efficiencia dos tratados, no ha certeza de que se affirmasse a estabilidade na America Central.
O caso da Nicaragua, produziu novos elementos de discordia, devido a terem os funccionarios americanos deixado comprehender que elles lamentavam profundamente as remessas de armas do Mxico para certos elementos de Nicaragua em uma occasio em que os Estados Unidos se esforavam para obter a concrdia geral de todos os grupos polticos desse paiz mediante uma conferencia. O Mexico allegou que os embarques de armas foram feitos sob responsabilidade individual [...].
Em presena desses problemas perturbadores os Estados Unidos apiam fortemente a poltica pan-americana a afim de demonstrar a sua boa vontade e sentimentos amistosos planejou o vo pan-americano, devendo os apparelhos dos Estados Unidos, visitar quasi todas as capitaes latino americanas ("FM", "A poltica externa dos Estados Unidos", 09/01/1927, p.06).

Aqui se pode notar uma justificativa "oficial/oficiosa" do Departamento de Estado norte-americano para as atitudes adotadas com os pases latino-americanos no ano de 1926. A United Press, um brao importante de disseminao das idias do governo dos Estados Unidos, encontrou espao nas pginas  do peridico paulista para justificar as

6 Como para os outros jornais, ulilizaremos siglas para identificar as Folhas, que sero apresentadas pelas siglas "FM" (Folha da Manh) e "FN" (Folha da Noite), respectivamente.
aes de interveno e interferncia na poltica de pases como a Nicargua e o Mxico, por exemplo. Argumentando sempre em tom de inevitabilidade dos fatos, como se a interferncia dos EUA fosse absolutamente indispensvel para a soluo das questes, a agncia apresenta o pan-americanismo como ideal primordial do governo yankee. Em "prol do pan-americanismo", procurando demonstrar a "boa vontade e sentimentos amistosos", foram tomadas as medidas intervencionistas.
As previses de alguns a respeito do imperialismo norte-americano, em contraponto s idias pan-americanistas to alardeadas por indivduos nos EUA, no eram as melhores desde o momento inicial do noticirio nas pginas dos jornais brasileiros. Em 28 de dezembro de 1926, o Correio da pg.128 Manh publicou uma nota proveniente da Frana, com as declaraes do jornal francs Le Temps que, naquela circunstncia, fazia uma previso num de seus editoriais de que at 1950 os EUA teriam estendido seu territrio at o Panam. O mesmo editorial francs, reproduzido parcialmente pelo matutino carioca, acusava os "Estados Unidos de usara doutrina de Monroe para esconder seus desgnios imperialistas" e declarava que todos os pases do continente eram contrrios a essa poltica, e que no protestavam porque precisavam do dinheiro americano (Cmh, 28/12/1926, p.01). Em um editorial7 do mesmo dia, o matutino comentou essa "profecia", e confrontou as declaraes do jornal francs, bradando em nome da "resistencia dos latino-americanos ao predominio que Washington sempre tem tentado" ("CMh", "Tpicos & Noticias", 28/12/1926, p.04).
As manchetes a respeito do conflito na Nicargua na primeira pgina dos jornais brasileiros comearam a se tornar cada vez mais freqentes, destacadas por sua visibilidade e por seu contedo8 "os jornaes de Paris e Berlim censuram a applicao sui-generis que os norte-americanos esto dando ao monroismo com relao  Amrica Central" ("CMh", 28/12/1926, p. 01); "Enveredando cegamente por um caminho tortuoso, o imperialismo americano at a censura contra os nicaraguenses j estabeleceu dentro na Nicargua" ("CMh", 29/12/1926, p.01l).
Excetuando-se o exemplo acima mencionado da publicao, na Folha da Manh de 09 de janeiro de 1927, de um comunicado da United Press francamente favorvel aos EUA, a maior parte das notas e artigos publicados pelos jornais nesse momento - desde meados de 1926 at o incio de 1927  tem como principal temtica a desqualificao da interveno norte-americana em terras nicaragenses, apontando a fragilidade da proposta pan-americanista. pg.129
	Em fins de janeiro de 1927, mais precisamente no dia trinta, aparece nas pginas de "CMh um artigo sobre o imperialismo norte-americano escrito por Oliveira Vianna, figura de grande expresso intelectual naquele momento. Vianna iniciava o texto se referindo a um artigo de um professor da Universidade de Indiana, Ulysses Weatherley, no qual o pesquisador procurava explicar e analisar a justia - ou injustia - do domnio exercido pelos norte-americanos sobre o Haiti, naquele momento. Discorrendo a partir de um ponto de vista pragmtico, o referido professor defendia que havia injustia sob o ponto de vista da soberania do povo, mas que haveria justia se a ocupao fosse observada pelo vis pragmtico. Oliveira Vianna, ironicamente, conclui sugerindo que, independente de que ponto de vista se assumisse, poucos estavam interessados em assumir algum: "Coisas do Haiti eram coisas que s podiam realmente interessar aos estudantes,  mocidade acadmica [...] do Haiti. Eu accrescentei: ou da Nicargua [...]" 

7 Os editoriais do Correio da Manh eram identificados pelo ttulo "Tpicos & Noticias". Em O Estado de S. Paulo, os editoriais eram intitulados "Notas e Informaes". Na Folha da Manh, eles eram Identificados por "Factos e Boatos", ou pelo aparecimento do personagem "Juca Pato". Na Folha da Noite, apareciam com os ttulos " Margem dos Factos" e "Idas e Factos".
8 O Correio da Manh foi, dentre os peridicos analisados, aquele que mais utilizou esse recurso, pouco utilizado, por exemplo, por "OESP" e pelas Folhas.
("Cmh", "O Imperialismo yankee [...], 30/01/1927, p.04).
J no incio de fevereiro de 1927, "OESP" manifestava-se, atravs de mais um artigo intitulado "Imperialismo 'yankee'", otimista por uma soluo das questes entre os EUA e a Nicargua, atribuindo mudanas nos planos dos Estados Unidos s manifestaes enrgicas da opinio pblica norte-americana repudiando as iniciativas do Departamento de Estado dos EUA. Vejamos o que diz "OESP" a respeito dessas questes:

[...] Abundam os casos em que uma grande potencia se viu impedida de executar uma poltica imperialista devido  opposio de outras grandes potencias, mas muito poucos so os casos em que um povo plethorico de foras tenha agido espontanea e voluntariamente como freio a aco do seu governo, contra a tentao de uma fcil conquista.
[...] De resto,  sabido que o Departamento de Estado tem agido, atravs do almirante Latimer, afim de resolver a complicao de Nicargua por um accrdo entre os partidos em luta, accrdo esse que dever consistir provavelmente na renuncia dos srs. Diaz e Sacasa  presidencia da Republica e na realizao de novo appello as urnas. ("OESP", "Imperialismo yankee'", 04/02/1927, p.02).

Manifestaes de valorizao do pan-americanismo ocorriam em vrios pases, vindas de diversas camadas sociais, procurando contrapor-se ao imperialismo, ainda que a poltica pan-americana fosse tambm uma forma "no-explcita" da expresso imperialista da poltica externa norte-americana. A defesa do pan-americanismo aparecia como exemplo da unio benfica pg.130 dos povos latino-americanos, contra os desmandos imperialistas do Departamento de Estado na Nicargua:

Contra a poltica dos Estados Unidos na Nicargua. PARIS, 28 (Radio-Havas) - A Associao geral dos estudantes latino-americanos prosegue activamente a sua campanha contra a poltica dos Estados Unidos na Nicaragua. Em reunio de hontem ficou resolvido telegraphar a todos os governos da Amrica Latina, convidando-os a desenvolver uma aco commum de protesto contra o tratado ha pouco celebrado entre o general Diaz e o secretario de Estado, sr. Kellog, tratado esse que colloca a Nicaragua - segundo accentua a Associao - sob o protectorado da Amrica do Norte. Uma cpia desse telegramma ser entregue tambm ao chefe das misses diplomticas latino-americanas para que a transmitam aos respectivos governos.
A Associao est resolvida a pedir a interveno da Sociedade das Naes e a convidar as universidades americanas a subscreverem o protesto ("FN", 28/02/1927, p.05).

Entretanto, o imperialismo - norte-americano - era visto como uma das piores formas de agresso existentes, "machiavelico", contra os bons ideais, pacficos, dos pases da Europa -- onde o congresso aconteceu, Paris - e do restante da Amrica. A Doutrina de Monroe, aqui, aparece no como algo que estaria sendo desvirtuado, mas, sim, como dotada, desde seu surgimento, de evidente carter imperialista, carter este que seria capaz de "encobrir" sob a argumentao da "Amrica para os americanos" e da poltica pan-americana.
A partir de meados de 1927, constantemente at o ms de dezembro, com a aproximao da Sexta Conferncia Pan-americana  que ocorreria em janeiro do ano seguinte - aumenta significativamente a produo dos jornais com o intuito de analisar pormenorizadamente a poltica externa norte-americana. O Correio da Manh liderou essa "ofensiva", buscando as razes histricas do comportamento imperialista dos Estados Unidos. No artigo "A dupla penetrao norte-americana" ("CMh", 11/12/1927, p.04), o peridico do Rio de Janeiro, a partir das consideraes apresentadas no livro A iluso americana, de Eduardo Prado, teceu um extenso comentrio sobre o comportamento intervencionista norte-americano desde o sculo XIX, defendendo a idia de que havia uma "dupla penetrao" yankee em terras latino-americanas: material, atravs de instrumentos basicamente econmicos, como no caso das anexaes e compras de territrios efetuadas no sculo pg.131 XIX; mas tambm moral, pela imposio de seus valores e preconceitos como, por exemplo, a perseguio dos negros XIX; mas tambm moral, pela imposio de seus valores e preconceitos como, por exemplo, a perseguio dos negros por parte de alguns norte-americanos.
O jornal alertava, ainda, em um editorial do dia 28 de dezembro de 1927 - baseado em afirmaes de The Washington Post -, que no se devia ter esperana na Conferncia Pan-americana como possibilidade de qualquer modificao na Doutrina Monroe:

[...] No sabemos at que ponto  autorizada pelo governo americano essa advertencia. Mas parece que ella se encobre em fumaas officiosas, porque [...] o jornal diz com emphase de quem se despacha de uma encommenda: "Os Estados Unidos no supportaro que essa doutrina seja molestada".
[...] O mais interessante, em tudo, entretanto,  que o governo da grande Republica do norte julga que a Amrica Latina acredita no monroismo como outra coisa que no uma doutrina rapinante, que deu aos Estados Unidos o canal do Panam e talvez lhes d ainda o canal de Nicaragua, mas que jamais lhes dar o direito de ditar leis no Mxico e noutros Estados que j no se amedrontam [...]
[...] Pois que no o supportem, mas saibam que ella morreu da peor das mortes  a  do ridculo. Quem a matou? Foram os proprios Estados Unidos, com a applicao que lhe deram.
Na Argentina e no Chile, governo e povo pensam assim. Aqui no sabemos como pensa o nosso governo patritico e... nacionalista. Mas o povo pensa como o chileno e o argentino ("CMh", "Topicos & Noticias", 28/12/1927, p.04, itlicos no texto, negritos nossos).

Em meio s advertncias, os noticirios se encaminhavam para um momento de debate intenso, do qual nem os Estados Unidos nem os jornais puderam se desvencilhar: a Sexta Conferncia Pan-americana  ou Interamericana. Os jornais brasileiros questionavam-se, inclusive, a respeito de que carter teria a representao brasileira na conferncia, pois a imagem da diplomacia nacional no era das melhores

[...] Accentuando a importncia da representa sul-americana, nos Estados Unidos, esse escriptor [o artigo discorria a respeito de consideraes de Oliveira Lima] teve occasio de mostrar que o contraste que infelizmente se nota entre os emissarios da diplomacia brasileira e seus collegas de continente. Segundo seu valioso depoimento, a situao  actualmente a seguinte: "Emquanto o embaixador argentino, sr. Puyerredon, est merecendo grandes encmios da imprensa ameriicana, porque em vez de confinar-se  vida mundana, frvola e superficial, pg. 132 de Newport, cujo jantares e recepes em nada aproveitam aos interesses do paiz do agente [...]
 triste recordar, que a inimizade entre: o sr. Oliveira Lima e o nosso caricato embaixador nos Estados Unidos [Gurgel do Amaral], est  servindo de pretexto para que no se entregue a esse ilustre publicista a chefia da nossa embaixada em Havana, destinada por motivos de cabo de esquadra ao advogado Raul Fernandes. O sr, Octavio Mangabeira noi pode deixar dominar-se por sentimentos imprecisos de uma convivencia diplomtica, na escolha do futuro represemante do Brasil  na Conferencia de Havana.
[...] Para mostrar a atmosphera de sympathia que cerca o nome do sr. Raul Fernardes, que  indicado como candidato no Itamaraty, basta recordar a sua actuao em Versalhes, onde [...] elle se oppoz a verdadeira interpretao da doutrina de Monroe...
Essa  certamente uma pssima credencial para leval-o  Havana [...] ("CMh", "Diplomacia americana". 09/09/1927, p. 04).

Num artigo do dia 30 de setembro daquele mesmo ano, a Fofha da Noite tambm comentou a questo da indicao dos representantes brasileiros em Havana:

Depois de grande demora na indicao de nossa embaixada  Conferencia Pan-Americana, que dever reunir-se brevemente em Cuba, acaba de indicar agora o governo, esses representantes.
Tratando-se de um congresso par-americarm, cujos problemas a serem discutidos se circunscrevem diretamente aos interesses das naes deste Continente, -   bem de ver-se que a Conferencia de Cuba se reveste de um cunho todo particular, que em breve merece alguns commentarios.
Tendo-se em conta a natural e  cada vez mais accertuada hegemonia dos Estados  Unidos sobre outras naes continentaes, as conferencias pan-americanas, a  que vimos assistindo  nestes ltimos tempos, no tm outro objectivo maior sino offerecer, nos paizes ocupados pelos povos de origem ibrica, um campo prpicio [de] livre expanso do imperialismo yankee. Baseados na anachronica doutrina de  Monroe, os americanos do norte procuram por todos os meios ao seu fcil alcance, manter essa hegemonia com que a habilidade de seus antepassados soube acautelar os interesses do seu povo, em detrimentoo embora, das necessidades e aspiraes ibero-americanas. Hoje, graas a riqueza do Continente. Offerece os emprstimos necessarios s outras naes, em condies mais acceitaveis, e, em virtude disso vae controlando od srs. Governos, de geito a crear novas bases economicas e naves afim de satisfazer mais folgadamente as suas ambies imperialistas. Pg. 133
Deante dessas pretenes dadas as armas de lucta de que dispem os Estados  Unidos, os governos, da maioria das naes de origem ibrica, em vez de defenderem a soberania dos povos que dirigem, outra coisa no fazem sino se tornarem cumplices conscientes daquella poltica imperialista.
No bastassem os casos do Mxico, Cuba e Panam, que j experimentaram a vioLencia dessa intromisso estrangeira, em seus distinos lembrariamos o caso actual de Tacna c Arica, com o qual o giverno yankee esta jogando, diposto, mias que tudo, a satisfazer seu proprio interesse. 
Esse (sic) casos revelam a situao real e  aprente do imperialismo norte-americano. Os emprestimos favorecem os monopolios sobre exploraes privadas de toda  a natureza.  Quanto a estas, mais ocultas, no  accasio agora para relembrar.
Ora dadaessa situao,  vom que olhemos com olhos pessimistas para  a proxima Conferencia de Cuba. Sera forosamente  a continuidade da de Santiago.
 bem possivel que appareamos l, tambm, amarmentistas...
No entanto, pela presidncia de nossa embaixada, o sr. Raul Fernandes, talvez nem tomemos uma attitude conseqente [...] (FN, O Brasil na Conferencia Pan-Americana de Cuba, 30/09/1927, p. 01, grifo [negrito] nosso).
 
Outros artigos e notas continuaram a serem publicados, versando a respeito de pretensas incurses imperialistas dos norte-americanos, mas gradativamente as notcias se aproximam da temtica da Sexta  Conferncia Pan-americana, evento aguardado com a esperana de que se constitusse em espao de debate acerca das diractersticas da poltica externa dos Estados Unidos. O pan-americanismo  cada vez menos mencionado, enfatizando-se a questo da initrvenao:

Nicaragua vem sendo nos ultimos tempos, a victima indefesa do imperialismo norte-americano. Nao pequena, sem possibilidades materiaes de fazer valer a propria soberania, situada alm de tudo, em uma regio que desperta a cobia dos Estados Unidos, - a situao da Nicaragua se apresenta para as suas irms ibero-americanas, com o relevo histrico de uma projeco de destinos ern marcha. O sentimento de fraternidade originaria tende a solidificar, mais e mais, o bloco latino-americano, contra a preteno avassaladora da grande potencia do norte.
Agora mesmo, a atteno das outras naes latino-americanas, volta-se de novo para Nicaragua. Um telegramma da United Press, comunica-nos o seguinte: O departamento (norte-americano) de Marinha annunciou que dois aeroplanos, tres officiaes de marinha e um destacamento de recrutas tiveram ordem de seguir pg.134 para Corinto, na Nicaragua. Presume-se que a misso seja fiscalisar as eleies presidenciaes, marcadas para o dia 6 de Novembro".
Ha pouco tempo, tivemos occasio de commentar o facto de o general Sacasa, da Nicaragua, ter ido saber do Departamento Poltico norte-americano, si elle poderia concorrer s eleies em seu paiz. Isso queria apenas si os Estados Unidos permittiriam uma tal preteno.
Como se v por tudo isso, a Nicaragua j deixou de ser uma colonia econmica do Imperialismo "yankee";  agora, uma simples colonia poltica da Amrica do Norte. No fosse a revoluo mexicana de 1910, completada pela poltica de Obregon e de Calles, e o Mxico estaria hoje nas mesmas condies da Nicaragua.
Quando ser que o povo brasileiro abrir os proprios olhos?[...] ("FN", "O imperialismo em Nicaragua", 22/10/1927, p. 04, grifos nossos).

A Folha da Noite fazia questo de "prevenir" os leitores, alertando tambm as elites, quanto ao perigo representado naquele momento pelos Estados Unidos. "Qualquer preveno, nunca  demais [...]" ("FN", "Para os Estados Unidos ainda somos colonia [...], 16/11/1927, p. 06), bradava o jornal.
Nos ltimos dias do ano de 1927, a mesma Folha da Noite preparava os seus leitores para as discusses que se dariam no ms seguinte, com a Conferncia Pan-americana.
A sexta Conferencia Pan-Americana, agora reunida em Havana, capital de Cuba, vae se revestir de um interesse mundial em vista das theses que sero l discutidas. Uma dellas  a que se refere  creao da Sociedade das Naes Americanas, idea que teve origem na reunio da Commisso de Jurisconsultos ultimamente ocorrida no Rio.
Segundo refere um communicado da United, o jornal "Washington Post", em artigo officioso, referindo-se a essa projectada Sociedade, diz que "antes que a Conferncia Pan-Americana se envolva na discusso do tratado, deve ficar bem comprehendido que os Estados Unidos no permittiro a creao da Sociedade poltica das naes deste hemispherio. Os Estados Unidos no concordaro, em consulta s outras naes que assumpto que affectem a sua segurana e a sua dependncia, nem acceitaro parecer de outras naes sobre a maneira de cumprir o seu dever em favor da independncia das naes visinhas, a qual est garantida contra qualquer aggresso por parte dos Estados Unidos.
Segundo esse mesmo communicado, os Estados Unidos continuaro a manter essa independencia segura contra qualquer aggresso por parte de outras potencias. Afim de tornar essa poltica effectivam os Estados Unidos decidiro por si mesmos quando, onde e como acharem conveniente, e no tero socios (?) na execuo da doutrina de Monroe[...] pg.135
Por ahi se v qual  o esprito que norteia a poltica da Casa Branca. Antes de tudo, a resalva dos interesses do imperialismo "yankee"[...]
A Sociedade das Naes Americanas ser a regulamentao harmonica das relaes polticas entre os vrios povos deste hemispherio. Attentar contra o prestigio da falsa doutrina monroista. Contrariar os interesses das "grandes potencias" concentradas na Liga das Naes (europeas). Os Estados Unidos precisam estar s boas com o resto do mundo[...]
Logo, mesmo  fora, faro valer os prprios interesses nos demais paizes da Amrica.
"A Amrica, para os americanos "... do norte... ("FN", "A doutrina de Monroe na Conferencia Pan-Americana", 29/12/1927, p. 01, grifos nossos).

Como se pode notar no artigo acima, a Sexta Conferncia Pan-americana se iniciava com a pretensa "misso" de solucionar inmeras questes e dilemas do continente americano naquele momento, incluindo a questo da Nicargua. A interveno na Nicargua foi objeto de discusso - ainda que a contragosto dos Estados Unidos - na conferncia, que se realizou em Havana, Cuba, durante os meses de janeiro e fevereiro de 1928. Apesar de procurar minimizar os debates a respeito da questo nas sesses da conferncia, os norte-americanos foram duramente crticados por diversos pases latino-americanos, dentre os quais podemos destacar a Argentina, pela agudeza das crticas. Os jornais brasileiros publicaram artigos acerca da conferncia durante toda sua realizao, e as notas e telegramas a respeito da Nicargua durante esse perodo vo aparecer, muitas vezes, junto a esses artigos. A Nicargua foi objeto de debate na conferncia, e o mundo aguardava um posicionamento crtico de seus representantes perante as atitudes norte-americanas, o que no ocorreu, bem como continuaram a interveno norte-americana em terras nicaragenses e os conflitos por ela motivados at os anos de 1933 e 1934, respectivamente.

Referncias

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PECEQUILO, Cristina S. Continuidade ou mudana: a poltica externa dos Estados Unidos. So Paulo: Tese de Doutoramento, FFLCH-USP, 1999.
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. So Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SCHILLING, Voltaire. Estados Unidos x Amrica Latina: as etapas da dominao. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984.

SCHOULTZ, Lars. Estados Unidos: poder e submisso. Bauru: EDUSC, 2000.

SEBRIAN, Raphael Nunes Nicoletti. A repercusso do movimento sandinista na imprensa brasileira: 1926-1934. Assis, SP: Dissertao de Mestrado - UNESP/Assis, 2005. pg.137


ANTONIO LUSTOSA DE OLIVEIRA: O DESAFIO DE UMA BIOGRAFIA
WaIderez Pohl da Silva, UNICENTRO

As biografias tornaram-se definitivamente um dos gneros de leitura predilelos no Brasil e no mundo. Jornalistas, literatos e cineastas passaram a ocupar expressivo espao nessa rea, que era dominio quase exclusivo dos historiadores. A explicao para esse fato pode ser encontrada no longo perodo em que a biografia foi vista como modelo de histria tradicional, mais propensa  apologia do que  anlise. Foi a partir da dcada de 70, que a recuperao desses estudos tomou corpo entre os historiadores, que passaram a crticar as meta-narrativas marxistas e estruturalistas, e estabeleceram uma discusso profunda no campo historiogrfco, trazendo novas preocupaes sobre o homem, o espao e as relaes sociais.
Nessa perspectiva, ngela de Castro Gomes ressalta o fato de que " cada vez maior o interesse dos leitores por um certo gnero de escritos - uma escrita de si -que abarca dirios, correspondncia, biografias e autobiografias, independentemente de serem memrias e entrevistas de histria de vida" (GOMES, 2004, p. 07), tratando-se de um novo espao de investigao histrica - aquele do privado, de onde emerge a presena das mulheres e dos "homens comuns", sendo possvel descortinar novos objetos, metodologias e fontes:

 justamente no espao privado, que de forma alguma elimina o pblico, que avultam as prticas de uma escrita em si. Mas, como j se observou, no so muito freqentes pesquisas histricas que se concentrem na explorao desse tipo de escrita. O que  compreensvel, pois embora tal documentao sempre tenha sido usada como fonte, apenas mais recentemente foi considerada fonte privilegiada e, principalmente, tornada ela mesma objeto de pesquisa histrica (GOMES, 2004, p. 10).

Evidencia-se, cada vez mais, que os estudos biogrficos deixaram de exercer um papel coadjuvante na produo historiogrfica, passando a ocupar lugar destacado na historiografia mais recente. Roger Chartier, ao analisar essas novas tendncias historiogrficas, salientou que "o objeto da histria, no so ou no so mais, as estruturas e os mecanismos que regulam, pg.139 fora de qualquer controle subjetivo, as relaes sociais, e sim as racionalidades, as estratgias acionadas pelas comunidades, as parentelas, as famlias, os indivduos" (CHARTIER, 1994, p.102).
Da mesma forma Philippe Levillain considera que a biografia histrica, hoje reabilitada, no tem por vocao esgotar o absoluto do "eu" de um personagem, como j se quis e ainda se quer. Para ele, a biografia se constitui o melhor meio de mostrar os laos entre o passado e o presente, memria e projeto, indivduo e sociedade e de experimentar o tempo como prova de vida. A biografia, diz ele,  o local por exceLencia da condio humana em sua diversidade, se ela no isola o homem de seus dessemelhantes ou no o exalta s custas de diminuir os mesmos dessemelhantes (LEVILLAlN, 2003, p. 176).
A tarefa de se debruar sobre o que significa o percurso de uma vida  um desafio j apontado por Jacques Le Goff: "A biografia histrica 
uma das maneiras mais difceis de fazer histria" (Le GOFF, 1999, p,20). Ele se referia s obras "anacronicamente psicolgicas", ausentes de esprito crtico, que faziam deteriorar levianamente a noo de mentalidade, para jogar com o exotismo do passado. Enquanto ele prprio escrevia uma vida de So Lus, ponderava que algumas biografias publicadas nos tempos atuais so uma volta pura e simples no trabalho tradicional, anedtico, puramente cronolgico, que se sacrifica a uma psicologia ultrapassada, incapaz de mostrar significao histrica geral de uma vida individual.
A histria poltica foi outro campo onde a biografia encontrou novo flego. Aps ser marginalizada durante um longo tempo, a dimenso poltica do discurso histrico comea a se desvencilhar da acusao de ser um simples reflexo da estrutura socioeconmica, conquistando espaos autnomos dentro de estudos que crticavam os abusos cientficos da histria totalizante. Atravs de novas abordagens terico-metodolgicas, os estudos biogrficos permitem ao historiador escapar das explicaes simplistas dos fenmenos polticos, dedicando-se  dimenso subjetiva dos processos institucionais estudados.
As consideraes at aqui apresentadas tm a finalidade de indicar alguns pressupostos bsicos que norteiam a minha pesquisa de doutorado, cujo objetivo  construir uma biografia de Antonio Lustosa de Oliveira, o Joo do Planallo, atravs da investigao de sua trajetria poltica e o dilogo com a sua produo literria, buscando compreender uma etapa do processo pg.140 histrico da cidade em diversas conjunturas e a dinmica de sua transformao diante dos acontecimentos externos de ordem poltica, econmica e ideolgica que permearam o sculo XX. Envolvendo, tambm, compreender o pensamento de um grupo, uma classe e um momento, no sentido apontado por Paulo Alves, de que um homem nunca  uma individualidade, mas um agente social condicionado pelas contradies sociais que o identificam com uma determinada classe, em oposio a outras classes ou grupos sociais. Logo, todo indivduo se situa num plano de limitaes e condicionamentos sociais, polticos e ideolgicos (ALVES, 1983,pp.33-37).
Se fosse possvel apontar um personagem como central na histria de Guarapuava, o nome s poderia ser o de Antonio Lustosa de Oliveira. Trata-se de um dos personagens mais representativos da histria local, cujo percurso na vida pblica por si s no justificaria tal assertiva. So as obras literrias e jornalsticas, que ele produziu ao longo de sua vida, que impressionam pela intensidade com que iluminam a histria da cidade de sua poca. Dessa forma, autor e obra se aliam para fornecer o recorte de um perodo e de uma maneira de ver esse perodo.
Contudo, como construir um trabalho, cujo principal problema  o envolvimento da linearidade de uma cronologia e um percurso de vida que no  linear? Como trabalhar o contnuo e o descontnuo e pensar diferentes temporalidades?
Nessa perspectiva, vale recorrer a Robert Darnton, quando ele afirma que ao historiador deveria ser possvel descobrir a dimenso social do pensamento e extrair a significao de documentos, passando do texto ao contexto e voltando ao primeiro, at abrir caminho atravs de um universo mental estranho. Ou seja, buscar o significado inscrito pelos contemporneos no que quer que sobreviva de sua viso de mundo (DARNTON, 1986, pp. XVI  XVII).
Ao traar uma biografia de Lustosa, que participou da vida poltica da cidade e a registrou nas diversas dcadas, que foram objeto da sua produo literria,  possvel perceber as suas imbricaes com os "grandes acontecimentos" e os fatos poltico-culturais do seu tempo e, assim, interpretar a sua viso a respeito desse tempo. Portador de uma linguagem articulada e integrante de uma classe social que tinha acesso a mecanismos de transformao, esse personagem procurava moldar por meio de seus pg.141 discursos urn "ideal de cidade", conduzindo dessa forma o universo mental de expressiva parcela da populao" local.
Que cidade seria idealizada por Antonio Lustosa de Oliveira? Como algum posicionado na classe dominante a interpretava? E mais, como, sobre que bases, com ajuda de que aes seria possvel inseri-la em um mundo de progresso e de grandeza, como queria ele?
A cidade de Guarapuava, fundada por determinao de uma Carta Rgia, expedida pelo Prncipe Regente D. Joo, um 1 de abril de 1809, com a finalidade de defender o territrio das invases espanholas, foi ocupada atravs do sistema de doao de sesmarias, o que explica os grandes latifndios existentes na regio e a sua vocao para a agropecuria. Nos primeiros tempos de sua fundao, que iria ocorrer somente em 1819, a sua posio geogrfica insulada, seria a causa fundamental de seu atraso e pobreza.
Durante as primeiras dcadas da ento Vila de Nossa Senhora de Belm, o nico contato da populao com os centros de produo e consumo, era anual, quando expedies iam at o litoral em busca de sal e de munio para combater a hostilidade indgena.
A partir da segunda metade do sculo XIX, quando ocorreu a insero dessa Vila no ciclo tropeiro, conforme Gracita Gruber Marcondes, houve um grande progresso cultural, social e poltico, pois o tropeiro dinamizou o comrcio transportando as mercadorias, divulgou as notcias, conduziu as cartas, os jornais, revistas e foi o mais forte elo da unidade nacional; por isso, onde passou deixou a saudade na Rua das Tropas (MARCONDES, 1998, p.81).
A riqueza trazida pelo tropeirismo alterou as feies urbanas da Vila de Nossa Senhora de Belm, que recebeu os foros de Cidade de Guarapuava, em 1871. Seus contornos de cidade colonial principiaram a delinear-se com a construo de luxuosos palacetes, de clubes, estabelecimentos comerciais e at mesmo um teatro, o Santo Antonio, foi inaugurado, se tornando um ponto de encontro da intelectualidade local.
Porm, a partir das primeiras dcadas do sculo XX, uma sria crise econmica abateu-se sobre a cidade. Com a falncia da Feira de Sorocaba, extinguiu-se o grande veio de comrcio dos fazendeiros da regio, que haviam optado por abandonar a criao de gado, para se tornarem pg.142 tropeiros: buscavam os rebanhos no Rio Grande do Sul, para invem-los1 em Guarapuava. Novamente o estigma do isolamento, da pobreza e do atraso pairou sobre a cidade. A ausncia de meios de comunicao e transporte e de boas estradas que a interligasse aos grandes centro pareciam conden-la novamente ao ostracismo no centro-oeste do Paran.
Restaria, porm, uma populao que havia adquirido novos hbitos de consumo e se tornara mais exigente, e uma elite letrada, para quem foi oportunizada uma educao esmerada nos centros maiores como Curitiba, So Paulo e Rio de Janeiro. Tratava-se de filhos dos tropeiros enriquecidos, que passariam a liderar movimentos de presso junto s autoridades estaduais e federais em busca de solues para o municpio.
 nesse contexto que o jovem Antonio Lustosa de Oliveira, nascido de uma tradicional e abastada famlia de proprietrios rurais, que usufruiu oportunidades incomuns, se comparado queles com quem conviveu na mesma poca e espao geogrfico, iria se tomar, atravs de sua produo jornalstica, o "arauto" desse grupo social.
Algumas pessoas de seu tempo, que viveram prximas a ele, e que, ainda hoje, relatam essa experincia, descrevem-no como uma pessoa adiante de seu tempo, sempre em busca da palpitao do moderno, com uma disposio inata para alcanar

1 Invernar o gado significava deix-lo descansar por alguns dias para engord-lo. Com isso, ocorria um grande afluxo de tropas  cidade, que consumiam quase tudo que ela pudesse produzir.
objetivos pouco comuns  maioria das pessoas de sua poca. Na sua autobiografia  impossvel no perceber a influncia que o intelectual Romrio Martins2 exerceu sobre ele, marcando profundamente sua vida e obras, explicando a sua f cega no progresso e  nos valores positivistas.
Esse dndi da sociedade local, que viveu em contalo estreito com os grandes acontecimentos do seu tempo e com pessoas cujas decises o afetavam, fundou, em 1919, aos dezoito anos. o seu primeiro jornal, o Pharol, que antecedeu alguns outros que circularam at meados da dcada de 1970. pg.143 O editorial desse jornal expressou com clareza a causa que Antonio Lustosa de Oliveira iria abraar durante a maior parte de sua vida, a da luta pelo progresso da regio de Guarapuava:

O Pharol, intermorato combatente, em defesa dos postulados de progresso e grandeza do rinco do meu nascimento, iniciou a sua circulao no dia 15 de fevereiro de 1920, sob a minha direo, tendo como redator o conceituado mdico Dr. Roberto Cunha e Silva, que deu tudo de sua inteligncia e amor  terra guarapuavana, est destinado a ser o baluarte intelectual da inesquecvel e querida Guarapuava (OLIVEIRA, s.d, p.16).

Maria Helena Rolim Capelato, ao analisar o personagem na histria, considera uma abertura de perspectiva a recuperao de sujeitos annimos e a ao de grupos minoritrios, desde que essa recuperao dos sujeitos, das individualidades e a valorizao dos grupos minoritrios que o estudo das classes no leva em conta, no sejam considerados isoladamente (neles mesmos ou por eles mesmos), dizendo que  imprescindvel recuper-los num todo em que se integram e os explica. Caso contrrio teremos uma pulverizao da histria que no possibilita o conhecimento do passado (CAPELATO, s.d.. pp. 240  241).
Nesse sentido, nas primeiras dcadas do sculo XX, progresso e civilizao eram temas recorrentes. Na anlise de Regina Abreu, para os homens pblicos daquele tempo, ser moderno era remodelar cidades, implementar aes de grande vulto no territrio nacional como os trilhos urbanos, as estaes telegrficas, a formao dos trabalhadores nacionais. O trem, em especial, sintetizava visualmente o ideal de modernizao (ABREU, 1996, p. 103).
No raramente, em seus discursos jornalsticos, Lustosa evocava Machado de Assis, reproduzindo a citao: "O Brasil  uma criana que engatinha, s comear a andar quando estiver cortado por estradas de ferro". Essa crena o levaria, ao longo dos anos, retratar a luta pela chegada do trem em Guarapuava, o que iria ocorrer somente em 1954.
Em 1937, foi fundado o jornal a Folha do Oesle, que circulou at meados da dcada de 1970. Na coluna "Do meu canto", usando o pseudnimo de Joo do Planalto, o personagem por meio de crnicas induzia ao desejo, ao sonho de uma cidade, cujas mazelas seriam curadas pelo governo do Estado Novo: pg.144

Vivemos uma poca nova, sob a gide de um regime novo, que o povo reclamou e o grande Presidente Vargas implantou.  do primeiro magistrado da Nao que vm o convite s populaes e a ordem de marcha, na sntese da sentena salvadora: Rumo ao Oeste! Agora ningum nos ilude, a convico de que em breve termos a nossa estrada de ferro, pois essa obra  de interesse nacional e concretiza, tambm uma promessa do dinmico Interventor Manoel Ribas, feita ao assumir a Interventoria: Construirei o Porto de Paranagu e levarei as paralelas de ao para Guarapuava! (Jornal Folha do Oeste, n 61,  02/03/1941).

Na primeira pgina do mesmo jornal, manifestava-se o poltico Lustosa, em

2Romrio Martins, intelectual paranaense, foi um dos idealizadores do Movimento Paranista, que visava, principalmente, criar uma identidade para o Estado do Paran, atravs do enaltecimento dos feitos dos antepassados da terra, nos moldes positivistas, to em voga no pas nos primeiros tempos do sculo XX.
forma de editorial, solicitando s autoridades solues para o municpio, como no discurso endereado a Vargas:

A vs, a quem o Brasil deve tanta gratido: a vs que eamagaste as oligarquias que asfixiavam o nosso povo e que lhes destituam as energias criadoras, implantando a descrena na sua alma [...] pedimos que nos da a estrada salvadora, cuja concluso se far a umasimples determinao vossa, ficamos convictos que a teremos sem o maior embargo, porque diante de vosso patriotismo, orgulhoso de servir  Ptria, no haver razes que sobreponham o interesse da coletividade (Jornal Folha do Oeste, n 61,02/03/ 1941).

Nesse perodo, na dcada de 40, a base econmica de Guarapuava passou a sofrer profundas transformaes, as grandes propriedades criadoras de gado entraram em decadncia, as fazendas se despovoaram em funo da explorao da madeira, que passou a se constituir a principal atividade econmica da regio. O esgotamento das reservas de araucria do primeiro e segundo planaltos paranaenses e a necessidade de matria-prima para suprir as necessidades dos mercados interno e externo, provocou a corrida de empresrios do ramo a nova fonte, ainda inexplorada, o terceiro planalto paranaense onde se situa a cidade.
Acelerou-se, a partir dessa dcada, o ritmo de produo das serrarias, que derrubaram e serraram vultosas quantidades de no somente de pinheiros, como tambm de outras madeiras de lei. Atravs de carroas, essa madeira era transportada at a cidade de Ponta-Grossa, local do entroncamento da Rede Viao Paran - Santa Catarina, onde o produto era escoado para diversos mercados consumidores. Essa cidade, beneficiada por sua posio geogrfica estratgica e pelo terminal ferrovirio localizado no seu territrio, se tomou o centro consumidor e distribuidor da madeira pg.145 extrada cm Guarapuava, que no possua sequer estrutura para abastecer os ncleos populacionais que se formavam ao redor de suas serrarias e, como conseqncia, a regio, que era uma fonte de riqueza, no usufrua dessa riqueza.
Assim, as posies assumidas por Lustosa de Oliveira, em defesa do progresso da cidade, utilizando como principal instrumento o seu jornal, aumentaram o prestgio que j detinha e que lhe permitia ocupar um lugar de destaque na sociedade local, abrindo-lhe as portas para importantes cargos polticos: Prefeito Municipal de Guarapuava (1944 - 46), Deputado Estadual durante trs legislaturas (1947 - 57), Secretrio de Estado da Justia no governo de Moiss Lupion e Presidente Estadual da Caixa Econmica (1960 - 64), nomeado pelo Presidenie Juscelino Kubitschek.
Entretanto, esse personagem que transitou sem maiores dificuldades entre os perodos de transformao que caracterizaram a Revoluo de 30, o Estado Novo, a redemocratizao ps 2 Guerra,  golpeado pelo regime militar imposto ao pas em maro de 1964. No mesmo ms de junho desse ano, Juscelino Kubitschek havia sido cassado em seus direitos polticos. Lustosa, correligionrio, que ainda ocupava o cargo de Presidente Estadual da Caixa Econmica, para o qual tinha sido indicado por esse Presidente, foi exonerado em conseqncia de denncias apresentadas contra ele, pelas Associaes de Tesoureiros Economirios e dos Oficiais Economirios de Administrao do Paran, conforme relalou: "Foi executada minha priso incomunicvel, por indcios de culpabilidade, ordenada pelo comando da 5a Regio Militar" (OLIVEIRA, s.d., p. 42).
Embora tenha sido inocentado por um inqurito policial militar, esse fato encerrou a sua vida pblica. Da mesma forma, parece ter deslocado o eixo da sua carreira jornalstica. O jornal Folha do Oeste continuou circulando, mas nele a nfase recaia sobre o personagem fictcio, Joo do Planalto, e as suas crnicas publicadas na coluna Do meu canto. Essas crnicas j no falavam de um sonho ou um desejo. Falavam da nostalgia de um passado largamente idealizado e de lamentos sobre a cidade sem vestgios temporais, da qual j no era mais possvel ler a histria atravs de sua forma fsica, como demonstra uma delas, publicada em 1973:
Rarssimas so as casas antigas que ainda esto desafiando o modernismo arquitetnico. Duas delas, so as existentes, de vis a vis, na rua XV de novembro, pg.146 esquina da rua Vicente Machado. A que se encontra bem defronte do Pao Municipal para todos os usos. Nela funcional a primitiva Prefeitura, com a designao de Intendncia. Depois foi cadeia pblica, foi mercado municipal, e foi aougue, foi restaurante e  atualmente botequim e casa de frutas. O antigo sobrado, que pertenceu ao Coronel Pedro Siqueira Cortes, o descobridor dos Campos de Palmas, foi demolido em 1964, para dar lugar ao prdio da Caixa Econmica Federal do Paran, construo executada durante o mandato administrativo de Antonio Lustosa de Oliveira, que a frente daquele conceituado estabelecimento de crdito popular, como seu diretor-presidente, quis dotar sua terra natal de um empreendimento de vulto e embelezando a urbs de Guarapuava (JOO DO PLANALTO, s.d., p. 16).

Nessa coluna, em especial, Joo do Planalto forneceu um retrato das importantes transformaes da forma urbana de Guarapuava, que ocorreram a partir da dcada de 1950. O desejo de modernizao e progresso, praticamente destruram o traado urbanstico e arquitetnico da cidade colonial, cujos vestgios se tornaram esparsos e sumrios. Os raros palacetes sobreviventes, construdos pelas fortunas do tropeirismo, ficaram deslocados no contexto urbano. Tornaram-se peas isoladas entre os prdios, elos de um passado muito exaltado, descrito como glorioso, mas nem por isso preservado, conservado e respeitado.
Em outras crnicas, a nostalgia do passado e o desejo de reaviv-lo, parecem t-lo induzido a organizar campanhas bem sucedidas em favor da construo de monumentos, como o destinado a guardar os restos mortais do fundador da cidade Padre Francisco das Chagas Lima, na praa principal, 09 de dezembro, marco zero da cidade e o monumento da entrada de Guarapuava, em homenagem ao lendrio ndio Guairac,"grande heri" do imaginrio popular, por ter sido o defensor do territrio contra os espanhis, onde se inscreveu o brado, atribudo a esse ndio: "Co Ivi Oguereco Iara  Esta terra tem dono!".
Em sntese, o que procurei demonstrar at aqui,  uma possibilidade de releitura da histria da cidade, atravs da interpretao do olhar de um personagem que a viveu e nela desenvolveu o seu jogo, no sentido da anlise de Jacques Le Goff: "0 indivduo no existe a no ser numa rede de relaes diversificadas, e essa diversidade lhe permite tambm desenvolver o seu jogo. O conhecimento da sociedade  necessrio para ver nela se constituir e nela viver um personagem individual" (Le GOFF, 1999, p. 26). pg.147
Alm disso,  importante ressaltar a existncia de uma lacuna na produo historiogrfica a respeito de Guarapuava: a preocupao dos historiadores locais at o presente momento, tem se reportado ao tema da fundao da cidade e s primeiras dcadas do sculo XX. Estudos a respeito da cidade e a sua relao com os perodos referentes  Revoluo de 1930, ao Estado Novo, a democracia populista, at o regime autoritrio, so praticamente inexistentes. Tais momentos, que envolveram o testemunho  e a participao de Lustosa, levaram  transformao da cidade e a sua insero no Paran moderno, cujo marco histrico est vinculado ao nacional-desenvolvimentismo.
Atravs de um estudo biogrfico,  possvel redescobrir uma determinada poca, pelas mos de alguns de seus personagens mais representativos, permitindo a clara percepo de quantas reas importantes da histria se cruzam ou mesmo se confundem com ele, como a micro-histria/estudos de caso; autobiografia; prosopografia; histria oral/histrias de vida; dicionrios biogrficos, da mesma forma que os trabalhos sobre a vida cotidiana, sensibilidade e sociabilidade, discusses sobre memria, gerao/gnero/famlia histrias das "minorias": mulheres, cultura popular, etc.
Na anlise de Benito Bisso Schmidt, o retorno da biografia no mbito da histria, est longe de significar a simples retomada de um "gnero velho", mas se insere em um processo de profunda transformao das bases terico-metodolgicas da disciplina, que envolve um conseqente repensar de questes clssicas como: a relao indivduo/sociedade, as formas narrativas do conhecimento histrico, entre outras, apontado algumas caractersticas que diferenciam as biografias novas das tradicionais, ressaltando o deslocamento do eixo da escolha dos personagens enfocados, que antigamente privilegiava os "grandes vultos" nos moldes positivistas, engessado pela "verdade" documental e pertencente ao domnio da ideologia e, no contraponto, a historiografia atual, que se interessa pelos membros das classes subalternas, pelas pessoas comuns, pela "gente mida" (SCHMIDT, 2000, p. 51-52).
Da mesma forma, Carlo Ginzburg considera que uma trajetria de vida pode ser utilizada para esclarecer um determinado contexto. Por meio de um "paradigma indicirio" onde as fontes devem ser alhadas a partir de seu interior. Essa viso microscpica supe um conhecimento, roteiro para pg. 148 outro conhecimento mais abrangente, que se constitui um instrumento para dissolver as nvoas da ideologia (GINZBURG, 1991, p. 177- 178).
Nessa trilha, a historiadora Natalie Zemon Davis, no incio dos anos 80, se tornou uma celebridade no meio acadmico, ao publicar O retorno de Martin Guerre, onde utilizou uma histria local para levantar questes gerais. Para a autora, histria nos serve somente pelas perspectivas que nos abre, pelos pontos de vista que nos descortina, a partir dos quais podemos olhar e entender o presente. Tambm nos serve pela sabedoria ou pacincia que pode nos dar e pela esperana de mudana com que pode nos confrontar (DAVIS, 2000, p.88).
A tentativa de recuperao do esprito de uma poca a partir da reconstruo de episdios, nesse caso envolvendo a histria cultural francesa, tambm se faz presente na produo de Robert Darnton, especialmente no ensaio Um burgus organiza seu mundo: a cidade como texto. Nesse trabalho, a descrio da cidade de Montpellier, feita por um cidado annimo, porm "slido membro da burguesia da cidade", abriu-lhe a possibilidade de auscultar o mundo construdo na mente desse burgus, enquadrado em uma estrutura mental e colorido de emoo, mesmo sem o talento de Dickens, ao descrever Londres. Para ele, "no se tratava de descobrir o verdadeiro aspecto de Montpellier em 1768, mas entender como o observador a observou" (DARNTON, 1986, p. 144  145).
No entanto,  importante lembrar o fato de que personagens oficiais da histria no podem ser objetos de excelentes biografias. Os historiadores Christopher Hill e Jacques Le Goff ofereceram exemplo disso. O primeiro, realizou uma anlise da religio e da estadstica de OliverCromwell, de vital importncia para a compreenso e percepo de um grande homem que viveu no sculo XVIl, desvendando seus problemas e desiluses no poder e o processo revolucionrio que resultou na derrocada do direito divino dos reis. O segundo, produziu uma biografia de So Lus, obra que se constitui em uma chave mestra para todos aqueles que se propem a trilhar o caminho dessa espcie de produo historiogrfica, em especial quando recomenda que, ao se construir uma biografia histrica deve-se levar em conta, num certo sentido, como uma narrao de vida se articula em tomo de certos acontecimentos individuais ou coletivos, porque uma biografia que no  baseada em acontecimentos no tem sentido. pg.149 
 certo que a construo de uma biografia de um cidado comum permite investigar os espaos de exerccio da liberdade possveis de uma determinada sociedade, como considerou Giovanni Levi:

Nenhum sistema normativo  de fato suficientemente estruturado para eliminar toda possibilidade de escolha consciente, de manipulao ou interpretao das regras, de negociao. Parece-me que a biografia constitui nesse sentido o lugar ideal para se verificar o carter intersticial  e ainda assim importante  da liberdade de que as pessoas dispem, assim como para se observar como funcionam concretamente os sistemas normativos que nunca esto isentos de contradies (LEVI, 2002, p.  179  180).

Por outro lado, em 1986, Pierre Bourdieu, em um artigo intitulado A iluso biogrfica, fez estremecer o territrio dos bigrafos de planto. Tornou-se bastante difcil encontrar algum trabalho que, ao abordar o tema biografia, no citasse o alerta desse socilogo que definiu os acontecimentos biogrficos como alocaes e deslocamentosno espao social, nos diferentes estados sucessivos da distribuio dos diferentes tipos de capital que esto em jogo no campo considerado:

A histria de vida leva  construo da noo de trajetria como uma srie de posies ocupadas por um mesmo agente (ou mesmo grupo), em um espao ele prprio em devir e submetido a transformaes incessantes. Tentar compreender uma vida como uma srie nica e, por si s, suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outra ligao que a vinculao a um sujeito cuja nica constncia  a do nome prprio,  quase to absurdo quanto tentar explicar um trajeto no metr sem levar em conta a estrutura da rede, isto , a matriz das relaes objetivas entre as diversas estaes (BOURDIEU, 1996, p.81).

Para Bourdieu, expresses como "sempre" ou "desde pequeno" sinalizam a busca de uma coerncia, que se traduzem em linearidade nas histrias de vida. As prprias fontes, sobretudo as de carter autobiogrfico, so ardilosas, pois estabelecem uma conscincia e uma coerncia retrospectivas sobre um passado no to linear:

O relato autobiogrfico se baseia sempre, ou pelo menos em parte, na preocupao de dar sentido, de tornar razovel, de extrair uma lgica ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva, uma consistncia e uma constncia, estabelecendo relaes inteligveis, como a do efeito  causa suficiente ou final, pg.150 entre os estados sucessivos, assim constitudos em etapas de um desenvolvimento necessrio. E  provvel que esse ganho de coerncia e de necessidade esteja na origem do interesse, varivel segundo a posio e a trajetria, que os investigados tm pelo empreendimento biogrfico. Essa propenso a tornar-se o idelogo de sua prpria vida, selecionando, em funo de uma inteno global, certos acontecimentos significativos e estabelecendo entre eles uma coerncia (...) conta com a cumplicidade do bigrafo, que, a comear por suas disposies de profissional da interpretao, s pode ser levado a aceitar essa criao artificial deste sentido (BOURDIEU, 1996, p. 75  76).

Nessa perspectiva, Carlos Antonio Aguirre Rojas aponta para a necessidade de romper com a idia linear e simplista que envolve a biografia, onde o resultado final  conhecido desde o princpio da vida do personagem biografado, que avana em seu itinerrio como dentro de uma marcha ascendente, sem fissuras, lgica e totalmente coerente que no pode mais do que o conduzir at o objetivo predeterminado. A vida de um indivduo, diz ele, " enormemente mais complexa, repleta de encruzilhadas, de contradies, de golpes de sorte e de mudanas sbitas, de pontos abertos que um verdadeiro bigrafo deveria ser sempre capaz de apreender e incorporar em sua anlise" (ROJAS, 2000, p.40).
Ainda nesse ngulo,  importante retomar Benito Bisso Schmidt, que considera que uma biografia no deve se ater em buscar uma coerncia linear, enclausurada para a vida de seu personagem, mas sim buscar mltiplas facetas de sua existncia, transitando do social ao individual, do pblico ao privado, do inconsciente ao consciente, do familiar ao poltico, do pessoal ao profissional, e assim por diante, sem tentar reduzir todos os aspectos da biografia a um denominador comum. Afinal, como afirma o historiador Michel de Certeau, cada homem  "um lcus no qual uma incoerente e freqentemente  pluralidade de determinaes relacionais interagem" (SCHMIDT, 2000, p. 63 - 64).
Essas consideraes, apresentadas de modo sucinto, demonstram a forma pretendida de anlise e problematizao na abordagem do tema ora proposto. A tarefa de trabalhar um personagem, com o objetivo de captar seus sentimentos e percepes a respeito da cidade onde nasceu e passou a maior parte de sua vida,  desafiadora. A dificuldade inicial  tentar enquadr-lo ou generaliz-lo: h o Lustosa lder poltico regional, invariavelmente alinhado com o poder central; h o Lustosa detentor de latifndios e fundador da Sociedade Rural de Guarapuava, que ainda existe; pg.151 h o Lustosa membro de primeira hora da Maonaria de Guarapuava; h os mltiplos projetos em que se envolveu e h, principalmente, o jornalista e a sua criatura, o Joo do Planalto, onde se constata um gap entre criador e criatura. Dessa forma, o grande desafio passa a ser o exerccio de interpretao que envolve esse conjunto de ego e superego e seu relacionamento com a cidade.
ngela de Castro Gomes diz que os tempos modernos so de consagrao do indivduo na sociedade, quer como unidade coerente que postula uma identidade para si, quer como uma multiplicidade que se fragmenta socialmente, exprimindo identidades parciais e nem sempre harmnicas e com essa nova categoria de indivduo, transforma-se, entre outras, as noes de memria, documento, verdade, tempo e histria (GOMES, 2004, p.l2).
Alm disso, como afirmou Carlo Ginzburg, o passado  uma presa permanente da desconexo: "A crena na possibilidade de reconstituir o passado como um todo atravs das pinencial idades literrias iria ser superada pela conscincia de que o nosso conhecimento do passado  um empreendimento necessariamente desconexo, cheio de Iacunas e incertezas, alicerado em fragmentos e runas" (GINZBURG, 1989, p. 232).
Nesse aspecto, a forma de conhecimento histrico, que ele pronuncia, deve ser acessado por meio de indcios, um mtodo capaz de fazer emergir os pormenores mais nfimos: o paradigma indicirio, assim explicado alegoricamente, atraves do mtodo de uma historiografia tecel. O tapete  o paradigma que chamamos a cada vez, conforme os contextos, de venatrio, divinatrio, indicirio ou semitico. Trata-se, como  claro, de adjetivos no-sinnimos, que, no entanto, remetem a um modelo epistemolgico comum, articulado em disciplinas diferentea, muitas vezes ligadas entre si pelo emprstimo de mtodos ou termos-chave (GINZBURG, 1991, p.170). Dessa maneira, os fios que integram a pesquisa so similares nos fios de um tapete. Trata-se de uma trama que se adensa e torna-se homognia na medida em que vai sendo desvendada. O entendimento da coerncia dos desenhos inscritos depende do olhar que  lanado sobre ele a partir de mltiplas direes, onde as possibilidades so diversas. As leituras nos sentidos vertical, horizontal e diagonal variam conforme o ngulo adotado. 
Finalizando,  importante lembrar, ainda, a referncia de Nicolau Sevcenko a respeito das grandes revelaes desvendadas pela lupa pg. 152 implacvel do "detetive" Ginzburg: "O objetivo da pesquisa histrica  esgarar a pretensa coerncia do tecido discursivo, abrindo poros por onde transpirem presenas, experincias e sentidos, antes destinados a permanecer ocultos ou sufocados, como num teatro, cujo pano de boca nunca subisse" (SEVCENKO, 2003, p.05).

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OS PROFESSORES DE HISTRIA NO PELOTO DE FUZILAMENTO OU UM ELOGIO A PAULO FREIRE
Cerize Aparecida Nascimento Gomes, UNICENTRO
"Ensinar exige querer bem aos educandos ".
Paulo Freire

Reflexo     
"Ensino, crtica e reflexes, esse foi o  tema escolhido para o crculo de estudos do Curso de Histria, da UNICENTRO no primeiro semestre de 2006. A partir dessas trs palavras nos deparamos com muitas idias e questes sobre, o processo de ensino-aprendizagem, todas interligadas. Seria realmente impossvel o ensino sem a crtica e a reflexo. Ensinar  uma atividade mpar e os professores - mesmo os mais dedicados e titulados - sempre se deparam com problemas e dvidas quanto aos mtodos e aos resultados alcanados.
Refletir, embora seja uma proposta academicamente correta, no  uma tarefa nada fcil. A reflexo presume o enfrentamento  e a exposio dos limites e das falhas. Como fazer isso em um espao competitivo onde todos querem expor apenas as vitrias, os louros e os acertos. No h como mudar de direo sem que a crtica que fazemos se volte sobre ns. No h como continuar administrando a teoria do fingimento: " o governo finge que paga, o professor finge que ensina e o aluno finge que aprende".
Na maioria das instituies pblicas os educandos chegam no terceiro ou no quarto ano do curso sem terem realmente apreendido o conhecimento, sem nenhum norte. Eles pouco debatem as teorias repassadas e quase no as relacionam com seus autores. Enfim, neste pas  senso comum que "no adianta pedir ajuda aos universitrios". Diante dessas ponderaes, fica evidente que em algum momento da caminhada, todo o esforo dos educadores parece ter se transformado em p de giz. Nossa vontade de ensinar vai ao cho e se transforma em poeira branca que o primeiro vento pode levar embora.
Aps 12 anos em sala de aula dentro de uma universidade pblica, observo que  preciso com urgncia que os professores reflitam e critiquem pg. 155 a sua prxis. A crtica  muito comum entre os docentes da rea de histria no que diz respeito aos acontecimentos histricos, as grandes questes mundiais, aos processos polticos, aos governos, aos sistemas, enfim, ns, professores de histria, sumos levados  crtica pelo nosso ofcio, mais dificilmente, criticamos esse ofcio.
Posso dizer com segurana que colocar mtodos, pessoas e governos no peloto de fuzilamento e enviar questes e gentes para o paredo  com os professores de histria. De alguma forma nos tornamos juzes dos fatos, das coisas e da humanidade. Na concluso da sua obra Era dos Extremos, Eric Hobsbawm advertia sobre o risco do julgamento. "Mais do que julgar, precisamos compreender", dizia ele. E compreender  mais difcil do que possa parecer.
Fao essa observao diante da aceitao do simples fato de que raramente em nosso ambiente de trabalho dirio, a sala de aula, encontramos esse elemento, a compreenso.  impressionante como corremos o risco de nos distanciarmos da realidade ao nos debruarmos sobre os nossos autores preferidos (em sua maioria, franceses e ingleses).  admirvel a forma como os clssicos nos absorvem, tanto que por vezes perdemos a noo do tempo presente, da realidade que os nossos alunos enfrentam diariamente.
Por isso com frequncia precisamos nos perguntar quem so os nossos alunos. Sim, quem so os nossos alunos?
Em sua maioria, os discentes do Curso de Licenciatura em Histria, especialmente os do perodo noturno, so trabalhadores. Eles no so apenas estudantes como deveriam ser. Alguns vm de outras cidades, viajam horas seguidas num nibus aps um dia de trabalho. Todos enfrentam dificuldades e pode-se dizer que possuem um sonho em comum: ser professor ou professora.
Chegam   faculdade vindos de um ensino pblico que no tem as condies ideais para prepar-los adequadamente. Leram muito pouco, escrevem e expressam suas idias sem muita segurana. Esses estudantes, normalmente, enfrentaram e ainda enfrentam limites de toda a ordem, dentro e fora da universidade,
A primeira compreenso que umn professor deve ter  de que essa  a realidade, no apenas do curso de histria, mas de muitos outros. Ignorar isso  cometer algum tipo de sacrilgio contra a inocncia terica e a ingenuidade prtica dos nossos jovens alunos. Pg. 156
Jogar textos e mais textos sobre o primeiro ano, exigir o fichamento do maior nmero possvel dos autores clssicos, avaliar por meio de resenhas, ensaios e artigos, pessoas que a bem da verdade ainda sofrem para escrever uma carta,  exigir que eles se tornem hipcritas. Mesmo que esses estudantes o faam, estaro fazendo mras cpias, reprodues e nada mais. O sentido das idias dos nossos melhores autores no estar sendo apreendido se no encontrarmos efetivamente novas formas para trabalhar e enriquecer os contedos. As velhas frmulas j esto superadas e infelizmente poucas idias surgiram para que elas fossem devidamente substitudas.
 preciso andar com vagar. No se pode deixar que muitos se percam pelo caminho. Os mtodos de avaliao devem levar em conta a realidade, o grau de dificuldade, e at mesmo a falta de interesse que algumas disciplinas despertam nos discentes. Devem-se considerar os conceitos apresentados pelos esludantes. A criatividade e a curiosidade devem ser estimuladas e no reprimidas. No  de nada de novo sugerir que os estudantes participem da construo do conhecimento.
Para que sejam bons, para que sejam capazes de transformar a realidade, nossos alunos devem ter o direito de errar. Errando e aprendendo,  assim que se constri o conhecimento. Pobre do educador que exige que o educando acerte sempre, que se comporte sempre como mero discpulo de um mestre impregnado de sabedoria. Esse professor perde a melhor e a mais doce fatia do processo de ensino-aprendizagem.
Por isso, e preciso se perguntar tambm com certa frequncia quem somos ns professores. Sim. Quem somos ns?
Ns no somos apenas nossas teorias, nossos autores, nossos artigos e nossos ttulos. Tampouco apenas as nossas dissertaes e teses que to poucos lem. Somos um pouco disso e devemos ser mais do que isso para que no caiamos no academicismo puro e simples.   preciso refletir e ter em mente que tudo o que deixamos depois e alm de ns,  uma lembrana na memria dos educandos misturada com alguns saberes. E que representao ser essa? Ser que fala, ri, gesticula e sempre, sempre ensina. Ou no?
Pensando sobre essas questes e o legado que estamos construindo, decidi abordar nesse crculo de estudo, apenas um professor. Apenas uma obra e um autor. Escolhi "Pedagogia da Autonomia", de Paulo Freire, Um pedagogo que se traduz em um livro que fala e emociona, que exige e se doa, que pede rigor, mas tambm amor. Acima de tudo um libertador. Pg. 157
Lio de vida
Ao praticar a sua pedagogia do oprimido em 1963 e alfabetizar em 45 dias mais de trezentas pessoas de um assentamento de plantadores de cana-de-acar, em Pernambuco, o pedagogo brasileiro Paulo Freire transformou-se em um dos professores mais requisitados para proferir palestras sobre educao em todo o mundo. Seu trabalho com os pobres, marginalizados e excludos teve inicio na dcada de 40 e prosseguiu ininterruptamente at 1964, quando por ocasio do Golpe Militar o professor foi acusado de comunista,  tendo sido feito prisioneiro e em seguida exilado. Durante os 16 anos de exlio no Chile ou na Suia, nunca se afastou das questes relacionadas a educao. Desenvolveu programas de alfabetizao no Peru e na Nicargua, bem como nos pases africanos da Tanznia e de Guin Bissau.

Na Amrica do Sul, Europa, frica, Amrica do Norte e Central, suas idias revolucionariam o pensamento pedaggico univerasal, estimulando a prtica educativa de  movimentos e organizaes de diversas naturezas. Trs filosofias marcaram sucessivamente a obra de Paulo Freire: o existencialismo, a fenomenologia e o marxismo sem, no entanto, adotar uma posio ordoxa. Seu pensamento rompeu a relao cristalizadora de dominao, buscando pensar a realidade dentro do universo do educando, construindo a prtica educacional considerando a  linguagem e a histria da coletividade elementos essenciais dessa prtica (< http:// www.pucsp.br/paulofreire/paulofreire.htm>. Acesso em 10 mar.2006).

Freire sempre partiu de um pressuposto: para o processo de ensino-aprendisagem a cultura do educando  fundamental para a apreenso do conhecimento.  por meio de suas vivncias que os alunos adquirem experincias que embasam sua relao cum o mundo t com a educao;  dessa forma que ele desenvolve uma pedagogia crtico- libertadora. Freire torna-se extremamente revolucionrio porque permite aos seus alunos que apresentem suas prprias leituras de mundo e dessa forma eles compreendem-se  como reais sujeitos da hislria, Expondo suas idias, falando ou escrevendo sobre suas experincias, sentimentos e formas de ver a vida, eles  consolidam a educao como prtica de liberdade.

Para Freire, as questes e problemas principas de educao no so s questes pedaggicas, ao contrrio, so polticas. Sua proposta, a pedagogia crtica, como pg. 158 prxis cultura; contribui para revelar a ideologia encoberta na conscincia das pessoas. Seu trabalho revela dedicao e coerncia aliados a convico de luta por uma sociedade justa,voltada para o processo permanente de humanizao entre as pessoas onde ningum  excludo ou posto a margem da vida. Paulo Freire provou que  possvel educar para responder aos desafios da sociedade (<http://www.pucsp.br/paulofreire.htm>. Acesso em 10 mar.2006.).

A obra de Paulo Freire  ampla. Neste artigo escolhi trabalhar um livro apenas: "Pedagogia da Autonomia", porque esse foi um dos melhorespresentes que recebi como professora e pessoa em toda a minha vida. A tarefa de ensinar e rdua e envolvente,  tambm um dos ofcios que exige mais responsabilidade e autonomia.
Ao apresentar essa obra, Moacir Gadotti diz que Paulo Freire nos ensina a ensinar partindo do ser professor:

Numa linguagem acessvel e didtica ele reflete sobre saberes necessrios  prtica educativo-crtica fundamentados numa tica pedaggica e uma viso de mundo alicerados em rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco, humanidade, bom senso, tolerncia, alegria, curiosidade, competncia, generosidade, disponibilidade [...] molhadas  pela esperana.

Outro autor, Caetano Valdo Serpa, em artigo sobre tal obra, comenta que; "A 'Pedagogia da Autonoinia'  um livro pequeno em tamanho, mas gigante em esperana e otimismo, que condena as mentalidades fatalistas que se conformam  com a ideologia imobilizante de que a realidade  assim mesmo, que podemos fazer?. Para estes bastas o treino tcnico indispensvel  sobrevivncia. Em Paulo Freire, educar  construir,  libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberaI, reconhecendo que a Histria  um tempo de possibilidades.  um "ensinar a pensar certo" como quem "fala com a fora do testemunho".  um "ensinar a pensar certo" como quem fala com a fora do testemunho.  um ato modo algum produto de uma mente "burocratizada".

Em certo momento do seu artigo onde discorre sobre a importncia do pensamento de Paulo Freire o autor destaca ainda que esse livro representa um passo gigante para  a formao do professor ou da professora: "A Pedagogia da Autonomia  sem dvida uma das grandes obras da humanidade em prol duma educao que respeita todo o educando (incluindo os desfavorecidos) e liberta o seu pensamento de tradio desumanizante  porque opressoras. A esperana e o otimismo na possibilidade da mudana so um passo gigante na construo e  pg. 159  formao cientfica do professor ou da professora que deve coincidir com sua  retido tica (SERPA E SERPA, 1997).

Exigncias do ensinar segundo Paulo Freire
A biografia de Paulo Freire indica que ele  um dos maiores e mais significativos
educadores do sculo XX e que a sua pedagogia mostra um novo caminho para a relao entre professores e estudantes. E esse caminho  justamente a insero do conhecimento dos alunos no processo de ensino-aprendizagem.
Acredito que o professor ou professora que no tem nada a aprender com os seus alunos, tambm no tem nada para ensinar, O processo  uma via de mo dupla e s sendo assim permite transformar;ao social e construo da sociedade que vem sendo sonhada desde que Jean-Jacques Roussenu dissertou sobre a necessidade de uma sociedade mais humana, mais justa e mais fraterna.
A rota indicada por Paulo Freire  no tem complicaes;  simples e direta nos permite navegar por mares nunca dantes navegados. Segundo Paulo Freire ensinar exige:

Ensinar exige rigorosidade metdica.
Ensinar exige pesquisa.
Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos.
Ensinar exige criticidade.
Ensinar exige esttica e tica.
Ensinar exige a corporeificao das palavras pelo exemplo.
Ensinar exige risco, aceitao  do novo e rejeio a qualquer forma de discriminao.
Ensinar exige refexo crtica sobre a prtica. 
Ensinar exige o reconhecimento e a assuno da identidade cultural.
Ensinar exige conscincia do inacabamento.
Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado.
Ensinar exige respeito   autonomia de ser do educando.
Ensinar exige  bom senso,
Ensinar exige humildade , tolerncia e luta em defesa dos direitos dos  educadores.
Ensinar exige a apreenso da realidade.
Ensinar exige a convico de que a mudanca  possvel.
Ensinar exige curiosidade.
Ensinar exige segurana, competncia profissional e generosidade. pg.160
Ensinar exige comprometimento.
Ensinar exige compreender que a educao  uma forma de interveno no mundo.
Ensinar exige liberdade e autoridade.
Ensina exige tomada consciente de decises.
Ensinar exige saber escutar.
Ensinar exige reconhecer que a educao  ideolgica.
Ensinar exige disponibilidade para o dilogo.
Ensinar exige querer bem aos educandos.

Referncias
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessrios  prtica educativa. So Paulo: Paz eTerra, 1996.

SERPA, Caetano V.; Maria de Lourdes B. "Resenha de "Pedagogia de Autonomia", de Paulo freire". The Journal of Pedagogy, Pluralism and Practice. Issue 2, v.1. Fall, 1997. Disponivel em : < http://www.lesley.edu/journals/jppp/review_port.html>. Acesso em: 10 mar. 2006. pg.161



OLHANDO FRONTEIRAS: ESTRATGIAS PARA UMA IDENTIDADE BRASLICA NO SCULO XIX*
Jorge Nei Neves1, UFPR

Ao final do perodo imperial, nas ltimas dcadas do sculo XIX, h uma preocupao do governo brasileiro com a ocupao das terras consideradas devolutas dentro do territrio. A ocupao efetiva do Brasil aconteceu no sentido litoral-serto, onde empreendimentos bandeirantes tm o objetivo de colocar nos espaos mais remotos uma "marca de pertenci mento", levando um avano de "civilidade" para o interior supostamente desconhecido pela nao.
Na provncia do Paran essas preocupaes tambm so presentes, principalmente no que concerne  regio de fronteiras no extremo-oeste, num entroncamento de divisas administrativas entre Brasil, Argentina e Paraguai. Nesse contexto, havia uma grande apreenso devido  presena de estrangeiros argentinos e paraguaios que adentravam os limites brasileiros, a fim de traficar erva-mate e madeiras, produtos encontrados em grande abundncia dentro do espao nacional daquele local2.
O oeste paranaense se constituiu nesse perodo em um cenrio de diferentes entradas que trazem duas finalidades fundamentais: o abrasileiramento via expulso de estrangeiros ali arregimentados no interior das obrages,3 - extenses de terras de propriedade de estrangeiros que se pg.163 dedicavam  explorao de ervais e de madeira que eram escoados pelo prata, e o reconhecimento do territrio para o pas.
Dentro das configuraes acima apontadas, a pesquisa em desenvolvimento estar pautada na configurao desse espao no final do sculo XIX e incio do XX, analisando as medidas governamentais para garantir a segurana naquele local, considerado estratgico, porm, "devoluto".
Na medida em que a pesquisa tem como proposta discutir o abrasileiramento de um territrio de fronteiras, faz-se necessrio apontar, dentre outras questes, o que se entende sobre essa categoria. O sentido da fronteira, que se busca trabalhar, no est fechado em si, apenas como um limite que separa pases ou divises administrativas. Sobretudo, esse territrio condensa uma srie de manifestaes culturais, polticas e ideolgicas que permeiam o encontro desses limites.
De acordo com Magnoli (1988), as fronteiras seriam pontos de ligao. Segundo ele, "antes de separar, elas aproximam. Antes de segregar, viabilizam fluxos e influncias. So superfcies porosas de contato do territrio estatal com outros territrios, outros estados. Com outras realidades sociais, econmicas e polticas. Testemunhas da existncia do outro"4.
O governo brasileiro pretendia recuperar esse territrio, at ento ocupado por mo de obra paraguaia, argentina e de escassos indgenas, trabalhadores de grandes propriedades extrativas  os mensus5.
De acordo com essas preocupaes, fora fundada em 1889, ali naquele "serto paranaense", uma Colnia Militar fundamentada obviamente no interesse de desenvolver a regio e ocupar seu territrio supostamente "vazio". A ocupao dessas terras se constituiu em um processo de nacionalizao deste territrio. Assim, uma Colnia Militar significava implantar uma identidade brasileira, tema caro  defesa nacionai, posto que a presena estrangeira naquele territrio era uma constante ameaa aos interesses nacionais vinculados  posio estratgica que se tornar aquele ponto de fronteiras para a nao brasileira6. Pg. 164
Os registros apontam para a necessidade de trazer a essa regio do Paran um pouco de civilidade, provocando inmeras crticas ao modo pelo qual ela se encontrava abandonada, nesse caso, despovoada. Uma dessas crticas faz-se claramente presente

* Este artigo pretende discutir alguns aspectos da pesquisa que est sendo desenvolvida no Programa de Ps-Graduao em Histria da UFPR  Curitiba/PR, que versa sobre a regio extremo-oeste paranaense e suas configuraes no final do sculo XIX e incio do XX, em um cenrio de entradas que visam   homogeneidade da nao e a integrao dos limites estratgicos do pas. Procura-se analisar as atuaes do governo brasileiro nessa regio limtrofe, vinculadas s influncias do meio fsico em questo, sobre a vida poltica, econmica e cultural, na fronteira internacional no perodo supracitado.
1 Mestrando em Histria pela Universidade Federal do Paran  UFPR. Bolsista CAPES. Orientador: Prof. Dr. Carlos Alberto Medeiros Lima.
2 COLODEL, Jos Augusto. Obrages & companhias colonizadoras: Santa Helena na Histria do Oeste do Paran at 1960. Santa Helena: Prefeitura Municipal, 1988, p. 37.
3 Segundo Colodel, as Obrages eram Companhias estrangeiras, exploradoras de erva-mate e madeira, tendo como mo de obra, os mensus, ou seja, trabalhadores paraguaios, chamados de guaranis rnodemos. 
4 MAGNOLI, Demtrio. O que  geopolitica. So Paulo: Crculo do Livro S. A., 1998.p. 83.
5 Ibid.p. 53.
6 FREITAG, Liliane da Costa. Fronteiras perigosas, migrao e brasilidade no extremo-oeste paranaense. Cascavel: EDUNI0ESTE, 2000.
nas consideraes de Bellarmino Augusto de Mendona Lobo, um militar que chefiava a Comisso Estratgica responsvel pela abertura de estradas e a fundao de uma Colnia Militar na Foz do Rio Iguau. Em um documento apresentado ao Ministro e Secretrio de Estado e dos Negcios da Guerra, sobre a fundao da Colnia Militar do Iguass, ele diz que:

No nos era licito deixar de ocupar militarmente pontos fronteiros importantes quer para servirem de atalaias quer para apoio de movimento de foras terrestre e navaes, quer para n'ellas crearmos recursos para essas foras, quer ainda para servirem simultaneamente de base ao desenvolvimento industrial, commercial e poltico de certas zonas; assim como seria criminoso ate que deixassemos de estabelecer vias de communicaes seguras, para transportarem, a esses pontos, no menor tempo dado a maior somma de elementos de victoria. Esta providencia  tanto mais necessaria e imprescindivel quanto  certo que ella attender, ao mesmo tempo, a providentes interesses estrategicos, economicos, polticos, industriaes e commerciaes7 (sic).

Os problemas citados acima do conta do fato de que o espao de fronteira em foco era considerado um espao vital  defesa da nao, considerando que a ausncia de brasileiros acarretaria problemas de proteo estratgica contra a entrada de estrangeiros no territrio brasileiro. Aliados aos interesses de segurana nacional, a regio tambm era avaliada como um ponto de integrao comercial, visto que no era explorada pelos brasileiros devido s dificuldades do acesso terrestre que impossibilitavam a entrada de exploradores aos sertes da nao nesse perodo. O problema em voga era a falta de vias de comunicao que integrassem a fronteira aos demais pontos j "civilizados" no Brasil8. Pg.165
Enfrentar o problema da penetrao terrestre faz parte de todo um processo de marcha da ocupao dos "vazios". Nessa direo, Vidal e Souza (1997), afirma que essas ocorrncias de variao ocupacional dentro de uma rea interna, podem ser consideradas como o crescimento e a nacionalizao em direo  fronteira9.
Segundo a autora, a categoria fronteira no est somente vinculada aos limites com outras naes, mas tambm s modificaes que ocorrem dentro desse espao interno. Segundo ela,  internamente que o Brasil comeou a crescer. Esse encaminhamento , portanto, uma forma de expanso da fronteira. Em suas palavras:

a fronteira vem a ser intermdio entre um Brasil "cultivado" pela civilizao e outro ainda bruto, muito serto. Estender em profundidade a nacionalizao apossadora das terras de interior,  perdidas sem a decisiva marca de pertencimento ao Brasil, torna-se a mxima misso dos agentes fronteiros10.

Dentro desses pressupostos, considera-se que a regio extremo-oeste paranaense configura-se, nesse cenrio de entradas que visavam a homogeneidade da nao, atravs da integrao dos limites estratgicos do pas.
Nesse sentido, Vidal e Souza (1997) contribui com as anlises da construo desse territrio nacional. Nesse "ocupar de si mesmo" est o profundo sentido de construo da nacionalidade,11 ou seja, a construo de uma "identidade nacional" suplantando os "vazios" dentro do territrio brasileiro.

7 LOBO, Belarmino Augusto de Mendona. Memria apresentada ao Ministro e Secretrio de Estado e dos negcios da Guerra sobre a fundao da Colnia Militar do Iguass. SI.Abril de 1888.(manuscrito) p.3.
8COLODEL,op cit. p. 54.
9 VIDAL e SOUZA, Candice. A ptria geogrfca: serto e litoral no pensamento social brasileiro. Goinia: Ed. da UFG, 1997.
10Ibid., p. 135.
11Idem.
Ao se pensar a brasilidade para essa fronteira internacional, cabem aqui as consideraes de Nunes (1993), tambm contribuindo com esse entendimento. Segundo ele, a identidade nacional est vinculada  idia de "substituio dos valores estrangeiros por valores regionais"12. Nessa perspectiva, a implantao do "sentido da brasilidade" em um local marcado pg.166 pela ocupao de estrangeiros, representaria, conforme j exposto, impregn-lo com "valores" e "sujeitos" nacionais.
As fontes sobre o oeste paranaense, especificamente as que apontam a ocupao desse espao, destacaram certas imagens sobre o Paran e, consequentemente, sobre o Brasil-nao que se queria construir no decorrer do sculo XIX, contribuindo para a construo/formao da imagem que os brasileiros faziam da sua natureza e de si prprios.
Moraes (2002) enfoca que  caracterstica de uma sociedade fazer da construo do territrio um elemento identidrio13. Para o autor, "a construo das identidades regionais  uma manifestao plena daquele campo cultural denominado ideologias geogrficas".14
A fundao da Colnia Militar do "Iguass" seria um exemplo de ideologias geogrficas, dentro das formas de manifestao de idias atravs da maneira de pensar prpria de um indivduo ou grupo de pessoas sobre esse territrio, ou seja, a relao sociedade-espao, Moraes (2002) afirma que "as ideologias geogrficas alimentam tanto as concepes que regem as polticas territoriais dos Estados, quanto a autoconscincia que os diferentes grupos sociais constroem a respeito da seu espao e da sua relao com ele"15 .
Como j se observou, a ausncia da nacionalidade no espao de fronteiras entre Brasil, Argentina e Paraguai, constituiu-se devido  presena de estrangeiros exploradores e trabalhadores que realizavam a explorao da mata nativa e dos ervais existentes na regio.
Como proposta de soluo dos problemas decorrentes da segurana, integrao, desenvolvimento e guarnio desse territrio, no final do sculo XIX, o governo brasileiro procurou desenvolver estratgias para assegurar a legitimidade dessas terras, at ento, ocupadas por no-nacionais.
Para tanto, uma das medidas  estratgicas foi fundar ali, naquele "serto paranaense", uma Colnia Militar fundamentada obviamente no interesse de desenvolver a regio e ocupar seu territrio com sujeitos nacionais que conferissem ao espao uma identidade nacional. Em outras palavras, visava-se instituir, ali, as "cores" da brasilidade. Pg. 167
Trata-se da institucionalizao de uma geopolitca que se utilizou dos meios geogrficos em questo, vinculados aos interesses estadistas. Para essa discusso, trabalham-se algumas consideraes de Magnoli (1988) sobre o significado dessa geopoltica. Segundo ele, "a geopolitica  fruto da aproximao entre gegrafos e  generais, [...] encontro histrico entre a geografia e o Estado"16, ou, ainda, que "geopoltica  a cincia que concebe o Estado como um organismo geogrfico ou como um fenmeno no espao"17; "a geopoltica deve ser e ser a conscincia geogrfica do Estado"18 .

12 NUNES, Jos Horta. In: ORLANDI, Eni P. (org) Discurso fundador: a formao do pas e a construo da identidade nacional. Campinas, SP: Pontes, 1993. p. 46
13 MORAES, Antonio Carlos  Robert. Ideologias geogrficas. So Paulo: Hucitec, 2002. p. 96.
14 Ibid., p-1O1.
15 Ibid p.44.
16 MAGNOU, op cit. p. 84.
17 KJLLEN, Rudolf apud MAGNOLI, op cit. p. 84.
18 HAUSHOFER, Karl apud MAGNOLI, op cit. p. 84.

Dentro dessa perspectiva, o conceito de geopoltica configura-se como as aes estatais, vinculadas a categorias geogrficas, como  o caso da fronteira em estudo. As atuaes do governo brasileiro nessa regio de fronteiras esto ligadas s influncias do meio fsico em questo, sobre a vida poltica, econmica e cultural, a que se denomina geopoltica. Para Magnoli (s/d), "a geopoltica concerne aos direitos civis, s liberdades pblicas: a vida dos homens e das mulheres que residem nos espaos delimitados pelas fronteiras''19. Esse espao de fronteira configura-se, por conseguinte, como um espao de vivncia, produo e circulao de bens materiais e tambm culturais da sociedade ali estabelecida.
Portanto, a fundao da Colnia Militar no extremo-oeste paranaense corresponde a uma estratgia do poder nacional em ocupar a fronteira, e para isso, o governo brasileiro determina a instalao de uma Colnia Militar, naquela rea, como medida de segurana  manuteno das fronteiras internacionais.
Como estratgia geopoltica, o Ministrio da Guerra criou uma Comisso responsvel pela realizao dos trabalhos de Fundao de uma Colnia Mililar na rea, a fim de se ter um maior controle da fronteira e evitar os saques realizados pelos pases vizinhos.  
Thomaz Jos Coelho de Almeida, chefe do Ministrio da Guerra, nas instrues ao chefe da comisso encarregada da fundao da Colnia Militar do "Iguass", aponta questes de localizao fundamentais para a "sobrevivncia" da mesma. Segundo ele, pg. 168

Os trabalhos de fundao do Colnia sero precedidos das exploraes e reconhecimentos convenientes para determinar a escolha  a escolha do local mais apropriado, e do levantamento dos cursos d'agua que banham a respectiva rea, e sero  seguidos de perto pela demarcao de lotes urbanos e rusticos20. (sic)

O militar Jos Maria de Brito, participante da expedio de fundao da Colnia, diz que;

Amencionada Comisso foi chefiada ento pelo Capito Bellarmino Augusto de Mendoa Lobo, engenheiro militar, official competente e sobretudo honesto. Este chefe estabeleceu a sde da Comisso na cidade de Guarapuava, ponto que mais  se approximava do centro do permetro em que a mesma Commiso teria de operar seus trabalhos21.   (sic)

Segundo Brito (1977), em 25 de novembro de 1888, iniciou-se a viagem de "descoberta" de Foz do Iguau, tendo como chefe da expedio Jos Joaquim Firmino, "engenheiro militar, official nimiamente bondoso, sem vicios, honrado [...] esqueceu-se das elegantes e atrahentes ruas do Rio de Janeiro, para se lembrar somente do compromisso assumido"22, (sic)
Em sua narrativa, Brito (1977) afirma que a expedio teria chegado a Foz do Iguau em 15 de Julho de 1889, onde "em 7 meses e dias conseguiu o intrpido tenente Firmino, effectuar a descoberta de to desejada quo necessria foz do lguass, que o comodismo de uns e a poltica de outros no haviam permitido antes"23 .(sic)
19 MAGNOLI, op cit. p. 90.
20 ALMEIDA, Thomaz Jos Coelho de. Instrues ao chefe da comisso encarregada da fundao da colonia militar do Iguass. Rio Janeiro, junho de 1888. (manuscrito) p.3. 
21 BRITO, Jos Maria de. Descoberta de Foz do Iguass e fundao da colnia militar. Boletim do Instituto Histria Geogrfico e Etnogrfico do Paranaense. V. 32. Curitiba: s.n, 1977. p. 55. 
22 BRITO, op cit. p. 55/56.
23 lbid p.57.
Outro aspecto desse registro aponta para a necessidade de trazer at essa regio "abandonada" a "civilizao" que, em ltima instncia, significava explor-la a fim de torn-la produtiva. Sobre essa perspectiva, Moraes (2002) afirma que o colonizador desenvolve a idia de conquista 24. pg. 169 A colonizao significa tirar o territrio do estatuto de selvageria e imprimir-lhe feies, formalidades e convenincias em uso entre as pessoas que vivem em uma sociedade em "estado de adiantamento e cultura social".
Segundo Brito (1977), a instalao da Colnia deu-se efetivamente em 23 de novembro de 1889, pelo Tenente do exrcito Antonio Baptista da Costa Jnior, que atravs da ordem do dia n 1, informava  populao fronteira e s repblicas vizinhas que em Foz do Iguau haviam sido constitudas autoridades braslicas e afixou editais notificando que dali em frente se iniciavam os trabalhos de fundao da colnia de  e a concesso de lotes de acordo com a lei, aos que quisessem se inscrever colonos25.
A finalidade primordial da fixao de moradores colonos dentro da colnia militar tinha corno objetivo o povoamento da fronteira por brasileiros. Esses desenvolveriam a agricultura e a pecuria, a fim de fazer da regio um plo comercial desenvolvido26.
A parlir do que j foi exposto e atravs do desenvolvimento mais aprofundado dessa pesquisa, o enfoque principal ser estudar a institucionalizao de um empreendimento governamental colonizatrio, na qual se constituiu a Colnia Militar do "lguass" no final do sculo XIX e na primeira dcada do XX, e percorr-la sob diferentes "olhares", envoltos em contextos e diversidades culturais. Esses "olhares", dentro de suas concepes, articulam vises "perto" e "longe", que s vezes se contrapem nas construes representativas construdas acerca daquele local.
As fontes com as quais esse trabalho estar pautado, so documentos militares e relatos de viajantes, que trazem consigo a finalidade de entender o processo de implantao da Colnia Militar e das preocupaes referentes a questes de ocupao dos "vazios de brasilidade" e da segurana do territrio para a nao brasileira.
Neste artigo, o objetivo foi apresentar algumas indicaes dessa pesquisa que tem como foco compreender as diversas manifestaes elaboradas em torno da Colnia Militar do "Iguass" no que se refere  segurana e brasilidade. Busca-se explorar expresses, que criam sentidos pg.170 e formas ao ambiente de maneira diversificada, de acordo com a composio da vivncia dos produtores de discursos sobre o oeste paranaense dentro do perodo proposto para anlise.
Aqui foram levantados apenas alguns apontamentos iniciais, sabendo que ainda resta muito o que se produzir acerca desse tema, atravs de abordagens que sero significativas no processo de construo da historicidade dessa regio paranaense.

Referncias

ALMEIDA, Thomaz Jos Coelho de. Instrues ao chefe da comisso encarregada da fundao da colnia militar do Iguass. Rio de Janeiro, junho de 1888. (manuscrito)

BRITO, Jos Maria de. Descoberta de Foz do Iguau e fundao da colnia militar (texto de 1938). Boletim do Instituto Histrico Geogrfico e Etnogrfico Paranaense. V. 32. Curitiba: s.n, 1977.

LOBO, Belarmino Augusto de Mendona. Memria apresentada ao ministro e secretrio de estado e dos negcios da guerra sobre a fundao da Colnia Militar do lguass. SI. Abrff de 1888. (manuscrito)

COLODEL, Jos Augusto. Obrages & companhias colonizadoras. Santa Helena na histria do oeste do Paran at 1960. Santa Helena: Prefeitura Municipal, 1988.

24MORAES,op cit. p.97.
25BRITO, op cit. p. 60.
26 WACHOWICZ, op cit. p. 24.
FREITAG, Liliane da Costa. Fronteiras perigosas, migrao e brasilidade no extremo-oeste paranaense. Cascavel: EDUNIOESTE, 2000.

MAGNOLI, Demtrio. O que  geopoltica. So Paulo: Crculo do Livro S.A.,1988.

MORAES, Antonio Carlos Robert. Ideologias geogrficas. So Paulo: Hucitec, 2002.

ORLANDI, Eni P. (org) Discurso fundador: a formao do pas e a construo da identidade nacional. Campinas, SP: Pontes, 1993. pg.171

VIDAL e SOUZ, Candice. A ptria geogrfica: serto e litoral no pensamento social brasileiro. Goinia: UFG, 1997.

WACHOWICZ, Rui C. Obrageros mensus e colonos: histria do oeste paranaense. 2 ed. Curitiba: Vicentina, 1987. Pg. 172

RESUMOS 
pg. 173
OLHANDO FRONTEIRAS: ESTRATGIAS PARA UMA IDENTIDADE BRASLICA NO SCULO XIX
Jorge Nei Neves, UFPR2

Esta comunicao pretende discutir alguns aspectos da pesquisa que est sendo desenvolvida no Programa de Ps-Graduao em Histria da UFPR - Curitiba / PR, que versa sobre a regio extremo-oeste paranaense e suas configuraes no final do sculo XIX e inicio do XX, em um cenrio de entradas que visam  homogeneidade da nao e  integrao dos limites estratgicos do pas. Procura-se analisaras atuaes do governo brasileiro nessa regio limtrofe, vinculadas s influncias do meio fsico em questo, sobre a vida poltica, econmica e cultural, na fronteira internacional no perodo supracitado.

IMPERIALISMO "YANKEE": ASPECTOS DA REPERCUSSO DA INTERVENO NORTE-AMERICANA NA NICARGUA (1926-1927)
Raphael Nunes NicoIetti Sebrian 

A interveno norte-americana na Nicargua, ocorrida entre os anos de 1927 e 1934, repercutiu, na poca, de diversas maneiras, em vrios mbitos e em muitos pases. No Brasil, tal fato no se deu de forma diferente, e alguns peridicos dedicaram, durante o perodo, espao privilegiado para o debate acerca das aes norte-americanas em terras nicaragenses. Analisaremos algumas caractersticas de tal repercusso nos pg. 175 anos de 1926 e 1927, nos jornais brasileiros Folha da Manh, Folha da Noite, Correio da Manh e O Estado de S. Paulo.
 
GUARAPUAVA: A CIDADE E PROGRESSO NO OLHAR
DE ANTONIO LUSTOSA DE OLIVEIRA, O JOO DO PLANALTO
Walderez Pohl da Silva, UNICENTRO2

Se fosse possvel apontar um personagem como central na Histria de 

 Apresentado em 19/03/2006. Sesso nica.
 Mestrando em Histria.
 Departamento de Histria - UNICENTRO/Guarapuava.
 Apresentado em 29/03/2006. Sesso nica.
2 Departamento de Histria. UNICENTRO/Guarapuava.
Guarapuava, um dos nomes deveria ser Antonio Lustosa de Oliveira, o Joo do Planalto  (1901 - 1995). Trata-se de personagem dos mais representativos da histria local. As obras literrias e jornalsticas produzidas por ele, ao longo de sua vida, impressionam pela intensidade que iluminam a histria da cidade de sua poca. Assim, autor e obra se aliam para fornecer um recorte de um perodo e de uma maneira de ver esse perodo, colocando em evidncia as imbricaes da cidade com os grandes acontecimentos polticos, sociais e culturais dessa poca. 

HISTRIA DO PARAN: UM ENSAIO HISTORIOGRFICO
Gislaine Ferreira3
Liliane da Costa Freitag2

A presente comunicao tem como objetivo expor a pesquisa a ser trabalhada em nvel de TCC (Trabalho de Concluso de Curso) do curso de Histria da Universidade Estadual do Centro-Oeste. Pg. 176
O tema a ser desenvolvido trata de uma anlise historiogrfica em torno da obra "Histria do Paran", de autoria de Romrio Martins publicada em 1899. Em especial, buscarei analisar a forma pela qual esse intelectual paranista constri discursivamente o que pode ser considerado como "mito indgena do Guairac". Esse encaminhamento consistir em uma interpretao do "seu olhar" sobre o Paran e o Estado que pensava construir. Essa construo  entendida como um "discurso autorizado" no vis proposto por Pierre Bourdieu. A metodologia de anlise est em fase de construo, uma vez que a pesquisa ainda est sendo gestada sob a orientao da Prof Mestre Liliane da Costa Freitag.

O DISCURSO POLTICO DA IGREJA CATLICA NAS DCADAS DE 1930/40 ATRAVS DA FALA DE ALCEU AMOROSO LIMA (TRISTO DE ATHAYDE)
Flamarion Laba da Costa2

Este trabalho tem como objetivo principal estudar e analisar a fala poltica de Alceu Amoroso Lima (Tristo de Athayde) por meio da revista "A ORDEM", de orientao catlica, que a partir da dcada de 1930 externou o pensamento e o discurso poltico-catlico daquele personagem. Pg. 177

CLASSIFICAO E LEITURA DO ARQUIVO PESSOAL DO PREZADO SENHOR JESUINO MARCONDES.
Zeloi Aparecida Martins dos Santos2

O presente trabalho tem como objetivo analisar as cartas de Jesuno Marcondes Oliveira de S, personagem da Histria paranaense no sculo XIX. O acervo  composto principalmente por cartas particulares entre Jesuno Marcondes e seus parentes as quais contemplam assuntos particulares entre familiares, mas tambm questes em torno da poltica provincial e imperial, negcios, comrcio de gado, aberturas dos caminhos, etc. Esse acervo foi localizado na Biblioteca Pblica do Paran, em Curitiba.


2 Departamento de Histria. UNICENTRO/Guarapuava.
3 Graduanda. UNICENTRO/Guarapuava.
 Apresentado em 30/03/2006, sesso 1.
2 Departamento de Histria. UNICENTRO/Guarapuava.


KAINGANGS E COLONOS: INTERPRETAES E VERSES DO CONFLITO NA VILA DA PITANGA (1923)
Grazieli Eurich2
Orientador Raphael N. N. Sebrian3

O presente trabalho expe as reflexes de uma pesquisa que tem como tema o conflito entre os ndios Kaingangs e os colonos, ocorrido em 1923 na sede da Vila da Pitanga, atual cidade de Pitanga, estado do Paran. A pesquisa pretende trazer uma nova interpretao ao conflito atravs do estudo comparativo do interrogatrio dos ndios detidos (documento de 1923, do Arquivo Histrico de Guarapuava) e da literatura regional. Pg. 178
 Apresentado em 30/03/2006, sesso 1.
 Graduando (a).UNICENTRO/Guarapuava.
3 Departamento de Histria. UNICENTRO/Guarapuava.

MORALMENTE FALANDO: O DISCURSO E A PRTICA DO "SENTIDO DE RESPEITO" NA SOCIEDADE GUARAPUAVANA(1963)
Maurcio de Fraga Alves Maria2
Orientadora: Marcia TerezinhaTembil3

A sociedade guarapuavana da dcada de 60  marcada por vrios discursos que permeiam o cotidiano local, entre eles o discurso do que se entende por "moral", que, mesmo no sendo constitudo em "cdigo" escrito, rege todo um conjunto de prticas da vida social da cidade. Nessa perspectiva minha inteno  demonstrar, a partir de fontes como processos-crime e crnicas locais, de que forma se efetivavam esses discursos, alm de enfocar algumas das contradies presentes em uma sociedade que se auto-afirmava "tradicional", mas que buscava a "modernidade".

GERMANIDADE E AO POLTICA NO CENTRO SUL DO PARAN: TEUTO-BRASILEIROS NA CIDADE DE IMBITUVA (1937  1945)1
Guilherme Maier2

A pesquisa a que se refere este resumo tem como objeto de investigao a constituio e a atuao dos teuto-brasileiros no cenrio do Estado Novo, mais especificamente na comunidade residente na cidade de Imbituva (PR), no perodo entre 1937 e 1945. Com o objetivo de entender como os teuto-brasileiros interagiram a perspectiva de nacionalizao frente o estado novo, pg.179 tendo em destaque o pastor Bachimont da igreja luterana, que foi preso no final de 1942, e a igreja teve suas portas fechadas.

OS PROFESSORES DE HISTRIA NO PELOTO DE FUZILAMENTO1
Cerize Aparecida Nascimento Gomes2
Partindo do pressuposto marxista de que a histria  a cincia que tem o poder de conscientizar, libertar e transformar a sociedade, esta pesquisa aponta para a crise referencial, conceitual e terica da histria enquanto disciplina. A partir dos resultados do Exame Nacional do Ensino Mdio de 2006, este estudo sugere a reflexo crtica sobre os mtodos de ensino-aprendizagem e a formao de professores nos cursos de histria, evidenciando a importncia das concepes pedaggicas de Paulo Freire no que diz respeito  construo de uma sociedade mais justa, humana e autnoma.
1 Apresentado em 30/03/2006, sesso 1.
2 Departamento de Histria. UNICENTRO/Guarapuava.
3 Apresentado em 30/03/2006, sesso 2.
MEMRIAS DO MUSEU DA PMPR: REPRESENTAES DA MULHER-POLICIAL1
Rosemeri Moreira2

A partir de 1977, mulheres passaram a fazer parte do efetivo da PMPR, a qual, baseando-se no essencialismo feminino utiliza-se do discurso comtiano do "anjo tutelar" para legitimar uma insero at ento permitida somente para o corpo viril  o masculino.
Desde ento, o Museu da PMPR  Curitiba, lugar oficial da pg.180 memria sobre esse processo, arquiva reportagens da imprensa escrita em que as policiais aparecem como sujeitos da notcia. A representao feminina que aparece nesses "recortes" ora enfatizam o discurso da insero - mulher-me, ora enfatizam a carncia do corpo viril.

1 Apresentado em 30/03/2006, sesso 2.
2 Departamento de Histria. UNICENTRO/Guarapuava.

O FUTEBOL BRASILEIRO NA DCADA DE 90 EM QUESTO1
Cesar Zimny2
Orientadora: Cerize Ap. Nascimento Gomes3

O presente trabalho demonstra o processo de transformao que ocorreu no futebol brasileiro na dcada de 90 e como esse esporte  hoje uma paixo do povo brasileiro. Algo que est na cultura do povo, tanto de pobres quanto de ricos; foge para alm das quatro linhas do campo e se transforma num comrcio, num negcio altamente lucrativo, na medida em que sai de um momento nostlgico, em que se prezava a arte, para agora se prezar o valor e fazer parte de uma cultura capitalista e principalmente consumista. Busca o lucro acima de tudo e aliena o povo para outras questes bsicas e essenciais da sociedade. pg.181

1 Apresentado em 30/03/2006, sesso 2.
2 Graduando (a). UNICENTRO/Guarapuava.
3 Departamento de Histria. UNICENTRO/Guarapuava.

OS NOVOS SIGNOS DO SISTEMA CAPITALISTA1
Eliane Alves2
Eliane de Ftima Bueno2
Maria Eivina Mendes2
Orientadora: CerizeAp. Nascimento Gomes3

O desenvolvimento do capitalismo e as suas novas tecnologias apresentam smbolos cada vez mais sofisticados que influenciam no ensino de modo geral. Nesta pesquisa, apresentar-se-o teorias e estatsticas sobre o uso cada vez mais acentuado de jogos eletrnicos e televiso, alm das implicaes que esse uso traz para o ensino e aprendizagem de crianas do Ensino Fundamental e Mdio.

FOGO E GUA: A IMPORTNCIA DA NATUREZA PARA O DESENVOLVIMENTO DAS CIVILIZAES1
Ivon Eduardo Faria Pacheco2
Orientadora: Cerize Ap. Nascimento Gomes3

Esta pesquisa evidencia a importncia dos elementos da natureza, em especial a descoberta do fogo que influenciou a formao dos primeiros ncleos familiares e a utilizao da gua dos grandes rios para o desenvolvimento da agricultura. Procurar-se- destacar que conquistas to importantes para todas as civilizaes, ou contriburam para o surgimento da indstria blica, no caso do fogo, ou esto em vias de escassez, como a gua. Promover a reflexo sobre isso  fundamental para garantir o debate sobre a preservao dos mananciais aqferos, que esto ameaados em vrios pases. pg.182

1 Apresentado em 30/03/2006, sesso 2.
2 Graduando.UNICENTRO/Guarapuava.
3 Departamento de Histria. UNICENTRO/Guarapuava.





